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DO CETICISMO À INDIGNAÇÃO
ANTONIO LEOPOLDO CURI

O ceticismo dos brasileiros quanto à criação da CSS (Contribuição Social para a Saúde), aprovada na Câmara dos Deputados, transforma-se em indignação ante o novo estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), demonstrando que a carga de impostos no País chegou a 38,90% do PIB no primeiro trimestre de 2008, o mais alto índice até hoje registrado no período.  O total arrecadado foi de R$ 258,90 bilhões, contra R$ 221,75 bilhões no primeiro trimestre de 2007, numa expansão de 16,75%.

Somente nos três primeiros meses do ano, a receita tributária, em valores nominais, cresceu R$ 37,15 bilhões. Este valor já cobre praticamente o total que seria arrecadado pela extinta CPMF, cuja arrecadação era estimada em torno de R$ 40 bilhões para 2008. Ou seja, se em um trimestre o governo já abocanhou impostos equivalentes a 12 meses de CPMF, por que, então, insiste em criar uma taxa substituta, por meio de sub-repetícia manobra política, transferindo a responsabilidade ao Congresso Nacional?

A obsessão por transferir aos cofres públicos dinheiro da sociedade que poderia estar financiando a produção, reduzindo as preocupantes pressões inflacionárias e criando mais empregos, explica-se somente por algumas incapacidades governametais. A primeira delas refere-se à própria gestão do sistema de saúde, cuja precariedade é um desrespeito aos cerca de 150 milhões de brasileiros que dependem do atendimento médico-hospitalar público.

Outra questão é o vício estatal dos gastos exagerados, um equívoco da cultura nacional do setor público muito oneroso à economia e à sociedade. Não basta ostentar, como proeza, superávit primário. Isto não é favor, é obrigação de quem governa. Ademais, trata-se de um indicador que mascara a realidade quando analisado sob enfoque meramente retórico. A verdade é que o governo continua gastando muito e precisa, com urgência, rever a sua política fiscal, popupando recursos, principalmente em despesas não ligadas a investimentos e às prioridades sociais.

O estudo do IBPT demonstra, com  muita clareza, que a arrecadção que mais cresceu no primeiro trimestre de 2008 foi a do Governo Federal (R$ 27,39 bilhões), contra R$ 8,71 bilhões dos estados e R$ 1,04 bilhão dos municípios. Em termos percentuais, a expansão foi, respectivamente, de 18,44%, 14,48% e 7,93%. Pois é justamente quem mais arrecada que tenta manobrar politicamente o Parlamento para criar mais um tributo.

Para deixar patente o porquê da indignação relativa ao desejo do Palácio do Planalto de criar uma taxa substituta do extinto imposto do cheque, basta fazer uma conta de subtração de dois números contidos no estudo do IBPT: considerando que a União obteve crescimento nominal em sua receita tributária de R$ 27,39 bilhões nos primeiros três meses de 2008 e que a extinta CPMF renderia, no mesmo período, R$ 7,48 bilhões, o ganho do Governo Federal, em apenas um trimestre, já foi de R$ 19,91 bilhões.
Assim, com certeza, não há a menor necessidade de se tentar tirar mais dinheiro dos cidadãos e empresas que trabalham e produzem. E estes, conforme mostra outro interessante estudo do IBPT, têm carga pesada demais para sustentar um Estado que pouco retribui à sociedade em serviços e atendimento de qualidade nos segmentos prioritários e sociais: a carga tributária sobre renda, consumo e patrimônio já consome 148 dias de trabalho do brasileiro; neste ano, cada cidadão trabalhou até 27 de maio só para pagar impostos, taxas e contribuições.

Trata-se de equação injusta demais para um povo que ainda luta por seu desenvolvimento e que carece de soluções eficazes para a criação de empregos de modo sustentado, educação, saúde, segurança pública e infra-estrutura. Não será tirando cada vez mais dinheiro da economia e do orçamento das famílias que o governo conseguirá manter por longo tempo o crescimento do PIB registrado em 2007 e estimado para 2008. O Brasil precisa de uma política econômica estratégica e estruturada, que comece, aliás, com a redução da carga de impostos.

Antonio Leopoldo Curi é presidente da Associação Brasileira da Indústria de Formulários, Documentos e Gerenciamento da Informação (Abraform)
 

COISAS QUE INCOMODAM
Sylvia Romano

Todos nós, a partir de uma época da vida, começamos a acumular coisas que nos incomodam. Algumas são deletadas, usando uma palavra da moda, mas com outras somos obrigados a conviver, queiramos ou não.

Não vou me aprofundar na questão do cigarro, por ser fumante, mas percebo que cada vez mais o cigarro dos outros me inquieta, assim como reconheço que o meu cigarro perturba muita gente. Crianças também me incomodam muito, principalmente aquelas que os seus pais ou responsáveis não colocam limites. Filhos de pais ricos são apenas apresentados e depois voltam aos seus quartos ou espaços sempre acompanhados de uma babá. Meninos e meninas pobres, coitadinhos, são humildes e quietinhos. Chatas são as crianças da classe média, que os pais nos impingem em lugares públicos e em suas próprias casas quando os visitamos, e que são transformadas em centro das atenções e da má educação. Só quem gosta delas são seus próprios pais e parentes. Crianças são sempre muito chatas e inconvenientes — e vejam que em breve devo ser avó. Tenho também cachorros e os amo muito; já os dos outros me importunam, pois avançam, mordem, soltam pêlos, pulam no meu colo, cheiram mal e alguns até querem fazer sexo com as minhas pernas. Sem falar nos cães dos vizinhos, que latem muito, principalmente na madrugada. E como se não bastassem animais barulhentos, os alarmes das casas e dos carros sempre disparam quando estou pegando no sono.

Os programas de televisão também continuam cada vez mais chatos. Tem os de notícia, que só trazem desgraças, e os de pastores e padres e sei lá mais o que, que só pedem dinheiro e prometem tudo para quem dá. Deus não importa, apenas as doações e, assim, estes falsos arautos divinos continuam ficando mais e mais ricos. Programas de entrevistas sempre trazem o óbvio; só os escândalos é que interessam, principalmente se forem ligados a sexo, traição e outros fatos normais de todos os hipócritas. Celebridades de plantão e formadores de opinião surgem logo após os “big brothers” e somem, graças a Deus, com a mesma velocidade que apareceram, mas até que isto venha a ocorrer, estes famosos “quem” perturbam e incomodam muita gente. A moda também chateia e muito. Aquela blusa que comprei há um mês já está fora de moda, mas o apartamento com churrasqueira no terraço é a última tendência, mais “jeca” impossível.

Incomoda-me demais ter de ouvir, por descuido, discursos no rádio e na TV das nossas autoridades, bem como os tão freqüentes escândalos federais, estaduais e municipais, que nunca são punidos. Também aborrece-me, como advogada, ter de enfrentar diariamente a morosidade da nossa Justiça, que nunca anda, nunca decide e que pouco faz. É inoportuno ser politicamente correta e ter de conviver com cotas raciais, mesmo sabendo que somos todos iguais perante a Lei e que vivemos hoje em um País de minoria branca, como já anunciado por diversos Censos amplamente divulgados. Do mesmo modo, incomoda muito ter de conviver com a mediocridade que assola uma grande parcela da humanidade, mesmo sabendo que ainda tenho muito o que aprender.

Sylvia Romano é advogada trabalhista, responsável pelo Sylvia Romano Consultores Associados, em São Paulo. E-mail: sylviaromano@uol.com.br .

 

O RISO DO PALHAÇO SEM ALEGRIA
SÉRGIO VAZ

Outro dia alguém, não sei bem porque e quando , me disse que a vida era um presente divino, e que devíamos saber aproveitá-la, e jamais esquecer de agradecê-la, quem quer que fosse o padrinho. E que por pior que se apresentasse a vida, estar vivo era um milagre dos céus.

-"Deus sempre sabe o que faz", enfatizou o amigo, filósofo de botequim, cheio de paz no coração e repleto de alegria artificial na cabeça.

Fiquei meio assim com essa idéia de que a vida é um presente, porque outro dia também ouvi de um mendigo agradecido pela sobras de um almoço: "cavalo dado não se olha os dentes", nesse mesmo dia o vira-lata ficou sem o seu almoço na lata de lixo. As migalhas não escolhem os miseráveis, elas são presentes do acaso.


É preciso estar no lugar certo, na hora certa, nos diz as pessoas que embrulham os presentes. Mas como os pobres e os vira-latas não têm relógio, sempre chegam atrasados. Assim como os ônibus.

Não sei quem me disse que para entender a vida era preciso conhecer a palavra de deus, mas como ele nunca apareceu pessoalmente, durante muito tempo acreditei nos mandamentos dos publicitários.

Lembram daquela profecia?"O mundo trata melhor quem se veste bem". Pois é, o mundo dá crédito para quem tem crédito.

E aí, se a vida é agora, Vida loka ou Vida besta? Descobrir tem seu preço. Na verdade acho que a vida é uma das coisas mais engraçadas que o mundo nos dá, e que por isso mesmo, muitas vezes não tem graça nenhuma. Não é que eu seja mal-agradecido, e ria menos que devia para o destino, mas é que tem umas coisas que acontecem...

Vai vendo a ironia do destino, tenho um amigo que estava já algum tempo desempregado, estava vivendo de bicos -sei que tem muita gente que não sabe, mas viver de bico não tem graça nenhuma. Ele agora faz bico em uma loja de sapatos, e a coisa mais engraçada é que ele não é vendedor, nem gerente ou faxineiro, meu amigo é o palhaço da loja. É.

Ele fica na frente da loja vestido de palhaço, fazendo graça para as pessoas que passam. Parece legal né? Mas não é.

Quando eu o vi e reconheci-o até que foi meio divertido, não sei se porque o patrão estava olhando, mas seus olhos e a maquiagem mal-feita, o traíram. Estava triste.


Puxa, pensei um homem desempregado não deveria ser palhaço, ser palhaço não é uma profissão, é um estado de espírito, um dom. Taí, um presente.


Que tristes tempos nós vivemos, em que os circos se foram para o nunca mais, e os palhaços-trapezistas habitam as lojas de sapatos.

Também tentei fingir, e ri um riso falso de poeta que tem a boca desbotada, para que ele, talvez, se mantivesse digno em seu novo emprego, para que ele talvez se mantivesse firme na corda-bamba dessa vida, que mais parece sapato sem cadarço, para os que têm pés-de-chinelo e as pegadas miúdas que rastreiam o chão duro da felicidade que nunca vem.

Despediu-se de mim com os olhos e partiu arrastando sua tristeza oculta em outra direção. Ele se aproxima de uma menininha que se afasta meio com medo.


A Mãe, sem-graça, diz: "não tenha medo minha filha, é só um palhaço." "Quem dera", pensou ele.

"A Vida não é engraçada, um homem triste a fazer sorrir os outros?", disse a voz do destino, segurando um cartão de crédito sem-limites na mão, e um peito vazio na outra.

Sem saber como chorar, ele respondeu com os olhos: "Não mãe, não é só um palhaço, é um homem sem emprego, desfrutando o presente da vida". Mas há os desempregados, que cegos, viram atiradores de facas. Dói só de lembrar.


Fonte: www.colecionadordepedras.blogspot.com

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