ESTÃO FAZENDO UM BARULHO TÃO GRANDE NOS MEUS 80 ANOS,
IMAGINA QUANDO EU FIZER 160?....
ESTOU PEDINDO PARA O PESSOAL QUE ESTÁ CELEBRANDO
PARA TRATAR DE NÃO MORRER...
DITO POR SUASSUNA EM ENTREVISTA À FERNANDA MONTENEGRO

OS 80 ANOS DE ARIANO SUASSUNA

Ariano Vilar Suassuna nasceu em 16 de junho de 1927 e desde o mês anterior, este que é um dos nossos mais importantes dramaturgos brasileiros tem encantado aos que vão ouvi-lo, para homenageá-lo por seu octogésimo aniversário. Ele tem o dom de comunicar temas complexos de forma simples e prazerosa e emocionar platéias sem distinção de sexo, classe social e idade.

Sua conferência no último dia 7 de maio, no Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro, foi maravilhosa.  Seu estilo irreverente, radical e extremamente inteligente encantou a todos os presentes: professores, escritores, diretores e atores na aula espetáculo dele na EMERJ - Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro.

Era como se todos tivessem mergulhado no mar de palavras, imagens e emoção no mundo de Suassuna. O rico universo do sertão nordestino, dos mitos, mistérios e revelações, justiças e injustiças, de amor e morte, do sagrado ao profano.

Em sua homenagem foi criado o evento Ariano Suassuna- 80 anos, com exposições, mostra de filmes, mesas-redondas e lançamentos de livros e a mini-série adaptada de seu romance A Pedra do Reino, que a TV Globo exibe desde dia 12 de junho.

Assim como, suas aulas-espetáculos quando se entende o seu sonho de findar a enorme distãncia entre o Brasil oficial e o real. Este sonho perseguido de forma  coerente em sua obra artística e em sua atuação política-cultural, seja como  professor, seja como secretário de cultura ou em qualquer outro cargo representativo que ele tenha assumido em sua vida. Suassuna é acima de tudo um homem coerente e ético, valores raros na época atual.


SÓ COMPARO SUASSUNA, NO BRASIL, A DOIS SUJEITOS: A VILLA-LOBOS E A PORTINARI. NELES, A FORÇA DO ARTISTA OBRA O MILAGRE DA INTEGRAÇÃO DO MATERIAL POPULAR COM O MATERIAL ERUDITO, JUNTANDO LEMBRANÇA, TRADIÇÃO E VIVÊNCIA COM O TOQUE PESSOAL DE ORIGINALIDADE E IMPROVISAÇÃO.
RAQUEL DE QUEIROZ

A nossa colunista na área cultural, Walda Menezes é uma jornalista realizada. Uma das mais importantes deste país, em sua longa carreira atuou como editora do suplemento dominical do O Jornal, colunista dos Diários Associados; coordenadora de Moda das revistas Cigarra e O Cruzeiro; Chefe de redação da revista Desfile. Trabalhou em televisão e hoje em dia, colabora para revistas e jornais. Entre as inúmeras entrevistas que fez, ela destaca entre suas melhores as com Artur Miller, Jean Claude Barrault e Ariano Suassuna, que publicamos a seguir:

O GRANDE SUASSUNA
WALDA MENEZES

Conhecido em todo o país como dramaturgo, autor de O Auto da Compadecida, O Santo e a Porca e outras peças de sucesso, Ariano Suassuna ganhou nova dimensão de ficcionista, com o Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe de Sangue do Vai-e-volta. Trata-se de um alentado volume de mais de 600 páginas, um romance farsesco da editora José Olympio, que para ele é apenas "um transbordamento do meu mundo interior."

Alto, ossudo, sem pose, desde os tempos de colégio Ariano tinha fama de fabuloso contador de histórias. Na hora de falar de si próprio, porém ontem como hoje, poucas palavras. Com isso, estou preparada para uma conversa em ritmo de sala de visitas à antiga maneira nordestina.

" Embora que eu seja conhecido como autor de teatro, minha verdadeira vocação é a poesia. Sou dramaturgo quase por acaso. As peças foram escritas pro influência de Hermilo Borba Filho, e também porque tínhamos fundado o Teatro Estudante de Pernambuco. Mas não sou por vocação exclusiva um escritor teatral. Sou mesmo poeta".

"TENHO ALGO DE PADRE, POETA E CANGACEIRO"

Os gestos e a voz calmos, misturando uma excelente capacidade de verbalização ao carregado sotaque nordestino, Suassuna quebra o gelo:

- "Os meus inimigos dizem que depois de O Auto da Compadecida morri como escritor. Pode ser que devido a isso eu tenha inventado uma aparelhagem de defesa. Mas de todas as peças eu prefiro A Farsa da Boa Preguiça, que ainda não foi encenada aqui. Em primeiro lugar porque é escrita em versos, ao contrário do Auto que é prosa com espírito poético. E depois porque se liga muito aos cantos dos trovadores de minha terra."

E como foi que os trovadores entraram em sua vida?

- "Eu devia ter uns sete, oito anos. Estudava em Taperoá e como diversão, participava com outros meninos, de caçadas e expedições às fazendas em volta. Nessa fase de traquinadas, com a cabeça vazia de idéias que não fossem as de inventar novas brincadeiras recebi o impacto da poesia popular: ouvi, pela primeira vez, numa feira, o desafio de viola entre dois cantadores muito famosos, Antônio Marinheiro e Antônio Marinho. Achei bom, achei estranho. Um deles, além de improvisar, cantou um folheto inteiro de cor. A história falava de uma visagem. Isso no Nordeste quer dizer assombração. Na minha alma de menino aconteceu alguma coisa que eu não soube explicar. Só depois é que a minha vida estava dividida em antes e depois dos trovadores."

Um marco realmente. Que se reconhece em cada coisa que escreve:

" Sim, procuro em tudo o que escrevo expressar o meu amor, o meu encantamento, pelas formas mais rudes de expressão popular. Tento fazer literatura erudita baseada em literatura de cordel".

Suassuna explica que não pesquisou esse veio tão rico do folclore de sua terra: "Vivi a literatura de cordel. Hoje sei porque os folhetos de feira exerceram uma atração tão grande sobre mim. Eles são a fonte mais autêntica de uma literatura brasileira feita e vivida à margem da civilização urbana e suas influências cosmopolitas."

Nesse professor de Filosofia da Arte, tão atento às correntes populares não deve haver, portanto, guarida para o anti-romance:

"O anti-romance, o anti-herói são coisas nas quais não me enquadro. Até para a Europa, a antiliteratura é uma covardia, um beco sem saída. Quanto mais pra mim que sou, além de brasileiro e nordestino, sertanejo."

- "Minha obra não é autobiográfica. E mais uma caricatura do meu mundo interior. Isto é, todas as vivências aí estão. Tenho alguma coisa de padre desonesto, de poeta preguiçoso, de cangaceiro frustrado."

Suassuna refere-se aos seus personagens preferidos, ao Chico e João Grillo do Auto da Compadecida, ao Joaquim Simão da Farsa da Boa Preguiça, à maledicente Dona Clarabela, ao Quaderna do seu romance. "Este mundinho todo saiu de dentro de mim. Acho que sublinha com riso as coisas que eu fui vendo pela vida afora. Tem muito de recreação."

No entanto, o menino que saiu da cidade da Nossa Senhora das Neves, capital do Estado da Paraíba do qual o pai era governador, para tornar-se uma figura importante da literatura brasileira, não teve uma infância fácil:

"O meu mundo de criança foi muito sofrido. Meu pai foi assassinado em plena Revolução de 30, minha casa cercada por uma multidão enfurecida. Senti medo diante das coisas que para meus três anos de idade, não tinham explicação. Agora ainda, falando nisso, Suassuna tem um ar patético que comove. Mas volta imediatamente ao seu jeito tranqüilo:

- "Superei todo o sofrimento sem análise. Um dos meus caminhos de libertação foi o riso, o outro, a literatura".

Outras coisas iriam marcar os primeiros anos do menino Ariano: o tempo das secas, a morte do gado que o pai deixara, a mudança para o sertão sob a chefia de mãe, D. Rita Villar Suassuna "uma mulher com filhos todos juntos", o encontro com a grande cidade quando a família radicou-se no Recife, onde alguns de seus oito irmãos já estudavam. Os tios, Manuel Dantas Villar, meio ateu, republicano e anticlerical, e Joaquim Duarte Dantas, monarquista e católico, foram seus primeiros mestres de Literatura. E provavelmente responsáveis por alguns dos sentimentos que até hoje o habitam.

Monarquista e católico militante, Suassuna desperta comentários controversos: Como conciliou a contestação ao padre e à Igreja? Tal como Guerra Junqueiro que criticava o clero porque o queria bom, ideal, possuidor de todas as virtudes, ou como Bunuel eternamente polarizado pelo cristianismo, ainda que às avessas. Mesmo que seja contra, o problema da religião é angular para o indivíduo que, como Suassuna, está preso à formação religiosa.

E quanto ao monarquismo, talvez se explique pelo fato de que ele vive inquieto porque o mundo muda. Vinculado à vida patriarcal do Nordeste, a sua frustração é que para viver hoje, é preciso desvincular-se dela.

Antes do Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta lançado pela Livraria José Olympio Editora, Suassuna escreveu uma novela curta. A História do Amor de Fernando e Isaura: Sei não, achei que não podia publicar, não estava bem feito.

No atual, ilustrado por ele próprio com gravuras do tipo que se vêem nos folhetos de feira e que na história são feitas por um dos personagens, há um binômio:

"O épico e o picaresco. Estão presentes no meu livro como na literatura de cordel. O tom predominante é o da farsa. Você pode escrever um livro profundamente imoral sem palavras ásperas. Ou o contrário. O meu está neste caso. A linguagem áspera é herdada do romanceiro popular. O possível mal que poderia ocasionar às pessoas ainda em formação, é corrigido pelo riso. Carlos Drummond de Andrade achou mesmo de fazer um paralelo entre meu livro e Rabelais."

“TODO HOMEM É UM HERÓI E UM ORÁCULO PARA ALGUÉM.”

RALPH WALDO EMERSON, escritor e filósofo

SOBRE HERÓIS E MITOS
TOM COELHO

Todos nós cultivamos heróis. São pessoas que nossos olhos enxergam de forma diferenciada. Eles são mais corajosos, tenazes, perspicazes. Também parecem maiores, por vezes até fisicamente, posto que admirados pela tela da televisão, a foto no jornal, ou a imagem estampada em nossas mentes. São capazes de feitos incríveis, suportam – e superam – grandes adversidades e alcançam resultados extraordinários. À tradição grega, mortais divinizados por atos de nobreza.

Quando pequenos, elegemos pais, irmãos ou avós representantes desta casta. Espelhamos muitos de nossos comportamentos e valores a partir dos exemplos por eles destilados.

Mas na idade adulta, muito embora a influência familiar de outrora permaneça impregnada em nosso íntimo, passamos a adotar outros modelos, em geral oriundos do meio social e, em especial, profissional.

Arquitetos têm como ícones Le Corbusier e Oscar Niemeyer; pintores, Vincent Van Gogh e Pablo Picasso; amantes do jazz, Sarah Vaughan e Charlie Parker; educadores, Jean Piaget e Paulo Freire. Experimente fazer este exercício. Escolha uma carreira qualquer e com certeza você encontrará alguns nomes notáveis.

Como tudo na vida, a presença destes expoentes tem aspectos positivos e negativos. O lado bom é que servem como referência, parâmetro de conduta e exemplo de excelência. Mas há uma face ruim. Por serem tidos semideuses, parecem denotar um padrão inatingível para pessoas normais tal qual nós. Você olha para eles e seus inventos e declara: “Esplêndido! Eu gostaria de poder fazer igual...”. Diante disso, você se apequena e se constrange.

Vou lhes contar o que aprendi acerca de heróis. Quando iniciei minha carreira de escritor, visitava o texto de outros profissionais e me perguntava quando teria igual qualidade editorial. Eu os via publicar em dezenas de veículos enquanto meus singelos e esporádicos textos atingiam um restrito círculo de amigos e imaginava que não seria possível ir muito além.

Comecei também a ministrar palestras. E assistindo às apresentações de outros colegas chegava mesmo a envergonhar-me do trabalho que desenvolvia. Meus slides eram pobres; minha presença de palco, discreta.

Tempos depois vi meus artigos atingirem centenas de veículos em mais de uma dezena de países. O conteúdo tornou-se mais objetivo e prazeroso à leitura. O mesmo aconteceu com as palestras que ganharam dinamismo e desenvoltura. E aqueles que outrora eram meus mitos, passaram a dividir laudas e anfiteatro comigo. Alguns se tornaram amigos. Outros me pediram conselhos. No final, mostraram-se todos, sem exceção, feitos de carne e osso.

Mas somos bichos picados pelo inseto da impermanência e não aprendemos a aproveitar o momento presente. Viajamos num trem em alta velocidade sem apreciar a paisagem. Colocamos todas as nossas fichas no vagão do futuro e não desfrutamos do trajeto. Isso tudo pode ser traduzido pela velha metáfora segundo a qual fixamos o olhar na copa da árvore, ignorando a floresta.

Por isso, aprenda a olhar não apenas para frente, mas também para trás. Observe o quanto do caminho você já percorreu. Não há combustível melhor do que saborear os frutos de sua evolução. E olhe também para os lados. Acompanhe o que seus concorrentes estão fazendo, mas não se deixe influenciar por isso. Dê atenção ao que é imperativo e ignore todo o resto. Siga as batidas do seu coração.

Shakespeare dizia que “heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências”. Somos heróis de nós mesmos. Um momento a mais de coragem. Cinco minutos a mais de perseverança. São estes os ingredientes que fazem a diferença.

Tom Coelho, com formação em Economia pela FEA/USP, Publicidade pela ESPM/SP, especialização em Marketing pela Madia Marketing School e em Qualidade de Vida no Trabalho pela USP, é consultor, professor universitário, escritor e palestrante. Diretor da Infinity Consulting, Diretor Estadual do NJE/Ciesp e VP de Negócios da AAPSA. Contatos através do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.br.

A OFICINA

Passeando por Recife fui conhecer a Oficina Brennand. Os Brennand são uma família rica e Francisco – que se revelou um talentoso desenhista, pintor, escultor e ceramista – dedicou-se por mais de 30 anos a um sonho.

Transformou a velha olaria que seu pai fundou em 1917 num complexo artístico chamado Oficina Brennand. Saí de lá sem fôlego... A velha olaria arruinada foi aos poucos reformada. Muitas áreas ainda mostram o estado de abandono original, mas agora – qual uma ruína grega – é um abandono conservado, como que para servir de testemunha da história. Francisco Brennand é chamado de “Mestre dos Sonhos”.

Sua oficina é gigantesca: são mais de 10 mil metros quadrados de grandes áreas de exposição com centenas de esculturas, uma mais instigante que a outra. São sonhos, pesadelos, piadas, críticas, símbolos fálicos, formas eróticas em meio a jardins projetados por Burle Marx. No meio da oficina, uma capela sombria. Em seu interior um ambiente sagrado, com música clássica ao fundo e nenhuma imagem sacra. Nenhuma cruz. Nenhum anjo. Nenhuma santa. Nenhum cálice. Apenas esculturas, formas orgânicas, objetos indefiníveis. Fascinante! O sagrado está lá, na atmosfera, sem precisar de ícones.


Brennand está com oitenta anos e isso fica claro quando apreciamos sua produção. Naquele lugar uma vida se apresenta diante de nós. Só o tempo permite construir algo como o que vi por lá. A integração perfeita entre arquitetura, paisagismo, escultura, pintura, desenho... A oficina de Francisco Brennand é uma demonstração de como a sensibilidade pode mudar a realidade. Caminhando pelos corredores, a mente entra
em ebulição. Ganha um sopro de frescor. A oficina de Brennand é um spa mental. Saímos de lá provocados, motivados, inspirados, com a sensação de que estivemos em outro planeta. O planeta Brennand. O arquiteto Fernando de Barros Borba definiu com perfeição a arte de Brennand: “...Mas para quê descrever? Palavra alguma pode dizer a arte de Brennand. A literatura é inútil. Ele escreve com a cerâmica”.


Quer ver? Acesse
www.brennand.com.br e tente descrever o que vê...
Pois é... Saí de lá embriagado de arte, em direção à loja-lanchonete, cuja decoração segue a do conjunto. Pedi uma deliciosa empadinha, um suco diferente, comprei um catálogo maravilhoso, uma peça de cerâmica e sentei-me para curtir o que acabara de ver. 

E então percebi que algo estava errado.

No espaço daquela lanchonete bonita, onde a arte comanda a arquitetura, as garçonetes colocaram como trilha sonora um disco de pagode. Fui escarrado para fora do planeta Brennand, direto para o Brasil. Pagodinho enjoativo, insuportável pagodinho. Daqueles gravados ao vivo com o povo cantando junto. Se fosse o Pagode – com “Pê” maiúsculo – do grupo Fundo de Quintal... Mas não. Era um daqueles conjuntinhos de acrílico... Aquilo foi uma heresia. Fui falar com a gerente e ela me disse tristemente:


– Cuido da loja, não cuido da lanchonete. E esse som, quem coloca são as meninas de lá. É um horror...


Pronto. Lá estava eu mais uma vez diante da contradição chamada Brasil. De um lado a arte em sua mais pura expressão, tocando nossas almas. De outro, escolhido pelo “povo”, o comércio das gravadoras, distorcendo e explorando a arte em seu mais baixo nível. Um retrato do Brasil. Mas como “sou elite”, tenho que cuidar para evitar esse meu “preconceito contra o popular”...


Olha, nada disso tira o brilho do que vi
em Recife. Estando por lá, não perca a oportunidade de visitar a Oficina Brennand e abrir sua alma para a sublime experiência da arte.


E o pagode? Bem, talvez essa praga um dia desapareça, esgotada em sua mediocridade. Mas o gênio de Francisco Brennand, lá em Recife, ficará. Mas ficará para poucos. Para uma elite. O povo estará mais atento ao pagode. É pra isso que ele está sendo treinado.

Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista. Faça parte do Movimento pela Despocotização do Brasil, acesse www.lucianopires.com.br.

MEUS HERÓIS MORRERAM DE OVER-DOSE
MEUS INIMIGOS ESTÃO NO PODER
IDEOLOGIA
EU QUERO UMA PARA VIVER.
CAZUZA

SARTRE FARIA 102 ANOS

Derrubar deuses e dissolver esperanças da redenção celestial eram as preocupações do filósofo existencialista Jean-Paul Sartre no século passado. Grande revolucionário, novelista francês, teatrólogo se preocupou lembrar ao homem que ele era o dono de seu próprio destino, e por causa disto, ele tinha a missão de reger sua vida de forma autônoma, solidária e racional, um desafio constantemente eclipsado pela frustração do fim inadiável e pelo peso inevitável da responsabilidade.

Esta consciência da liberdade, tinha um gosto amargo e cor de sangue, que para o pai do existencialismo deveria ser conquistada pela auto-determinação, já que fazia do homem o artífice de sua própria realização, início, meio e fim de toda a existência.

Sartre nasceu em 21 de junho de 1905 e, com um ano de vida, ficou órfão de pai. Foi educado pela mãe e pelos avós maternos, cercado de mimos e proteção, herdando do avô escritor o gosto pelos livros. Pequeno e estrábico, sua feiúra a toda hora parecia mostrar-lhe que a realidade também não era nada bela e que cabia ao ser humano a responsabilidade de construí-la.

Em 1924, aos 19 anos, tornou-se aluno da Escola Normal Superior, onde conheceu Simone de Beauvoir, mulher, amiga e amante de quem nunca se separou. Lá foi contemporâneo de escritores que viriam a ser intelectuais de renome, como Raymond Aron, Maurice Merleau-Ponty, Emmanuel Mounier, Jean Hippolyte, Claude Lévi-Strauss e a filósofa social esquerdista da escritora Simone Weil, (1909-1943), que era ativista na resistência à invasão alemã e ao nazismo.

Em 1933 vai a Berlim estudar fenomenologia, que afirma que tudo que podemos saber do mundo resume-se a fenômenos da consciência, que são objetos ideais existentes na mente, cada um deles é designado por uma palavra que representa a sua essência, sua "significação". 

Foi na Alemanha que Sartre escreve a Melancolia, romance recusado pela editora Gallimard, a mesma que em 1937, o publica com o título "A Náusea".

A fama começou com este romance, escrito em forma de um diário, que revelava os sentimentos de repugnância do personagem Antoine Roquentin, em relação ao mundo material, inclusive pela consciência de seu próprio corpo. Estas posições filosóficas é que Sartre continuaria a desenvolver.

Em 1939, lançou os contos de "O Muro" mas, é convocado como soldado meteorologista para servir em Essey-les onde, em abril do ano seguinte, foi feito prisioneiro e enviado para um campo de concentração alemão. Em agosto, é transferido para o campo de Trier, na Alemanha, onde estavam aprisionados 25 mil outras vítimas da tirania nazista. Usando um falso atestado médico que lhe atribuía cegueira parcial no olho direito, Sartre ganha a liberdade em março de 1941, voltando imediatamente a Paris, onde entra para a Resistência Francesa e funda o movimento Socialismo e Liberdade, grupo que lutava contra a ocupação alemã.

É em 1943 em plena guerra, que fez a primeira publicação de uma peça teatral, "As Moscas", que envolve veladamente o comando alemão e os colaboracionistas, e publicou também o famoso L'Être et le néant (1943 - "O Ser e o Nada"), obra fundamental da sua teoria existencialista e seu livro mais emblemático. Nele Sartre aprofunda seu pensamento com respeito à consciência humana, como "um nada" em oposição ao Ser. A consciência é "não-matéria", nada, e por isso mesmo escapa a qualquer determinismo. Ela é essencialmente negadora das coisas em-si mesmas, na medida em que se encontra revestida da característica ontológica de ser, ela própria é o seu próprio nada.

A teoria da negatividade da consciência é uma das perspectivas do pensamento de Sartre. Por isso, precisamos de outra pessoa para conhecer plenamente a nós mesmos. Mas a relação com outras pessoas é um conflito. Segundo ele, todo tipo de relação humana está condenado ao fracasso; através delas nunca atinjo o meu objetivo; a indiferença, o sadismo, o ódio, o masoquismo, o amor, a linguagem, são diversas manifestações da minha tentativa, sempre fracassada, de conviver com outra pessoa.

Essas obras e mais "Entre 4 paredes" lançado em 1944, fizeram dele a mais célebre dos escritores franceses de seu tempo. É nesta peça que teve, nos ensaios iniciais, a direção e a participação de outro grande existencialista, Albert Camus é onde Sartre lança seu tema mais conhecido "O inferno são os outros".


Terminada a guerra, Sartre funda a revista "Temps Modernes" e publica muitos livros na França (entre eles, o celebrado "A Idade da Razão"), obtendo a simpatia do povo francês, para quem o existencialismo se tornou acessível. Entre 1947 e 1950, dedica-se febrilmente à produção literária, lançando quase 40 obras entre artigos, ensaios, livros, conferências e peças teatrais. Durante a década de 50, Sartre dedica-se às viagens, visitando inclusive o Brasil, onde passou três meses ao lado de Simone de Beauvoir.


Em outubro de 1964, mesmo ano em que lança a auto-biografia "As Palavras", recusa-se a receber o prêmio Nobel de literatura. No ano seguinte, aumenta sua oposição a De Gaulle, o que lhe traria obstáculos à distribuição do jornal "La Cause du Peuple", obrigando o filósofo a vender pessoalmente números do informativo nas ruas de Paris, fato não raro em uma vida de manifestações públicas, ações diretas e presença constante na linha de frente dos movimentos populares.

Aos 71 anos, no entanto, Sartre já está cego, impossibilitado de ler e escrever. Morre três anos depois, de um tumor pulmonar em 15 de abril de 1980. Em seu funeral foi homenageado por uma multidão estimada em 25.000 pessoas.

                  CENTENÁRIO DE CAIO PRADO JÚNIOR

A Brasiliense é uma das empresas editoriais mais importantes do Brasil. Fundada em 1943 pelo intelectual Caio Prado Júnior, ela se tornou um marco no mercado editorial. Associada ao melhor da formação cultural brasileira, a editora alinha a sua atuação ao pensamento crítico nacional. Atualmente é dirigida por Danda Prado e Maria Teresa B. de Lima.

Em 2007, ano do centenário do fundador da Editora Brasiliense, Caio Prado Júnior, está prevista uma ampla programação comemorativa, com destaque para o 1º Prêmio Caio Prado Júnior e o lançamento do livro Caio Prado Júnior – Uma trajetória intelectual, de Paulo Iumatti.

O concurso literário, que tem por tema Brasil Contemporâneo – Século XXI, premiará cinco projetos editoriais e um gráfico que propiciem reflexões sobre os elementos da formação da realidade brasileira. Os melhores trabalhos editoriais, eleitos por uma comissão de especialistas da atividade literária brasileira, vão compor uma coletânea a ser publicada pela Editora Brasiliense. Os vencedores do prêmio serão divulgados no dia 30 de setembro de 2007.

A programação do centenário inclui também o seminário Caio Prado Júnior e o Novo Brasil; exposição Caio Prado Júnior e a Formação do Brasil; edição especial da Revista Brasiliense; e um documentário produzido pela TV Cultura.

OS 74 ANOS DE HISTÓRIA
DA PRIMEIRA ESCOLA DE SOCIOLOGIA DO PAÍS

Pioneira no ensino e na prática das Ciências Sociais no Brasil, a história da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) se confunde com a história de construção do Brasil moderno, urbano e industrial.

Criada em 1933, a Instituição tem uma trajetória pioneira na consolidação do ensino e da pesquisa em nível superior no país, orientada desde o início para o estudo da realidade brasileira e para a formação de profissionais capazes de atuar no processo de modernização da sociedade. Na década de 40, foi também na FESPSP que se instalou o primeiro curso de Biblioteconomia de São Paulo.

Ao longo destes 74 anos de história, a FESPSP reuniu em seus arquivos verdadeiras preciosidades das ciências humanas brasileiras: são milhares de documentos, livros, periódicos e imagens, que além de contar a história da instituição, refletem também sobre a formação das Ciências Sociais e da Biblioteconomia no Brasil.

Os esforços reunidos nos últimos anos para resgatar, restaurar e conservar essa documentação tornou possível a realização da exposição Acervo da FESPSP: registros da Sociologia e da Biblioteconomia no Brasil, que a instituição abre ao público a partir desta segunda-feira, dia 28, marcando as comemorações de seu aniversário de 74 anos, completados em 27 de maio.

A mostra é formada por 13 painéis ilustrativos que contam um pouco sobre a história da instituição e de seus personagens, além da exposição de documentos, publicações raras, objetos históricos e de curiosidades documentais relacionadas a importantes personalidades da intelectualidade e da política brasileira que fizeram parte da história da FESPSP, como Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Roberto Simonsen, Luiza Erundina, entre outros.

A exposição, que foi concebida com o intuito de apresentar uma amostra do acervo organizado pelo Centro de Documentação e Memória da FESPSP (CEDOC), ficará aberta ao público até o próximo dia 02 de Julho no tradicional Casarão da FESPSP, sede da Escola de Sociologia e Política da Instituição (ESP).

Exposição Acervo da FESPSP: registros da Sociologia e da Biblioteconomia no Brasil até julho, no Casarão da FESPSP , Rua General Jardim, 522 - Vila Buarque - São Paulo - SP, próximo às estações de Metrô República e Santa Cecília. Informações: (11) 3123 7800 (ramais 834 e 810) Entrada Gratuita!

O BRASIL CABOCLO DE CORNÉLIO PIRES

Centro Cultural Banco do Brasil, de São Paulo (CCBB-SP), apresenta entre os dias 05 de junho a 17 de julho, sempre as terças-feiras às 13h e às 19h30,  o projeto "O Brasil Caboclo de Cornélio Pires". Uma homenagem a esse caipira iluminado, a essa figura exuberante que entendeu e traduziu, como poucos, a grandeza da alma do povo caipira, seu cotidiano afetivo e sua cultura. Grandes nomes da música caipira como Cacique e Pajé e as Galvão marcam presença nesse evento.
 
Cornélio (1884-1958) foi jornalista, escritor, poeta, cineasta folclorista e um estudioso apaixonado pela rica cultura do povo rural. Em 1914, realizou as Conferências Caipiras Cornélio Pires, em que apresentava artistas de modas avioladas. Foi o grande incentivador de duplas que fizeram história, como Zico e Ferrinho e Caçula e Sorocabinha. Pioneiro na promoção de turnês de música caipira pelo Brasil, ele próprio decidiu viajar pelo interior de São Paulo e de outros Estados, com seu itinerante Teatro Ambulante Gratuito Cornélio Pires, como apresentador e caipira humorista.
 
Figura importante da nossa história, o folclorista será lembrado durante os meses de junho e julho, por convidados especiais que pertencem a esse universo.

PROGRAMAÇÃO
12 de junho/07 – Liu e Léu
19 de junho/07 – As Galvão
26 de junho/07 – Pedro Bento e Zé da Estrada
03 de julho/07 – João Mulato e João Carvalho/ Jacó e Jacozito;
10 de julho/07 – Cacique e Pajé/ Zé Mulato e Cassiano
17 de julho/07 - Oliveira e Olivaldo/ Os Favoritos da Catira.

"O Brasil Caboclo de Cornélio Pires" no Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil  - Rua Álvares Penteado, 112 - Centro - São Paulo
das13h e às 19h30, Ingressos: R$ 6,00 (inteira) R$ 3,00 (meia-entrada)
Informações: (11) 3113-3651 / 3113-3652  - ww.bb.com.br/cultura

              OS ANOS DE OURO DA LUTA LIVRE NO BRASIL

É possível que, para a maioria das pessoas com mais de 35 anos, o telecatch não seja mais do que uma pequena lembrança. Para os mais jovens, talvez, nem isso.

Em seus anos de glória, entre 1960 e 1980, porém, o telecatch rivalizava em pé de igualdade com o futebol na preferência dos telespectadores brasileiros.

A turma da luta livre fez um gigantesco sucesso pelas TVs do Brasil e agora tem sua vida e glória contada no livro “Telecatch – Almanaque da Luta Livre”, recém-lançado pela Matrix Editora.

A obra mostra que astros como Fantômas, Tigre Paraguaio e Ted Boy Marino apresentavam suas habilidades em programas de ibope elevado e eram os heróis de muitos brasileiros, competindo pela simpatia da população com ídolos esportistas mais “ortodoxos”, como Pelé ou Éder Joffre.

Para alcançar tamanho sucesso, os programas de telecatch tinham seus segredos: tesouras voadoras, arremessos de adversários contra as cordas, juízes roubando descaradamente para os lutadores maus, capangas invadindo o ringue, limão espremido no olho do oponente e um arsenal de outros truques.

Na época, o telecatch transformou a maneira de transmitir eventos esportivos pela TV — foi o primeiro programa de esportes a contar com patrocinadores fixos, no Brasil.

No mundo do telecatch, a avaliação exagerada (positiva ou negativamente) do carisma e dos atributos físicos dos atletas, a aplicação de golpes baixos, a exposição calculada de determinados aspectos do caráter dos lutadores e diversos fatores alheios às normas esportivas contribuíam decisiva e descaradamente para o resultado dos combates. Nada disso, porém, afastava o público; antes, o contrário.

De acordo com a lógica convencional, ao término de uma partida de futebol ou de uma luta de boxe cujo desfecho contrariasse a opinião da maioria dos torcedores, imediatamente aparecem suspeitas como: foi marmelada? Os árbitros foram comprados? Os atletas fizeram corpo-mole? Na lógica do telecatch, tudo isso sempre foi encarado de forma diferente.

Ao final de um embate — por vezes sangrento —, a suspeitas eram exatamente invertidas: teria sido de verdade tudo aquilo que transcorrera sobre o ringue? Por que o árbitro, aparentemente, permitiu que um dos maiores queridinhos da torcida derramasse tanto sangue — antes de, afinal, ser declarado vencedor de uma luta, como já era esperado? Teriam certos atletas aproveitado a oportunidade oferecida por uma luta para resolverem diferenças pessoais em seu “ambiente de trabalho”? Serviria o uso de fantasias e máscaras, por certos lutadores, para esconder as marcas deixadas por golpes realmente sofridos?

Nessas dúvidas, deixadas nas mentes de seus espectadores, é que residia o charme e o poder de atração do telecatch.

ALGUMAS CURIOSIDADES DA OBRA

Fantômas – O lutador mascarado, que sempre subia ao ringue com a perna retesada, foi interpretado por diversos lutadores, ao longo dos anos, em diversos programas. Um desses intérpretes foi Guerino Cicon, que atuou nas lutas transmitidas pela televisão até meados dos anos '70. Seu famoso truque de cena, como Fantômas, fez de suas pernas o alvo preferencial de seus adversários. De tanto levar golpes nas pernas, Guerino sofreu um desgaste excessivo nas cartilagens dos joelhos; ao ponto de precisar ser submetido a uma intervenção cirúrgica para voltar a andar normalmente. Hoje, ele usa uma bengala; enquanto aguarda por uma nova cirurgia para a colocação de uma prótese num dos joelhos.

Ted Boy Marino – Em 1962, já era o maior astro dos programas de luta-livre do Canal 9, de Buenos Aires, e do Canal 12, de Montevidéu. O estilo elegante de portar-se sobre o ringue e a figura apolínea de Ted Boy Marino eram tão caros ao público que — segundo boatos que circulavam, naquela época —, mesmo dentro do contexto dos combates coreografados do telecatch, arranjos especiais eram feitos com seus adversários para que o astro não se machucasse muito seriamente, em suas lutas.

Nino Mercury –  Em 1985, ao ser arremessado contra as cordas de um ringue, uma delas arrebentou com o impacto. Nino aterrissou de cabeça no chão.  Foi imediatamente levado consciente a um hospital daquela cidade. O lugar, porém, não contava com equipamentos e pessoal adequado para atender a um caso como o dele. Nino foi, então, encaminhado ao Hospital das Clínicas, em São Paulo, numa ambulância. Na primeira curva da estrada, Nino foi projetado para fora da maca, sofrendo uma violenta queda dentro da ambulância, devido à negligência dos atendentes, que não o haviam imobilizado adequadamente, no interior do veículo. No Hospital das Clínicas, diversos exames e radiografias constataram que ele não havia sofrido nenhuma fratura. Apenas um mês e meio depois disso, ele já estava lutando novamente.

Michel Serdan – Decidiu empresariar sua própria equipe de lutadores, da qual ele mesmo também fazia parte. Serdan organizou seu primeiro evento esportivo, na cidade de Andradina, SP, ainda no início da década de 1960; graças, no entanto, a uma série de contratempos e à sua própria inexperiência empresarial, o evento foi um retumbante fracasso. Além de cobrir apenas parcialmente as despesas com a organização, o montante da arrecadação não foi suficiente sequer para pagar a conta do hotel em que os lutadores hospedavam-se — do qual todos tiveram de evadir-se, às escondidas.

Caboclo Selvagem – ao invés dos lutadores mascarados, sua figura feia era quem costumava assustar mais as crianças.

Telecatch – Almanaque da Luta Livre tem 160 páginas.
E custa R$ 27,00

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