BREJO DA SEVERINA

CIRENE FAZOLO FREIRE

 

A estrada é áspera, porosa e esburacada. Além, o brejo da Severina onde ela vive feliz colhendo as ervas para o chá, os gravetos de lenha para o fogão de chapa. Fogão enegrecido, fumarento, o fogo crepitando, jogando faíscas para o alto quando Severina incha as bochechas no assoprar, avivando as brasas debaixo do caldeirão de feijão e da panelinha de sopa. O taboal de um vermelho escuro põe uma mancha alegre no brejal imenso.

 

O terreno arenoso aqui, úmido ali, pequeninos lagos onde o coaxar dos sapos é música para Severina. Não só os sapos, também os grilos fazem musiquinhas adormecendo Severina na cama tosca com lençóis encardidos. A estrada porosa corta o brejal, os que passam saúdam Severina na sua faina de recolher o que há de melhor e mais precioso no seu brejo, o brejo de sua vida.

 

O brejo é o seu mundo, sua alegria, sua razão de viver. As borboletas esvoaçantes são pétalas de flores adejando no ar pedacinhos coloridos e luminosos, dando mais vida e mais beleza aos olhos de Severina, a senhora do seu brejo. Severina magra, rosto chupado, pernas finas, pés pequenos arrastando as sandálias de tiras, lenço na cabeça, vestido de chita, é uma rainha. Rainha de seu brejo, onde Severina tem lá num canto, junto a uma moita de árvores pequenas, sua casinha de barro batido, porta de taramela, janelinhas amarradas com embiras de bananeira. De manhãzinha Severina, a rainha do brejo, joga punhadinhos de milho para as galinhas magras e quirela para os pintinhos. As galinhas se amontoam ao redor de suas pernas finas, os pintinhos piu... piu... beliscam os grãozinhos enquanto Severina vai ao poço buscar água para o café.

 

O sol sobe dourado enchendo de vida todo o brejo, fazendo brilhar as flores, o taboal, as ervas e os pequenos lagos. Severina não tem dinheiro, mas é muito rica. Rica de humildade, simplicidade, sobretudo rica porque possui todo aquele brejo coberto de mil toneladas de ouro do sol que vem subindo, aquecendo e iluminando. Rica de esmeraldas dos tufos verdes de verduras que brotam espontaneamente da terra úmida e cheirosa. Cantarolando, Severina recolhe os gravetos de lenha, as palhas de folhas secas para a forragem dos ninhos, ervas perfumadas e flores para o altarzinho onde o Menino Jesus, deitado na pequenina cama de capim seco, vê Severina com seus olhinhos azuis. “Abençoada és tu Severina no teu brejo que é teu mundo”. À tardinha Severina contempla o pôr-do-sol em tons alaranjados, rosa e roxo violeta.

 

Já faz um bom tempo que não passo por lá. Sinto saudades de Severina, do seu brejo, das flores, das borboletas e principalmente de sua riqueza, porque a riqueza de Severina é o sol, a lua, as estrelas, o mato rasteiro e o capim cheiroso.

 

Boa noite, Severina. Deixa uma fenda da janelinha aberta para o luar brilhar teu rosto enquanto tu dormes o sono dos justos. E de manhã quando o sol despontar, um raio de luz atravessa tua janelinha e te beija festivamente. Bom dia Severina. Deus te abençoe na riqueza do teu brejo.

 

 

O MAIOR CONCURSO DE MICROCONTOS DA INTERNET

 

Começam no início de maio as inscrições para o maior concurso de microcontos já realizado no âmbito da internet brasileira. A iniciativa é do site colaborativo de prosa e poesia Talentos (www.talentos.wiki.br), que no ano passado promoveu um concurso de poesias, que resultou na edição de um livro que reúne as 70 poesias mais bem classificadas pela Comissão Julgadora.

 

Desta vez, Talentos abre espaço para os microcontos, expressão literária que surgiu no rastro do estouro do Twitter, a rede social mais badalada do momento. Ali nasceu o que está sendo chamado de Twitteratura, que é a literatura feita nos padrões do Twitter, ou seja, limitada aos 140 caracteres usados no microblog.

 

As pré-inscrições para o concurso já estão abertas e podem ser feitas no link http://www.talentos.wiki.br/pre.php. O concurso vai distribuir cerca de R$ 15 mil em prêmios.

          

 

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