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ESPAÇO MAIOR

Os textos abaixo são de responsabilidade exclusiva de seus autores. Eles expressam a opinião e as críticas de cada profissional ou usuário. Nós os publicamos, pois achamos que são de interesse do nosso público alvo,
pessoas da terceira idade e as que estão envelhecendo.
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  COMO VOCÊ VAI CHEGAR AOS 60?
Eduardo Gomes

Se a tendência de crescimento da população com mais de 60 anos se mantiver constante, o Brasil deverá alcançar, segundo as previsões do  IBGE, um universo de 64 milhões de sexagenários em 2050, ou 24,66% da população. Os números impressionam, pois em 2005, apenas 9% da população tinha mais de 60 anos de idade, ou seja, 16,3 milhões.

O aumento da expectativa de vida do brasileiro é um fato comprovado pelos censos anuais. Atualmente, ser um sexagenário e chegar a ser um octogenário não chega a ser uma grande proeza, mas um desdobramento de uma série de conquistas médicas, sociais e tecnológicas. Hoje, quem não quiser envelhecer, terá uma briga feia pela frente.

Há 50 anos, os médicos aconselhavam “as pessoas de mais idade” a fazer repouso. Era clássica a imagem do velho de pijamas, sentado na poltrona da sala, sem fazer qualquer esforço, sem andar, nem sequer ir à padaria. Hoje, entendemos que o envelhecimento ativo conduz ao envelhecimento saudável. O envelhecimento ativo prioriza não só a parte física, mas também as atividades sociais, profissionais e afetivas. O idoso precisa compreender que só pertencerá à comunidade se interagir com ela.  

Em 2002, durante a 2ª Assembléia Mundial sobre  Envelhecimento, realizada em Madri, a Organização Mundial da Saúde lançou um documento denominado Active Ageing - A Policy Framework, apontando as perspectivas para um envelhecimento saudável. Este documento destaca o conceito do chamado envelhecimento ativo, que leva em conta o conceito de esperança de vida livre de incapacidades.

A incapacidade do idoso está relacionada ao seu grau de risco de ser portador de doenças crônicas. Você pode chegar aos 80 anos e ter um risco acumulado baixo de desenvolver alguma doença, enquanto um outro indivíduo da mesma idade pode ter até quatro vezes mais risco de desenvolver essa doença. Os riscos estão relacionados não apenas aos fatores genéticos, mas também ao estilo de vida de cada um.

A incapacidade funcional começa a aparecer por volta dos 60 anos. Por isto é importante evitar e prevenir o aparecimento das doenças crônicas e degenerativas na terceira idade. Para isso, existem intervenções que podem ser feitas tanto pelo paciente, quanto pela família, pelos médicos que assistem o idoso e até mesmo pela sociedade.

O aumento da expectativa de vida do brasileiro nos obriga a repensar a velhice e a ponderar sobre nossas escolhas da juventude, pois é grande a influência das nossas decisões individuais na qualidade de vida futura. Vamos pegar como exemplo o tabagismo, que se tornou um grave problema de saúde pública no mundo. No tempo em que vivíamos até 50/60 anos, os efeitos a longo prazo do fumo eram apenas uma ameaça. Hoje, passamos a viver 80/90 anos, aumentando a probabilidade de sofrermos, severamente, e por muito tempo, com os efeitos do tabagismo.


RESPALDO DA CIÊNCIA

Não podemos falar numa receita ou numa fórmula para envelhecer bem. Não existem recomendações gerais, apenas específicas, apropriadas para cada indivíduo. O envelhecimento ativo está estritamente associado ao desenvolvimento da ciência.

Em 2000, o mundo ouviu o anúncio do seqüenciamento do Genoma Humano. Hoje, inúmeras áreas se beneficiam da precisão das técnicas da medicina genômica. Uma delas é a identificação precoce de doenças. O que antes era roteiro de ficção científica, com imagens futuristas de uma medicina high-tech, começa a se incorporar à realidade com enormes benefícios para a sociedade.

Avançar sobre o conhecimento do genoma foi decisivo para se pensar em tratamentos que serão capazes de prever, por exemplo, como uma mesma doença pode afetar a você ou a mim. Atualmente, há doenças que podem ser identificadas, por exemplo, na fase que antecede a gravidez. Podemos identificar também famílias portadoras de determinadas mutações associadas a algumas doenças.

Na área de genética clínica, o estudo dos genes foi um grande avanço, pois nos trouxe o diagnóstico preditivo, em que se identifica o gene, a mutação ou a alteração no DNA.

Entender como funciona o corpo humano e o processo de envelhecimento é mais eficaz do que buscar a fórmula da juventude, pois nunca na história evolutiva do ser humano houve a expectativa de se viver mais de 60 anos, como há agora. Por isto, devemos planejar como queremos viver esse tempo a mais, lembrando que fundamental é querer viver bem todos os anos que teremos pela frente, não aceitando de forma passiva os acontecimentos, participando ativamente do processo de envelhecimento.

Dr. Eduardo Gomes é médico geriatra e ortomolecular.
Dirige a rede de Clínicas Anna Aslan: http://www.annaaslan.com.br


OS INCONFORMISTAS
Luciano Pires 

Alguns dias atrás me reuni com um consultor financeiro para receber dicas de como preparar meu futuro. E a primeira pergunta foi desconcertante. Ele queria saber quando é que eu pretendia parar de trabalhar para curtir minha aposentadoria. Foi a primeira vez que pensei nisso. E eu não tinha a resposta. Chutei: “setenta e cinco anos”. Ele achou exagerado e propôs um exercício considerando sessenta e cinco anos.

Nossa reunião acabou ali, pois enquanto ele falava minha cabeça estava viajando. .

– Sessenta e cinco? Pô, vou fazer cinqüenta e dois. Só mais treze anos?
Que horror! Aposentadoria? Pijamão? Papete? Aaaaahhhhh!!!!!!
Aos sessenta e cinco eu faria parte de uma categoria diferente de cidadão.

Tenho impressão que para a sociedade, ter mais de sessenta é como ter uma deficiência física... A pessoa é rotulada como “limitada”.

E naquela hora caiu a ficha. O que será que a sociedade reserva para mim daqui a treze anos?

Lembro-me claramente quando, nos anos 80, Jô Soares anunciou que deixaria seu programa de humor para dedicar-se a entrevistas. Saiu da Globo e foi para o SBT, o que foi considerado uma loucura. Ele estava com cinqüenta anos e era um sucesso como humorista. Fiquei impressionado com a coragem daquela decisão. Aos cinqüenta, quando a turma pensava em aposentadoria, Jô decidia começar de novo... Precisei amadurecer vinte anos para entender as razões daquela decisão maluca.

Um outro acontecimento ocorrido durante minha viagem ao Campo Base do Everest em 2001 também é exemplar. Enquanto eu estava lá, uma equipe tentava chegar ao topo da montanha mais alta do mundo. E no dia 25 de maio de 2001 a conquista do cume foi comemorada de forma especial. O principal componente do grupo era Erik Weihenmayer, um alpinista cego. Erik venceu desafios que a maioria das pessoas, com a visão perfeita, não consegue. E o médico que o acompanhava, Sherman Bull, aos 64 anos transformou-se na pessoa mais velha até então a conquistar o cume do Everest. Suas “limitações” foram vencidas, contra todas as previsões.

E pra ficar nos nossos exemplos, quem é que não lembra do Zagallo, aos sessenta e cinco anos, na Copa América de 1997 dizendo ao microfone da Globo: “vocês vão ter que me engolir”? O velhinho tapou a boca de todo mundo...

Pois bem. Jô transformou seu programa num sucesso e retornou para a Globo. Erik continua escalando, fazendo palestras e servindo de exemplo. Zagallo está com setenta e seis e só parou por causa da saúde.

O que é que esses caras têm de tão especial, que os faz capazes de surpreender diante dos obstáculos, das críticas e da incredulidade das pessoas?

Encontrei a resposta numa entrevista que Erik Weihenmayer deu após retornar do Everest. Perguntado sobre o que fez para – apesar de cego –  chegar lá, Erik foi direto:

– Jamais aceitei cumprir o papel que a sociedade reservou aos cegos.

Que tal? A pergunta “o que é que a sociedade reserva pra mim?” só interessa a quem está conformado em ser mais um ressentido passivo

Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista. Faz parte do Movimento pela Despocotização do Brasil, acesse www.lucianopires.com.br.

           
A IDADE E A LIBERDADE
Cristiane Felipe

Pilar das revoluções que transformaram o mundo a partir do século XVII, a liberdade é um dos bens mais preciosos de que dispomos. O poder de ir, vir, agir e pensar é pressuposto básico para a manifestação da nossa essência. Não é por acaso que em qualquer sociedade, desde os mais remotos tempos, a forma mais usual de punição àqueles que comentem algum delito é a prisão. Mas, e quando a doença ou as perdas naturais do processo de envelhecimento nos priva da liberdade?

Nas implicações naturais decorrentes do processo de envelhecimento estão previstas perdas gradativas de muitas de nossas principais capacidades. E isso é perceptível ainda muito cedo. Uma ginasta olímpica

 na faixa dos vinte e poucos já não realiza com a mesma destreza e desenvoltura os movimentos que praticava na adolescência. Um jogador de futebol, ao ultrapassar os 35 anos, já se prepara para a aposentadoria. A visão de um sexagenário já não tem a mesma definição dos primeiros anos da juventude.

Consciente do que lhe é efêmero, o homem busca incansavelmente meios de prolongar a sua vida útil. Já sabemos que os progressos alcançados no campo da Medicina – em especial na área da Geriatria e Gerontologia – permitem a prevenção e a detecção precoce de inúmeras moléstias típicas da idade avançada. Novas terapias, técnicas cirúrgicas e medicamentos com maior precisão de cura também contribuem para esse avanço.

No entanto, mais do que o tratamento adequado, o que pressupõe o envelhecimento saudável é a manutenção das independências física, social e econômica. São esses os pré-requisitos que possibilitarão a preservação da liberdade do indivíduo na idade avançada. E, assim como faz o tempo, a maneira mais sábia para se adquirir ou preservar a autonomia é por meio da prática sistemática, dia após dia. Atividade física faz bem em qualquer fase da vida, alimentação adequada também. A prática da meditação e o cuidado com a espiritualidade (independentemente de religião) não possuem contra-indicações. No nível profissional, o caminho é encontrar o equilíbrio entre a satisfação pessoal e financeira. E se a esse conjunto de práticas somar-se uma pitada de alegria, está dada a receita.

Mas todos sabemos que esta receita não tem nada de simples. A vida não tem regras claras. O convívio com as perdas pode levar à depressão e ao desânimo. As novas situações geram ansiedade, perda da auto-estima e uma série de outros complicadores.

Nesses momentos, a saída é não se isolar, não se esquecer de que inúmeras pessoas estão vivenciando a mesma situação. Um caminho possível é partir ao encontro delas. Um bate-papo em grupo pode resgatar a confiança perdida. Um baile no fim-de-semana pode mudar a vida de alguém.

Porque a vida pode ser reinventada a cada minuto. É só dar asas à liberdade (e, de preferência, compatibilizá-la com a alegria). Como ensina Montaigne, “a verdadeira liberdade é poder tudo sobre si”. E como canta Gilberto Gil (um sessentão pra lá de jovem), “a alegria é a prova dos nove”.

 Cristiane Felipe, psicóloga com especialização em Gerontologia pela Unifesp, é coordenadora do Age – Vida Ativa na Maturidade

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