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QUEM VAI CUIDAR DOS PAIS E DOS AVÓS?
Jussara Câmara

Caso de repouso ou asilo? Nem um nem outro. Um acordo entre os irmãos, costurado com muita antecedência, ou um bom planejamento nos casos de filho único são essenciais para garantir a tranqüilidade dos pais idosos ou dos avós. Esses cuidados evitarão que sejam considerados como "problemas" ou "estorvo" pelos filhos e netos.

_ "Em alguns casos, a casa de repouso ou o asilo podem até ser a melhor solução, mas, normalmente, esses locais não são os sonhados pelos mais velhos, que preferem passar os últimos anos de vida ao lado dos que criaram, ajudaram e sempre amaram", afirma a psicóloga Graziela Zlotnik Chehaibar.
Mas como conciliar a assistência aos idosos com a agitação e a falta de tempo do dia-a-dia?

_ Em primeiro lugar, é preciso estimular os idosos a terem uma vida independente e a não se entregarem diante dos eventuais problemas de saúde. Em segundo lugar, é preciso que os irmãos se reúnam e escolham um responsável pelo acompanhamento diário, diz Graziela. "Esse acompanhamento também pode ser feito em sistema de rodízio", aconselha a psicóloga, enfatizando que todos, filhos e netos, devem participar do processo. "É uma questão de amor, não apenas de tempo e dinheiro."

Segundo a especialista, os idosos podem e devem ter atividades, tanto externas – praticando esportes, indo a igrejas e até resolvendo problemas burocráticos em bancos e cartórios –, como dentro de casa, como cozinhar, cuidar dos netos etc. "A ocupação os faz sentir úteis e independentes. Assim, eles não irão encarar a vida que resta como tempo ocioso", ressalta Graziela.

Um bom plano de saúde é indispensável para garantir assistência médica adequada em caso de doenças. Hoje, já existe a possibilidade de trazer a assistência para dentro de casa.

_ "Se o idoso tem um lar, deve-se fazer o possível e o impossível para que ele continue nele, com a atenção e o respeito da família, e participando das discussões familiares. Ele tem o direito de se sentir amado", conclui a psicóloga, lembrando que "os filhos e netos de hoje serão os idosos de amanhã".


VELHOS DOPADOS
Déa Januzzi

"Já tomei os meus remédios hoje?”, ela pergunta insistentemente, depois do café da manhã e da batelada de remédios que incluem um antidepressivo, um hipertensivo, outro para deficiência de memória, outro para dor nas articulações, e de passar um gel contra artrose nos joelhos. A filha diz para ela que já tomou, a cuidadora de idosos confirma, mas ela quer mais algum antídoto contra a idade avançada, pois tenta, por meio de remédios, espichar a vida e escapar da angústia de envelhecer.

Você conhece algum velho (a) neste país chamado Brasil, que não toma antidepressivos? Eu não, afinal a solidão da velhice tem que ser mascarada, drogada, entorpecida. Os velhos deste país chamado Brasil estão todos drogados. São prisioneiros dos medicamentos de última geração e da enorme conta nas drogarias, que cobram caro pelo envelhecer.

Muitos estão chegando aos 100 anos, graças aos medicamentos, exames de diagnóstico, mas, ninguém da família, da área médica ou da sociedade sabe o que fazer com seus centenários, a não ser aprisioná-los em cápsulas protetoras, ou, melhor ainda, em casas com o pomposo nome de “longa permanência”, que pode ser traduzida com uma única palavra: asilo.

Os laboratórios, a cada dia, lançam remédios contra os distúrbios de memória, ou melhor, contra a degeneração do corpo, contra a decadência física. Ninguém fala mais em caduquice, hoje, todo velho tem doença de Alzheimer, o preço do envelhecer.

Ela grita lá de dentro: “Já tomei os meus remédios hoje?” Não adianta dizer que sim, porque ela quer mais. Remédio para tristeza, para solidão, para velhice, para abandono dos filhos. Ela tem uma gaveta cheia de drogas contra dores do corpo e da alma. Tem remédio de todas as cores e tamanhos e quando o efeito passa, ela se lembra de que está vivendo demais, de lucro, começa a se lamentar, se lembra da realidade do envelhecer num país chamado Brasil, em que os velhos são rejeitados, tripudiados, e têm que enfrentar o tempo de não ter nada que fazer. Os velhos vivem de lembranças de um passado distante.

Ela, então, grita de dentro do quarto: “Estou com dor no corpo todo”, até que alguém corre para dizer que ela está assim, porque não tomou o remédio para dormir e já são mais de 22h. Os habitantes da casa buscam sofregamente na gaveta o remédio do sono, o torpor da noite, o terror da velhice.

Ninguém perguntou para a senhora por que ela toma tantos remédios. Ninguém pediu que ela ensinasse aos filhos e netos e bisnetos algo que eles não sabem. Não, à essa altura da vida, os filhos estão adultos e acham que já não têm nada a aprender com a mãe. Não querem nem mesmo cuidar dela, pois a velhice dá trabalho. A senhora, então, dorme até às 11 da manhã, porque não tem nada o que fazer o dia inteiro. A insistência para que ela levante é negada, afinal, está cada dia mais lenta, por causa dos remédios e do peso da idade.

Levantar de manhã, depois da química noturna da medicação contra depressão e para dormir, é um esforço sobrehumano. Exige muito dela, mais do que esticar os braços e as pernas. A cada tentativa, o corpo volta para trás, como se não obedecesse mais seus comandos. Ela, então, vira para o lado e cochila mais um pouco.

O banho é outro desafio diário: além das barras de proteção e do tapete antiderrapante dentro do boxe, ela tem que se ensaboar com uma mão só. Agarra-se às barras, escora o outro lado do corpo nos azulejos. É uma luta. Lavar o cabelo, então, leva tempo e paciência, pois ela ainda tenta conservar sua independência. É hora de tomar os primeiros cinco remédios, enquanto reclama da dor na coluna e nos joelhos, enquanto tateia o chão com a bengala trôpega.

O neto, que vê a avó entupir-se de remédios, pede que ela o ensine a fazer cocadinha branca com coco ralado e leite condensado. Ela se anima, pede assessoria para ralar o coco, mas se lembra da receita toda, sem erros e sem consultar os cadernos. Afinal, passou a vida inteira nutrindo a família de doces, bolos, biscoitos e almoços diários.


Terminada a tarefa, ela saboreia o doce com o neto, mas logo, logo não tem nada para fazer e volta a pedir os remédios que entopem a gaveta. Ela toma, fica dopada para não ter que encarar seus 90 anos, dias longos demais e uma noite sem perspectivas diante da televisão, do terço da libertação e do livro de orações, entre uma novela e outra.

 
Déa Januzzi é repórter especial do Jornal Estado de Minas, onde tem a coluna Coração de Mãe, que sai aos domingos.O seu blog é:www.deajanuzzi.blogspot.com

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