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MULHERES INVISÍVEIS

MIRIAM GOLDENBERG

 

Nos grupos de discussão que realizei com mulheres cariocas de mais de 40 anos, o que mais me chamou atenção foram quatro tipos de ideias, extremamente recorrentes nos depoimentos das pesquisadas: invisibilidade, falta, aposentadoria e liberdade.

 

Um exemplo da idéia de falta é o seguinte:

“Sei que é o maior clichê, mas é a mais pura verdade: falta homem no mercado. As minhas amigas que estão na faixa dos 50 estão sozinhas. Meu ex-marido, três meses depois da separação, já estava com uma namorada vinte anos mais nova. Que maluco vai querer uma velha decrépita, ou até mesmo uma coroa enxuta, se pode ter uma jovem durinha com tudo no lugar?”

 

Algumas pesquisadas se excluem do mercado sexual. Elas usam a idéia de aposentadoria em seus depoimentos.

 

“A última vez que eu transei eu devia ter 50 anos. Tem quem queira, mas eu é que não quero. Me aposentei neste setor.”

 

Outras ficam obcecadas com as imperfeições do próprio corpo.

“Acabei de fazer 40 anos, isso mudou toda a minha percepção do meu corpo. Passei a enxergar coisas que nunca tinha percebido: celulite, estrias, manchas, rugas. É como se de um dia para outro eu tivesse envelhecido 20 anos. Na cama, também tudo mudou. Antes transava de luz acesa, gostava que meus namorados olhassem meu corpo. Agora entro em pânico. Preciso estar com a luz apagada, debaixo do lençol. Não tiro o sutiã para eles não perceberem que o peito está caído. O pior é que sei que eles não estão nem aí para estes detalhes, é tudo paranóia minha”

 

Muitas mulheres me disseram que passaram a se sentir invisíveis depois dos 40.

 

“Tive muitos namorados até os 40 anos, sempre fui considerada uma mulher sexy. Meu trauma começou quando fiz 40 e namorei um cara de 50. Ele não me enxergava, passava o tempo todo olhando as bundas e os peitos das garotinhas. Aí comecei a me sentir uma velha, pois me sentia invisível para ele.. Aqueles olhares, cantadas, elogios que eram tão comuns na minha vida, desde a adolescência até os 40 anos, simplesmente desapareceram. Sou uma mulher invisível”.

 

Estes discursos podem ser vistos como uma postura de vitimização das mulheres nesta faixa etária, que apontam, predominantemente, as perdas, os medos e as dificuldades associadas ao envelhecimento.

 

Por outro lado, apareceu também, com muita ênfase, a ideia de liberdade.

“O casamento me fez virar funcionária pública, achava que tinha estabilidade, segurança e não precisava cuidar dele, nem de mim. O casamento é um tipo de prisão invisível: parece confortável, mas vai te destruindo aos poucos, deixando só o lado desagradável. Pena que eu só descobri a liberdade aos 50. Poderia ter sido antes.”

 

A frase, “hoje eu posso ser eu mesma pela primeira vez na minha vida” foi repetida por muitas mulheres que percebem o envelhecimento como uma redescoberta, altamente valorizada, de um “eu” que estava encoberto ou subjugado pelas obrigações sociais, especialmente pelo investimento feito no papel de esposa e de mãe.

 

 “Hoje em dia, a minha paz de espírito é a coisa que eu mais prezo. Não quero me chatear com homem. Eu não sabia ser sozinha. Hoje eu sei. Pela primeira vez na minha vida eu me sinto realmente livre.”

 

É interessante observar que tanto no discurso de vitimização, quanto no de libertação, dois foram os eixos centrais das brasileiras pesquisadas: o corpo e a relação amorosa e sexual. O corpo foi tanto objeto de extremo sofrimento (em função de suas doenças ou decadência) ou de extremo prazer (em função da maior aceitação e cuidado com ele).

 

Os parceiros amorosos foram também objeto de extrema dor (alcoolismo, machismo, violência, autoritarismo, egoísmo, abandono, rejeição, faltas) ou de extremo prazer (companheirismo, prazer sexual, cumplicidade).

 

Em uma cultura, como a brasileira, em que o corpo e o marido são importantes capitais, o envelhecimento pode ser vivenciado como um momento de perdas e sofrimentos. No entanto, em uma cultura em que a liberdade é o principal valor, o envelhecimento pode ser visto como um momento de novas descobertas, conquistas e realizações.

 

MIRIAN GOLDENBERG, antropóloga, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora de “Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade” (Ed. Record) www.miriangoldenberg.com.br

 

 

 

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