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IDOSO DEVE COMEMORAR?

idosos O Dia do Idoso, no dia 27 de setembro, foi criado para que se reflita sobre a situação do idoso no país, sobretudo no que diz respeito aos seus direitos, saúde e dificuldades.
Como a população está a cada dia mais velha , com o tempo, sempre ele, os jovens deverão reduzir o preconceito e o desprezo que têm pelos velhos. E estes não se sentirão insultados em usar o adjetivo "velho". Os insuportáveis "terceira idade", "melhor idade", "idade do ouro" cairão em desuso, por serem feias demais.

Quando vemos o corpo desmoronar( e isso não acontece de forma nem semelhante, que dirá igual entre as pessoas), criamos recursos internos e os usamos como armas contra a velhice. Nos confortamos dizendo intimamente que somos jovens de espírito. Não gosto disso. O que tenho de melhor é o espírito velho ( aos 52 anos), experiente, seguro e firme. E disso não abro mão. Quanto aos jovens, se não querem envelhecer, que morram, porque senão velhos se tornarão.  

Mara Yanmar Narciso da Cruz é especialista em endocrinologista e metabologia


QUEM TEM UM AMIGO, MESMO QUE UM SÓ, NÃO IMPORTA ONDE SE ENCONTRE, JAMAIS SOFRERÁ DE SOLIDÃO; PODERÁ MORRER DE SAUDADE...
MAS NÃO ESTARÁ SÓ!"
AMYR KLINK


SOLIDÃO NA VELHICE: REFÚGIOS E SILÊNCIOS DENTRO DE SI.

ELISANDRA VILLELA GASPARETTO SÉ

Para o alcance de uma velhice bem-sucedida é muito importante tomar algumas medidas preventivas e munir-se de informações sobre essa etapa da vida. Não que o envelhecimento seja necessariamente acompanhado de perdas, nem de doenças e afastamento social, é que além de podermos cuidar da saúde física também podemos cuidar da saúde mental para viver com satisfação e equilíbrio essa fase da vida.

Quando nos referimos à solidão na velhice, podemos perguntar: porque na “velhice”? A solidão na velhice seria diferente da solidão em outra fase da vida? Ao longo da vida estamos expostos a eventos positivos e negativos que concorrem para que possamos experimentar solidão em algum momento da vida. Ainda mais que o homem por ser um ser essencialmente social, acreditamos que a vida em grupo apresenta mais vantagem para o ser humano. No entanto, em todo o nosso curso de vida existem diferentes formas de sentir solidão, bem como maneiras de afastá-la ou de conviver com ela. Assim, a idade que esse sentimento pode ser experimentado também não é determinada.

O termo solidão é definido como o estado de “estar só” ou a condição de “ser só”.  Refere-se a um estado emocional que inclui isolamento, tristeza, apatia, insatisfação na vida, o qual é provocado pela ausência de contatos e relacionamentos importantes, agradáveis e significativos. Muito mais importante do que estar fisicamente sozinha é o estado emocional de estar privada de um ou vários relacionamentos que gostaria de ter. Desta forma, a solidão pode se caracterizar por experiências de isolamento social, de isolamento emocional, ou ambas ao mesmo tempo.

A experiência de isolamento social significa a diminuição de relacionamentos significativos e satisfatórios, a qualidade dos vários tipos de relacionamentos que a pessoa pode ter, como por exemplo, relacionamentos superficiais ou íntimos, com amigos antigos ou recentes, com colegas de trabalho, com vizinhos ou parentes. O isolamento emocional diz respeito ao modo como as pessoas se sentem em relação a elas mesmas, com os relacionamentos que têm. Podemos sentir solidão emocional por não ter pessoas com as quais se esteja emocionalmente comprometido, pela perda de amigos íntimos ou confidentes.

Entretanto, viver só, ou ser socialmente isolado, não significa sentir solidão e também pessoas com recursos pessoais, psicológicos, tais como saúde (o que faz manter a autonomia e independência) uma rede satisfatória de amigos ou o envolvimento em atividades produtivas e de lazer também experimentam a solidão.

A solidão é tema bastante explorado em filmes, músicas, poemas, romances, novelas, e na filosofia, sendo fonte de inspiração para a descrição de sentimentos. Como podemos ouvir na música “Solidão” da cantora Sandra de Sá; na música “La Solitudine” da Laura Pausini; e em filmes tais como: “As pontes de Madison”, de Clint Eastwood, EUA, 1995; “Coisas que você deve dizer somente de olhar para ela” de Beth Andalaft, EUA, 2001; e “Naufrago” de Robert Zmeckis, EUA, 2000. Refletir sobre a solidão leva à busca das origens desse sentimento.

Na filosofia, a dimensão de solidão pode-se ver em Platão, em alguns de seus Diálogos, que falam de um certo “demônio” interior, o demônio socrático, não como uma entidade maligna, mas uma voz que ressoa lá no fundo da gente, que sinaliza e alerta, provoca e orienta, sendo ao mesmo tempo graça e provocação. E no livro do Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry, experimentando a solidão do deserto, põe-se a repensar a vida, constatando que o essencial é invisível aos olhos.

Todos nós experimentamos, em muitos momentos da vida, esse constante ir e vir na procura da nossa identidade como na proposto pelo filósofo Sócrates “Homem, conhece-te a ti mesmo!”. Essa é a dimensão positiva da solidão.

Vários psicólogos têm investigado as condições que determinam a solidão e os sentimentos das pessoas que vivem tal circunstância. A solidão é vista por alguns estudiosos como o sentimento que experimentamos em algum momento da vida e que o conjunto de condições da vida moderna que estamos expostos favorecem seu aparecimento. Mudanças nos estilos de vida podem contribuir para a solidão dos idosos. O aumento do número de mulheres que se tornam independentes porque trabalham e coincide com o adiamento do casamento e a diminuição do número de filhos, maior longevidade das mulheres, a viuvez, mudanças nos arranjos familiares, como divórcios e novos casamentos.

Por outro lado, a solidão é vista também como um momento de construção social e como sinal de amadurecimento emocional, representando um conquista associada ao autoconhecimento e à auto-estima.
Quando vemos uma pessoa que mora sozinha, freqüentemente associamos seu estilo de vida a uma vida de solidão.

Ficar só é um fenômeno altamente complexo que envolve a capacidade que uma pessoa tem de desenvolver esse sentimento, desde a infância e de solidificá-lo na vida adulta. Diferentes pessoas têm diferentes caminhos de buscar sentido na vida.  Estar na companhia de outra pessoa não faz com que se deixe de estar só. Uma pessoa que se sente solitária diz “preciso ver ou conversar com alguém”, ela mesma pode dizer “preciso ficar sozinha para pensar ou refletir”.

Isso nos faz lembrar de um antigo provérbio “Antes só do mal acompanhado”. Procurar um companheiro apenas para não ficar só ou para ter alguém a seu dispor pode às vezes acarretar mais problemas. Escolhas erradas podem até mesmo provocar afastamento de pessoas queridas, de familiares e dos amigos, o que aumenta as dificuldades.

Filósofos e antropólogos apontam outras dimensões para a experiência de solidão. Para eles o exílio social, o sentimento de abandono e rejeição refere-se à solidão negativa. O encontro consigo mesmo, a tranqüilidade espiritual e religiosa, a introspecção e a revisão de vida significa a solidão existencial. O isolamento para o exercício da criatividade refere-se à solidão positiva. Muitos artistas se dizem mais criativos quando estão sozinhos com sua arte.

A solidão crônica, patológica, refere-se a depressão que leva o indivíduo a algo destrutivo. E a solidão temporária é a experiência de uma transição no curso de vida, uma crise psicossocial ou biológica temporária, como por exemplo, um desemprego, perda de um parente, acidentes, separação conjugal, aposentadoria, saída dos filhos de casa.

Com base nesses estudos concluímos que não são todos os idosos que sentem solidão, embora seja comum relacionar velhice com solidão, como se fosse uma experiência obrigatória quando as pessoas ficam mais velhas.

A solidão não ocorre na velhice mais do que em outro período da vida. A solidão não é um estado natural e permanente nos idosos. O impacto dos eventos de vida sobre uma pessoa depende de sua história, de fatores de personalidade, da manutenção de contatos com os filhos, netos e outros familiares e da existência de amigos.

Atitudes positivas em relação à velhice podem facilitar o bem-estar psicológico nesta fase da vida. Estar satisfeito com a própria vida e procurar desenvolver novos papéis sociais e selecionar metas e relacionamentos de acordo com princípios pessoais, sabendo o que lhe é mais significativo e enriquecedor ajuda a combater a solidão negativa. Apesar de a família representar uma fonte de relacionamento seguro, os idosos preferem contatos sociais com amigos da mesma idade.

É possível envelhecer sem solidão nem isolamento. Amigos, parentes, vizinhos, têm uma participação importante na prevenção da solidão. Procurar conhecer novas pessoas, fazer novos amigos, pode contribuir para o autoconhecimento e a autodescoberta.

Envolver-se em atividades prazerosas, sentir-se útil aumenta o senso de auto-realização. Ter a oportunidade de transmitir conhecimentos e experiências a outras pessoas, buscar novas aberturas de comunicação entre as pessoas, participar de grupos de convivência, favorecendo o aprendizado, resulta em crescimento pessoal.

Se conscientizar de seu papel como cidadão na sociedade, reconhecer seus direitos e deveres. Investir em si mesmo, cuidando da saúde física e mental, fazendo exercícios físicos e mentais, cuidando da aparência, melhorando a auto-estima. Se adaptar ás mudanças na velhice sem isolar-se, valorizar suas capacidades e potencialidades. Desenvolver a espiritualidade que visa à sabedoria e traz conforto. E saber eleger prioridades, defender sua privacidade e seus pontos de vista.

Não há nada de errado em gostar às vezes de estar sozinho em alguns momentos, desde que isso contribua para o seu bem estar.

Elisandra Villela Gasparetto Sé é Fonoaudióloga, Mestre em Gerontologia - UNICAMP, Doutoranda em Lingüística - UNICAMP, Membro do Ambulatório de Neuropsiquiatria e Saúde Mental do Idoso do HC-UNICAMP e Co-autora do livro "Exercite sua Mente. Ela escreve para a coluna Mente na Terceira Idade no site
http://www2.uol.com.br/vyaestelar

 

DOCE AMARGURA
Araken Vaz Galvão

Muitos dirão que esse título contém uma contradição. Uma dessas contradições criadas com o óbvio intuito de apenas chamar atenção, de sonhar fazer poesia (de qualidade duvidosa), ou tão somente criar uma contradição. Pueril recurso de retórica que já não engambela o leitor - afugenta-o mais bem.

É possível que tenham razão, há o óbvio exagero no título. Não só no título, aliás. Há outros excessos. Drummond - que era Drummond - criou a bela expressão "claro enigma". Mas não foi nele que pensei ao pôr o título nesta crônica. Não pode imitar os astros - diz a música popular dos anos 50 - (...) quem é poeira do chão. Mas quando digo que muitos dirão se tratar de uma contradição, estou dizendo uma inverdade. Muitos, no caso, será a maioria - seis, talvez - das dez pessoas, se tanto, que lêem minhas histórias.


Entretanto há uma insofismável verdade quando falo de doce amargura. Explico. Tenho 70 anos e, surpreendentemente, estou vivendo os melhores momentos de minha vida, em todos os sentidos - pessoal e intelectual, principalmente.


Só não é melhor por causa dos achaques relacionados justamente com os 70 anos: colesterol, glicose, ácido do úrico, articulações, pressão arterial, e outras insignificâncias da idade... Entretanto, apesar dos pesares, atingi aquele estágio de sapiência ruminante - algo bovina, talvez asinina -, de paz interior, de capacidade de reflexão, típicas da ancianidade.

No ano passado, fiz 69 anos, e foi o maior acontecimento benfazejo de minha vida. Antes, ainda na juventude, ouvia os mais velhos dizerem: "Não imaginas o que é fazer 69...".

Paravam a frase aí, interrompendo-a com flexão de voz não isenta de malícia, deixando-me, por certo, intrigado. Por recato e inibição, nunca indagava sobre a ausência do complemento nominal. Ouvia, entre extasiado e perplexo, os mais experientes falarem das delícias de se fazer 69.

 Os meus interlocutores, compenetrados de seus conhecimentos, trocavam brilhantes e maldosos olhares, eram reticentes, sorriam e quase sempre completavam: "Quando chegar a tua oportunidade... verás a delícia que é. I-nes-que-cí-vel...!". Assim mesmo, sílaba por sílaba, com reticência e exclamação lá no final.

Passei por essa crucial experiência no ano passado, realmente - devo confessar - é (ou foi) algo maravilhoso, que deveria ocorrer todos os dias, várias vezes por dia, se possível. O único inconveniente - terrível, aliás -, curiosamente e por incrível que pareça, não é um só, foram vários. Dificuldade até na construção da frase, porque pede plural.


Dor nas costas, no pescoço... Ah! As juntas... O joelho, então... As articulações dos braços também incomodavam. As omoplatas não mais eram lá essas, perdão, aquelas coisas (talvez por isso tenham mudado de nome, agora são escápulas), qualquer movimento um pouco mais brusco, fisgavam. Claro que havia (há!) também o problema (os problemas!) do reumatismo e do lumbago, isso para não voltar a falar da pressão arterial, do colesterol, dos triglicerídios, da glicemia, ácido do úrico, etc.

Principalmente etc... Porque existe uma infinidade de et coetera... Talvez por isso é que chamam - deram para chamar - essa de "melhor idade"... É realmente uma maravilha, pena que se tenha que tomar tantos remédios.

Esse pormenor - o de tomar muitos remédios - pode colocar o neófito (neófito em matéria de 69), no instante cume do aniversário, antes mesmo de ouvir "parabéns, você conseguiu completá-lo", frente ao inconveniente de ter que interromper a festividade para ir buscar o frasquinho (que é sempre de plástico) ou a cartela onde lhe espera a indefectível pílula.

Mas tudo isso só sucede quando o sujeito passa pela inaudita experiência de fazer 69. Não é o meu caso. Superei essa fase, já o fiz. Agora vivo a doce amargura - como dizia - de estar na casa dos 70. Posso, pois, me dar ao prazer de passar horas meditando sobre a vida.


E foi meditando que cheguei à conclusão: faz-se 69 somente uma vez, e nunca se esquece, até mesmo porque as dores reumáticas - que permanecem por vários dias - não nos permitem esquecer.

Por isso é que, tendo superado essa fase, regozijo-me de ter saído vivo, ainda, da experiência e poder exclamar: vive-se uma só vez. Deixar, porém, claro que se há contradição no título desta crônica (Doce Amargura), maior incongruência há em algo que descobri em secretas filosofias: fazer 69 só seria maravilhoso se fosse possível fazê-lo aos 18 anos, jamais ao 69. Fazê-lo aos 69 é, pois, uma horrenda tortura...

Estava fazendo esta descoberta, quando adentrou em minha casa o Dr. Gonçalves - figura ímpar de profissional, sempre bem-humorado e falante -, e foi logo me medindo a pressão arterial, contando as batidas cardíacas, conferindo da pulsação, auscultando-me os pulmões, olhando-me a garganta, essas coisas que fazem todos os médicos.


Ao ver-me meditabundo, e sabendo do meu meditar sobre a injustiça de não se fazer 69 ao 18 anos, comentou muito sério:

- Você terá uma segunda chance, só que ao contrário: quando fizer 96... Mantenha-se jovem, pois... Jovem, forte e com muita saúde - concluiu. - Já tomou sua sopinha hoje?

E, sem esperar resposta, saiu.

Araken Vaz Galvão é sertanejo, baiano, brasileiro, americano (no melhor sentido).
Revolucionário, hoje pelo exercício radical da cultura, por escrito e assinada.
A cultura floresce a partir de sua raiz, caso contrário é artificial, morta.


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