ACESSO AO LIVRO NA CONJUNTURA DA CRISE

ROSELY BOSCHINI

 

Nas crises econômicas como a atual, a indústria da cultura, na qual se incluiu o setor editorial, pode ser mais duramente afetada do que outros segmentos. O problema tende a ser mais acentuado nas nações emergentes e nas que se encontram em desenvolvimento, de modo proporcional ao que se observa em tempos de vacas gordas.

 

Afinal, as taxas históricas do nível de emprego e inclusão social têm efetiva congruência com os índices de leitura. O brasileiro lê, em média, 4,7 livros por ano. Na Alemanha, por exemplo, são 6,3 volumes por habitante/ano; na França, sete; na Itália, cinco; e nos Estados Unidos, 8,2.

 

É natural que um povo que ganha mais compre mais livros, assim como bens de consumo de um modo geral. Embora haja muita verdade nesta análise, não se pode ignorar que o nível de desenvolvimento das nações guarde estreita relação de causa-efeito com a cultura, a informação e o conhecimento.

 

Assim, neste momento de adversidade macroeconômica, é imprescindível multiplicar os esforços voltados a estimular a indústria cultural e os livros, em particular, considerando seu significado para a democratização das oportunidades e a prosperidade socioeconômica do País. Em síntese, a crise não pode interromper ou abalar de modo grave o avanço da leitura e o acesso aos bens da cultura.

 

Dessa maneira, é necessário trabalhar muito no sentido de que o acesso ampliado ao livro e a todas as mídias gráficas, como jornais e revistas, seja um dos fatores de fomento econômico e social e até mesmo de enfrentamento da crise mundial. Para isso, são fundamentais algumas estratégias e ações que já vêm sendo realizadas pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e que devem como nunca, ser potencializadas: campanhas de incentivo ao hábito de leitura; manter, na totalidade dos mais de cinco mil municípios brasileiros, bibliotecas públicas com acervo mínimo de obras de ficção e não-ficção, didáticas e paradidáticas; incentivar a produção das pequenas editoras; viabilizar o mercado das livrarias de pequeno porte, em especial nos bairros das capitais e nas cidades menores; ampliar ainda mais o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD); eliminar barreiras legais e/ou burocráticas injustificadas que prejudiquem o mercado editorial e dificultem o acesso da população ao livro.

 

No contexto dessas prioridades, há desafios relativos a ações de mercado, mobilização política perante os poderes constituídos e articulação do setor editorial com todos os outros segmentos da cadeia produtiva do livro.

 

Essa tarefa está sendo  cada  dia mais intensificada pela CBL, no

cumprimento de missão intrínseca às entidades de classe na economia

contemporânea.

No universo da globalização, as entidades de classe não devem manter a antiga postura de representatividade passiva de um setor de atividade. É premente que trabalhem de maneira pró-ativa para estimular, defender, ter voz política e contribuir para o fortalecimento do segmento em que atuam seus associados.

 

No caso do livro, este fiador do desenvolvimento e da justiça social, é decisiva a sinergia do mercado em torno de seus organismos representativos, de modo que todas as medidas e estratégias em curso tenham ainda mais força e possam mitigar os efeitos do crash financeiro mundial na produção editorial do País. Vencer tal desafio não é uma conquista importante apenas para editoras, livrarias, distribuidoras e creditistas, mas para toda a sociedade. Afinal, o conhecimento adquirido por uma pessoa é o único bem que crise alguma é capaz de depreciar!

Rosely Boschini, da Editora Gente, é presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL).

 

 

COMO ME APAIXONEI PELOS LIVROS

MAURÍCIO DE SOUSA: O MENINO QUE DEVORAVA LIVROS

 

Ele é um dos mais famosos cartunistas do Brasil e já vendeu mais de um bilhão de gibis no mundo todo. Mas também é um dos escritores brasileiros mais admirados pelos leitores, de acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.

 

Maurício de Sousa, mais conhecido como o criador da Turma da Mônica, nascido em Santa Isabel e criado em Mogi das Cruzes, perto de São Paulo, é um leitor compulsivo. E também tem outra compulsão: guardar tudo o que lê para, se for o caso e der tempo, ler de novo. Ele conta, aqui, como começou sua história de amor com os livros:


“Eu lia muito quando criança. Primeiro, gibis. Depois, livros. Era o tipo de leitor que as pessoas chamam de compulsivo. Queria ler sempre. Se pegava um livro interessante, não parava de ler até chegar à última página. Os gibis, comecei a ler antes mesmo de entrar na escola.

 

Primeiro minha mãe lia pra mim. Depois, por falta de tempo, preferiu me ensinar a ler, aos pouquinhos, letra por letra, sílaba por sílaba, palavra por palavra. Assim, em pouco mais de três meses, já podia soletrar as palavras escritas nos balões das histórias em quadrinhos.

 

E, assim, fui “devorando” história após história, conhecendo os mais variados personagens e me deliciando com as descobertas que fazia naquela janela aberta para o mundo. Afinal, não havia televisão e o cinema não era para toda hora, pelo menos em minha idade, quase 6 anos. E eu morava em Mogi das Cruzes. Mas a curiosidade era maior do que a minha cidade, do que o meu país, do que o meu mundo. Queria mais e mais, pelas páginas dos gibis.

 

Depois de alguns poucos anos, as histórias em quadrinhos já não me bastavam. Acabavam logo. Eu lia rápido demais. E não era toda hora que havia gibis novos. Então, me caiu nas mãos um primeiro livrinho de história, bem infantil. Era a história de uma fadinha, com poucas cores, livro mal impresso e curto, texto simples. Li num pulo. Mas foi insuficiente. Queria mais.

 

Foi quando meu pai comprou uma edição colorida, em papel encorpado, textos curtos e grandes ilustrações, de uma história do Mickey, O Matador de Gigantes, baseado num desenho animado de Walt Disney. Muito bem impresso. Adorei!

 

Lia e relia. Via e revia as lindas ilustrações. E queria mais. Até que fui “atropelado” pela obra de Monteiro Lobato... e entrei no Paraíso. Era outro mundo, outro universo, outro estilo, outra coisa. Li tudo da turma do Sítio do Pica-pau Amarelo e, depois, passei para os livros que ensinavam matemática, gramática, falavam de petróleo, tudo do Lobato... Até chegar à portentosa série dos 12 trabalhos de Hércules. Ufa!

 

Já sabia Lobato de cor e estava na hora de passar para outros autores. A curiosidade me impelia. A compulsão me empurrava. Comecei a devorar os livros de aventuras, tipo Jack London, com quem fiz belas e inesquecíveis viagens. Igualmente com Julio Verne. Seguindo depois para romances históricos, biografias, ficção científica, policiais, além de obras de Machado de Assis, Eça de Queirós... e o que viesse mais.

Houve tempo, lá pelos meus 13 ou 14 anos, em que eu lia um livro por dia. Era o melhor “cliente” da biblioteca da escola, do ginásio, do município. Agradeço aos céus por isso, pois as leituras e tudo o que aprendi lendo – informações, estilos – me ajudaram em todos os momentos futuros da minha vida. Primeiro quando eu buscava os primeiros empregos e preenchia as primeiras fichas, o meu português me punha nos primeiros lugares das filas de pretendentes a uma colocação.

 

Foi assim nos primeiros escritórios em São Paulo e, depois no jornal Folha da Manhã (atual Folha de S. Paulo), onde fui repórter. Lá, também comecei a desenhar quadrinhos, como as histórias do Bidu. Foi quando precisei me comunicar oralmente. Ler e falar se completam. Assim, posso afirmar que, entre outros fatores, a leitura foi o fator mágico que me permitiu a comunicação fácil em qualquer circunstância. A chave, a porta e a entrada estão nos livros.” (Agência Brasil Que Lê)

 

 

 

REVISTA CULT TRAZ UM PAINEL

HISTÓRICO-LITERÁRIO DA RÚSSIA DO SÉCULO 19

 

 A edição de fevereiro da CULT traz o Dossiê com a obra de quatro expoentes da literatura russa do século 19: Dostoiévski, Gógol, Tchekhov e Tolstói. Na abertura do Dossiê, a professora Aurora Bernardini traça um painel histórico-literário da Rússia, discutindo os possíveis fatores que levaram ao surgimento de uma das mais ricas gerações da literatura mundial. Em seguida, artigos apresentam a arte desses quatro ícones e, ao final, uma bibliografia com sugestões das obras mais relevantes.

 

A Reportagem deste mês destaca o CDM (Centro de Documentação e Memória do TUCA – Teatro da Universidade Católica de São Paulo), que reúne periódicos, fotografias, cartazes, plantas arquitetônicas e gravações em áudio que documentam os 43 anos de história do TUCA, palco de acontecimentos marcantes para a história da arte e política do país.

 

A revista disponibiliza o conteúdo integral dos Dossiês publicados mensalmente, desde 2007, e que se tornaram fonte de pesquisa para estudantes, professores e também para os interessados na obra e na biografia das grandes figuras do pensamento o ocidental. É só se cadastrar, gratuitamente, pelo site www.revistacult.com.br.

 

CANTINHO DO CONTO

 

A TERRA E A SEMENTINHA

CIRENE FAZOLO FREIRE

 

Aquele pedaço de terra estava adormecido e vazio. De repente, a terra ouviu alguém batendo: tá...tá...tá...

- Quem é? Perguntou a terra esfregando os olhos.

- Sou eu, uma sementinha. Posso entrar?

- Pode, minha amiguinha, e seja bem-vinda.

A sementinha entrou na terra e disse:

- Eu vinha voando, jogada pelo vento, mas o meu lugar não é no ar, é na terra.

- Muito bem, amiga sementinha, falou a terra. Desce mais um pouquinho, você não pode ficar na superfície, você tem que se afundar mais, assim ó, agora fica no seu lugar e na posição certa.

- Você me ajuda, amiga terra?

- Claro que ajudo, amiga sementinha.

 

A noite chegou e elas dormiram. No outro dia de manhã, o sol esquentou a terra, que esquentou a sementinha. À tardinha, a chuva fina caiu, molhou a terra e a sementinha, que começou a ficar mais gordinha.

 

- Amiga terra, estou ficando inchada, vou crescer, você me ajuda?

- Ajudo sim. O sol vem, a chuva cai e você vai crescer.

Um dia a sementinha sentiu que alguma coisa saía dela.

- Amiga terra, meu coraçãozinho vai pular pra fora!

- Deixa pular, sementinha!

Aí a terra fez um rachadurazinha e a sementinha, clac! Jogou pra fora o seu brotinho verde, pequenininho e frágil. A terra disse:

- Não se assuste, você vai crescer.

- Você me ajuda, amiga terra?

- Ajudo sim.

 

Então o brotinho cresceu, virou planta e deu uma flor, mais outra, mais outra. Atrás das flores vieram as sementinhas que foram caindo na terra úmida. Aquele pedaço de terra aumentou para receber tantas sementinhas. Aquele pedaço de terra virou jardim. O homem viu tantas flores nascendo que resolveu cuidar bem delas. Aquele pedaço de terra virou um campo cheio de flores, vindo de uma sementinha pequenininha, jogada pelo vento.

 

Aí a terra pensou com seus botões (que, a esta altura, eram botões de flores):

- Quem planta uma sementinha, colhe um campo de flores.

 

Cirene Fazzolo Freire é capixaba, viúva e tem 88 anos completados agora no dia 6 de fevereiro. Nossos parabéns pelo aniversário e pelo conto.

 

 

_________________________

Direitos autorais (Lei federal nº 9.610/98) - Quando da utilização de material  deste site, deve ser feita a seguinte referência: "extraído de www.idademaior.com.br"