OS PROFESSORES E O VATICÍNIO DE DELORS

FABIO ARRUDA MORTARA

 

Ao emergir de uma das mais graves crises econômicas da história, a presente civilização não pode continuar postergando a solução de seus gargalos, em especial as prioridades sociais. Afinal, não haverá solução definitiva para a humanidade ascender ao círculo virtuoso inserido em uma economia sustentável, num mundo ainda permeado de bolsões de miséria e exclusão. Por isso, educação e leitura são prioridades absolutas. Nada mais tem tamanho poder transformador!

 

 Assim, temos de nos envergonhar muito com os dados da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), de que, em todo o mundo, cem milhões de crianças continuam fora da escola e quase um bilhão de pessoas são analfabetas. Este flagelo, na América Latina e no Caribe, atinge 39 milhões de adultos. Os números, obviamente, conspiram contra os Objetivos do Milênio na área do ensino, estabelecidos pela ONU para 2015. 

 

No Brasil, a situação também é grave. Temos um dos piores índices de alfabetização da América Latina, atrás de nações como Bolívia, Suriname e Peru. É o que se pode depreender por meio do cruzamento de dados do último Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) com o ranking do analfabetismo da região. Com índice de 10%, nosso país é o 15º colocado. A relação é liderada por Cuba (taxa de 0,2%). O lanterna é o Haiti (37,9%).

 

Corrobora esse complexo cenário, a pesquisa “Juventude e Políticas Sociais no Brasil”, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea): a distorção idade-série é um dos maiores problemas na área educacional brasileira. Quase 34% dos jovens de 15 a 17 anos continuam no Ensino Fundamental, quando deveriam estar cursando o Médio. Na faixa etária de 18 a 24 anos, apenas 12% estão no nível adequado, ou seja, o Ensino Superior. Nessa mesma faixa etária, mais de 30% já abandonaram os estudos. Na população de 25 a 29 anos, apenas 13% seguem estudando, sendo que 7% encontram-se na educação superior. 

 

Acrescente-se ainda a esses vergonhosos indicadores o expressivo número de analfabetos funcionais, ou seja, aqueles que apenas escrevem seus próprios nomes.

 

É preciso mudar essa realidade! Educação e leitura são essenciais para que os indivíduos alcancem a cidadania, tenham participação plena em suas comunidades, melhores condições de saúde, engajamento político e melhores oportunidades de trabalho. Enfim, para que se alcance a democracia plena.  Prova disso é a pesquisa internacional Education at a glance (Panorama da Educação), da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). O estudo comprova que, na maioria dos países ricos ou emergentes, a renda dos profissionais é 50% maior para os que concluem o Ensino Superior. No Brasil, esse índice é ainda mais expressivo, excedendo a 100%.

 

Portanto, não podemos continuar sonegando o direito inalienável à leitura, que será garantido apenas quando houver  educação universal de excelência. Considerando não haver mais falta de vagas nas escolas públicas, resta aos brasileiros promover a melhora na qualidade do ensino gratuito. Tal conquista somente será possível a partir da valorização e de melhores condições de trabalho para o Magistério. O vislumbre de tal perspectiva é a homenagem mais pertinente a ser feita neste Dia do Professor (15 de outubro).

 

A sociedade agradece, pois é no reconhecimento aos docentes e na certeza do papel fundamental que desempenham, que se consubstancia o vaticínio de Jacques Delors, ex-presidente da Comissão Européia e coordenador da Comissão Internacional da Unesco sobre Educação para o Século XXI: "O ensino surge como um trunfo indispensável à humanidade na construção dos ideais da paz, da liberdade e da justiça social. Só ele conduzirá a um desenvolvimento mais harmonioso e autêntico, de modo a fazer recuar a pobreza, a exclusão social, as incompreensões, as opressões e as guerras".

 

Fabio Arruda Mortara, M.A., MSc., empresário, é presidente da Regional São Paulo da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf).

 

 

COMEMORAÇÃO E COMPROMISSO

NO DIA NACIONAL DO LIVRO

                                              ROSELY BOSCHINI

 

Há 199 anos, mais exatamente em 29 de outubro de 1810, quando a Corte portuguesa encontrava-se no Brasil protegida da guerra imperialista de Napoleão Bonaparte, registrou-se a transferência da Real Biblioteca para o Rio de Janeiro. Nosso país nunca mais foi o mesmo, pois os livros têm o poder de mudar a história, ao preservar memórias, transmitir conhecimento, formar consciências e garantir aos cidadãos o direito essencial da liberdade de expressão, pensamento e da formação de juízo de valores.

 

Contribuiu para a difusão da leitura no então Vice-Reino, o nascimento da indústria gráfica, surgida em 1808, também na Cidade Maravilhosa, com a instalação da Imprensa Régia. Repetiu-se no Brasil fenômeno semelhante ao que se observara cerca de 350 anos antes, na Europa, quando o alemão Gutenberg criou os tipos móveis e passou a imprimir. O primeiro trabalho que saiu de seus prelos foi uma Bíblia. Um dos exemplares originais, aliás, encontra-se no acervo da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, aquela mesma que um dia recebeu as coleções da família real, compostas por 60 mil peças, entre livros, manuscritos e mapas.

 

Para se ter idéia da capacidade transformadora da leitura, por volta de 1450, o Velho Continente tinha cerca de 50 milhões de habitantes, dos quais apenas oito milhões alfabetizados. A transformação do livro de privilégio em algo mais acessível, propiciada pela impressão mecânica, multiplicou por três, em poucos anos, o número de europeus que sabiam ler e escrever.

 

Por isso, é importante comemorar com ênfase cada aniversário da chegada da Biblioteca Real ao Brasil. A data, 29 de outubro, foi oficializada como o Dia Nacional do Livro. Atualmente, nosso país produz 340,2 milhões de exemplares anuais (pesquisa “Produção e Vendas do Mercado Editorial Brasileiro 2008”, realizada pela Fipe/USP, para a CBL e o SNEL). No período de 2006 e 2008, foram lançados aproximadamente 57 mil novos títulos e impressos mais de um bilhão de exemplares. O estudo, que também aponta significativa queda de preços, evidencia os esforços das editoras, livrarias, distribuidores e do segmento de venda porta-a-porta para que a leitura seja cada vez mais parceira do desenvolvimento....

 

Há, ainda, duas iniciativas da CBL que apresentam consistente resultado: a Bienal Internacional do Livro de São Paulo e o Prêmio Jabuti. Este, criado em 1959, chegou em 2009 à 51ª edição, contemplando 21 categorias e atingindo número recorde de inscrições, com 2.574 obras. Não menos importantes são as ações de divulgação do mercado editorial brasileiro no exterior.

 

Em 2009, com apoio do convênio Brazilian Publishers, firmado pela Apex-Brasil e a CBL, a participação brasileira na Feira do Livro de Frankfurt, a mais importante do mercado editorial do mundo, teve mais visibilidade. No âmbito institucional, neste evento a Câmara firmou significativo acordo com Frankfurter Buchmesse (organizadora da Feira de Frankfurt) que visa à realização de atividades centradas no desenvolvimento da cadeia produtiva do livro no Brasil.

 

São prioritários, ainda, programas capazes de facilitar o acesso ao livro pelas crianças e jovens matriculados na rede pública de ensino. Nesse sentido, além da ampliação das ações federais (como o Programa Nacional do Livro Didático — PNLD e Programa Nacional Biblioteca da Escola), são necessárias mais iniciativas conjuntas entre União, estados e municípios e a iniciativa privada. Exemplo bem-sucedido da viabilidade desse objetivo é o projeto Minha Biblioteca, iniciado em 2007 na cidade de São Paulo, com forte apoio e participação da CBL.

 

Houve, portanto, boas razões para se comemorar o Dia Nacional do Livro neste 29 de outubro. Porém, ainda é imenso o desafio relativo à meta de converter o Brasil num país de leitores e, portanto, mais desenvolvido, livre e justo! Como “a vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal” (Machado de Assis), é preciso reiterar a cada manhã o compromisso de outorgar a todo brasileiro o direito de repetir a instigante frase de Clarice Lispector: “A palavra é o meu domínio sobre o mundo”.

 

Rosely Boschini é presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL).

  

 

LIVRO X INTERNET = LEITURA

 

Para o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Antonio Carlos Xavier, as plataformas de leitura não importam e toda e qualquer forma de leitura é válida.

 

 “Todos os usuários de internet passaram a ler mais depois de descobri-la. Toda mídia criada potencializa a faculdade humana de processamento dos signos sejam linguísticos, visuais ou sonoros”. Com a internet não é diferente. Talvez seu maior ganho seja a fusão de todos os modos de linguagem em sua superfície de percepção. Na tela, o leitor ou (hiper)leitor acessa o hipertexto, modo de enunciação/comunicação que mescla as linguagens verbal, visual e sonora. Certamente, isso exige do (hiper)leitor um esforço cognitivo maior, pois terá que juntar os diversos signos para construir o sentido pretendido pelo autor do hipertexto”.

 

Nesse contexto, o professor da UFPE considera que a forma de processamento necessária para compreender o hipertexto pode ser classificada como bem mais rica e desafiadora que as formas mais tradicionais de ler só o verbal (livro), só o imagético (tv) ou só o sonoro (rádio).

 

Segundo Antonio Carlos Xavier, a plataforma em que se lê também não é determinante para, digamos, qualificar o leitor. “Podemos dizer que bons e maus leitores sempre existiram, independentemente do advento da internet. O que se pode perceber é uma forma de leitura diferente, e não se trata de ser inferior ou superior. É bem verdade que a nova geração tem mais acesso à informação, mas isso não significa nem menos nem mais qualidade. Ela lê mais fragmentariamente, entretanto, nada a impede de ler aprofundadamente se o tema lhe interessar”.

 

Ou seja, não há amarras para essa nova geração. “O bom leitor não depende da tecnologia ou do suporte de leitura; depende de como ele for estimulado e convencido por seus pais, professores ou "herois" a ler sobre um tema ou outro, de um jeito ou de outro”, afirma.

 

Esta fala foi feita durante a 13a Jornada de Literatura de Passo Fundo e acontece de 27 e 30 de outubro, no Auditório do Iceg (Instituto de Ciências Exatas e Geociências).

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AINDA FALTA MUITO
GALENO AMORIM

 

Já se sabe que a década atual não entrará para a história como aquela em que os problemas da baixa leitura foram sanados ou que o Brasil se aproximou dos índices dos países desenvolvidos. Porém, ela pode ficar conhecida no futuro como a mais importante da história das políticas públicas do livro e da leitura por ter representado o início da virada.

Após uma derrapagem inicial (em 2003, o governo extinguiu, inexplicavelmente, a Secretaria Nacional do Livro e da Leitura), não houve, depois, um só ano sem que alguma medida importante tenha sido anunciada. A primeira foi a Lei do Livro, um marco regulatório, assinada naquele mesmo ano pelo presidente Lula. No ano seguinte, houve a desoneração fiscal do livro. Em 2005, uma ampla parceria público-privada celebrou o Ano Ibero-Americano da Leitura com 100 mil ações, projetos e programas, numa mobilização sem precedentes.

Em seguida, viriam o BNDES ProLivro e o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL). Antes, a Câmara Setorial - outra novidade - aprovara as diretrizes dessa política até 2020. As editoras então criaram o Instituto Pró-Livro e o Prêmio Vivaleitura, do governo, catalogou 10 mil ações de fomento à leitura. O Ministério da Cultura, de sua parte, correu para eliminar a chaga social representada por 1.300 municípios sem bibliotecas - o que ocorrerá até o fim do ano.

Outro ganho notável foi a ampliação e consolidação dos programas sociais do livro, que chegam a 30 milhões de alunos pobres. O resultado de tudo isso é que o índice de leitura subiu para 4,7 livros por habitante/ano (entre os brasileiros acima de 15 anos e pelo menos três anos de escolaridade, era 1,8 livro/ano em 2000 e dobrou em 2008, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil).

Embora o rumo pareça certo, o país está aquém de suas necessidades. É preciso, agora, pôr o pé no acelerador e intensificar as ações. O primeiro passo é acabar de cumprir a agenda feita pelo governo e a sociedade entre 2004 e 2006 e legitimada por 40 mil lideranças. Entre pontos que restam, estão o financiamento público dessas políticas e uma estrutura de gestão, que pode ser o Instituto Nacional do Livro e Leitura. O Congresso votará, este ano, o Fundo Pró-Leitura (0,33% da receita), oferecido em troca da desoneração.

Bem que os parlamentares poderiam aproveitar e destinar parte do fundo social do pré-sal para reforçar esse caixa. E o governo passar a destinar orçamentos dignos e instituir um amplo programa de revitalização da atual e precária rede nacional de bibliotecas. Com isso, teremos muito a comemorar.

Galeno Amorim é diretor do Observatório do Livro e da Leitura. Fonte:
'Brasil que Lê - Agência de Notícias

 

 

SEBOS APROXIMAM OBRAS E LEITORES


Num país onde há anos se repete que as 2.600 livrarias existentes (e concentradas no eixo Rio-São Paulo) são sabidamente insuficientes, uma boa notícia. Já passa de 1.600 o número de sebos, espalhados por mais de 300 cidades, que integram a Estante Virtual, a qual reúne todos eles na internet. Os números dessa genial invenção de André Garcia são impressionantes: 600 mil compradores de livros em 5.423 cidades do País. E 23 milhões de livros a preços mais em conta (boa parte deles a menos de R$ 12,00).

 

Não é pouco. E tudo isso em menos de quatro anos.

Fonte: 'Brasil que Lê - Agência de Notícias

 

 

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