SÃO PAULO COMEMORA DIA DA LEITURA

 

A partir deste ano, o Dia das Crianças é também o Dia da Leitura no Estado de São Paulo. A proposta, encampada por diversas organizações que militam no mundo do livro e da leitura e liderada pelo Instituto Ecofuturo, já virou lei no estado e agora tramita no Senado Federal uma outra, de autoria do senador Cristovam Buarque (PDT-SP), para tornar a data nacional.

 

O objetivo é sensibilizar pais e educadores sobre a importância de estimular a leitura para os jovens leitores já na infância e chamar a atenção para a necessidade de criar e revitalizar as bibliotecas públicas, municipais e comunitárias.

 

 “Um hábito cultural como a leitura se desenvolve por convívio e por contato, nasce da experimentação”, afirma a diretora do Instituto Ecofuturo, Christine Fontelles. “Esta é a oportunidade de aproveitar uma data já existente e na qual o Brasil celebra, desde 1924, a infância, para criar uma possibilidade de mobilização educativa que chame a atenção de adultos e educadores para a importância de oferecer livros de literatura para bebês e crianças em fase pré-escolar”, acrescenta ela.

 

O bibliófilo e membro da Academia Brasileira de Letras, José Mindlin, padrinho do projeto Ler é Preciso, do Instituto Ecofuturo, diz que toda divulgação para estimular a leitura é válido. “Na minha opinião, todos os dias deveriam ser dedicados à leitura”, afirma ele, que aprova a coincidência de datas entre o Dia da Leitura e o Dia das Crianças.

 

“Devemos cultivar, cada vez mais cedo, o hábito de leitura entre crianças para, em um breve futuro, termos muito mais leitores”, acrescenta.

 

Fonte:Agência Brasil Que Lê

DADOS DO IBGE

 

Dados recentemente divulgados pelo IBGE revelam que, em 2007, 1,3 milhão de crianças entre oito e 14 anos de idade não sabiam ler nem escrever, apesar de 1,1 milhão freqüentar a escola. Na opinião do empresário Claudio Amadio, idealizador da Cidade do Livro – primeiro parque temático de São Paulo totalmente voltado à leitura – o maior estímulo à leitura vem dos pais. Fora isso, Amadio acredita que o personagem Harry Potter contribuiu muito nos últimos anos para que mais crianças tomassem gosto pela leitura. 

 

 

FESTA DO LIVRO

MOACYR SCLIAR


“É tempo de celebrar”: o título que Rosely Boschini, presidente da Câmara Brasileira do Livro, deu ao texto em que, na revista Panorama, anunciou a vigésima edição da Bienal de Livro de São Paulo, revelou-se absolutamente profético. Porque a Bienal, que levou ao amplo espaço do Anhembi uma enorme e alegre multidão de leitores de todas as idades, foi mesmo uma celebração. Uma celebração do livro e da cultura, que se expressou no extenso programa de atividades: palestras, debates, shows.


Celebração evoca festa, evoca júbilo. O que poderia implicar certa contradição: afinal, o texto escrito tem uma aura de seriedade, de respeito. Não por acaso as grandes religiões expressam seus fundamentos históricos e éticos em livros: o Antigo Testamento, os Evangelhos, o Corão. E não por acaso a biblioteca de Alexandria, no Egito, que pretendia concentrar todo o conhecimento do mundo, tornou-se lendária. Isto, somado ao fato de que, durante milênios, o analfabetismo foi a regra entre seres humanos, explica o poder intimidante que o texto exerceu, e ainda

exerce, para muitas pessoas.

A invenção do livro ajudou a democratizar o saber, mas ficou claro que para isso o próprio livro também precisaria ser democratizado, colocado ao alcance de todos, crianças e adultos, homens e mulheres, pobres e ricos. E mais, era preciso proporcionar encontros entre leitores e livros de maneira informal, descontraída, festiva. Pois é justamente o que a Bienal faz. Era só olhar as pessoas que percorriam as dezenas de estandes: claramente viviam um momento de felicidade e até de deslumbramento.


Para o Brasil, isto é uma glória. Precisamos desesperadamente de estímulos para a leitura. O estudo realizado pelo Instituto Pró-Livro mostra que cerca de 77 milhões de brasileiros, a maioria adultos, lêem pouco ou nada. Mas isto não é uma fatalidade, não é coisa do destino: entre as pessoas com curso superior, 98% são leitoras. Esta proporção tem de servir como meta para o trabalho de estímulo à leitura. É preciso ir em busca dos leitores, despertando neles o prazer de ler, que é, segundo o mestre Antônio Cândido (que recentemente completou 90 anos), o grande meio de atrair as pessoas para o livro. Criatividade é palavra-chave.

 

A CBL deu um exemplo, com o projeto “Livro de Todos”, uma obra coletiva que mobilizou 175 jovens escritores (estreantes, em sua maioria) via Internet, que tiveram trabalhos selecionados por uma comissão editorial da Imprensa Oficial de SP, coordenada pelo jornalista Almyr Gajardoni. O site foi visitado por nada menos que 15 mil pessoas.

 

A mim coube escrever o primeiro capítulo, que fala do misterioso roubo do computador de um garoto, no qual estava o texto de um livro por ele escrito. Por que seria importante esse texto, foi a pergunta que deixei para ser respondida. E foi muito bem respondida. O livro é ótimo.


O governo tem um papel importante a desempenhar na formação de leitores. Não por acaso o Plano Nacional do Livro e da Literatura, coordenado pelo intrépido José Castilho, organizou, simultaneamente à Bienal, um fórum sobre leitura. A presença do ministro Juca Ferreira, um batalhador do texto, conhecido pela competência e pela dedicação, é uma garantia neste sentido.

 

Recentemente, as entidades do livro apelaram ao Ministério da Cultura para que se recrie a antiga Secretaria Nacional do Livro e da Leitura. É uma medida que ajudará a instrumentalizar os numerosos e excelentes projetos que constantemente surgem na área.
A presidente Rosely Boschini tem razão. Este é mesmo um tempo de celebração. (Agência Brasil Que Lê)

 

Moacyr Scliar é escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.

 

CONFIANDO

LUCIANO PIRES


Você confia no governo brasileiro, seja ele do PT, PSDB, DEM, PMDB, PSOL, PP, PV ou qualquer outro partido ou coalizão?

Carlos Drummond de Andrade um dia escreveu que, “a confiança é um ato de fé, e esta dispensa o raciocínio”.

Outro dia fui almoçar no Clube Kolpinghaus, na Rua Barão do Triunfo, em São Paulo. Lá encontrei uma banca onde dezenas de livros usados estavam expostos, à venda. Num cantinho havia uma caixa de papelão. Você pega os livros que quiser e deixa o dinheiro na caixa, aberta. Não tem ninguém pra conferir ou vigiar. A turma confia nos compradores.

Nos EUA nunca entendi aquelas caixas automáticas que vendem jornais. Você coloca uma moedinha e abre a tampa. Pega seu jornal e vai embora. Mas se quiser pegar mais de um, pega. Não tem ninguém para conferir, eles confiam nos compradores.

E acabo de voltar da Finlândia. Lá conheci uma sociedade onde tudo parece funcionar. Ruas limpas, tudo no lugar certo. O check in e despacho de bagagens no aeroporto é impressionante. O avião estaciona no terminal pré-determinado. O ônibus está no lugar certo na hora certa. Todo mundo tranqüilo, confiando nas outras pessoas e nos processos.

Após a Segunda Guerra os finlandeses, pressionados entre a Europa e a União Soviética, escolheram o caminho do consenso, do equilíbrio. Desde então foram governados por coalizões entre partidos de todos os espectros políticos: da esquerda à direita. Não há a disposição constante dos partidos de oposição de plantar mentiras ou distorcer verdades tentando quebrar a confiança no partido da posição. E vice-versa. E se você examinar o mercado finlandês verá governo, empresários, industriais, sindicatos e organizações civis conversando civilizadamente para buscar entendimento.

A Finlândia é uma sociedade baseada na confiança. Uma pesquisa recente (Eurobarometer) apontou que 61% dos finlandeses confiam no governo contra 32% da média européia.

Para confiar no governo ou em qualquer entidade pública ou privada temos que confiar em seus processos, na transparência das transações, na lei tratando todos por igual, no combate à corrupção. Mas brasileiros não confiam em processos, confiam, quando muito, em pessoas. Precisam de um líder virtuoso ao qual atribuir poderes e direitos. Ao qual confiar esperança. Um líder que os conduza para o paraíso, o que é muito perigoso – pois, “confiança é um ato de fé, e esta dispensa o raciocínio”.

A fé dispensa raciocínio... Fico imaginando se aqueles finlandeses não raciocinam e concluo que - diferente dos brasileiros – raciocinam tanto que confiam primeiro nos processos. Sabem que a sociedade finlandesa está apoiada num conjunto sólido de leis que serão cumpridas, seja lá quem for o governante. E essa confiança é disseminada por toda a sociedade.

Na Finlândia, ladrões, assassinos, corruptores, pedófilos e outros indivíduos com desvios de comportamento são considerados foras-da-lei. E punidos. Sem discussões socio-político-ideológicas em torno da culpa da elite-burguesa-capitalista-sobre-o-bandido-pobre-preto-oprimido.

Mas será que os finlandeses são perfeitos? Será que lá não existem indivíduos que tentam se desviar dos processos, tentam dar uns “jeitinhos”? Claro que existem. E lá – como aqui - quem tiver mais dinheiro mais facilidade terá para procurar se desviar dos processos.

Mas essas pessoas não são tratadas como regra. São exceção.

Nas sociedades suportadas pela cultura da confiança não existem dúvidas sobre as leis e os processos criados para que elas sejam cumpridas.

Quem confia nas leis não precisa quebrá-las.

 

Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista. Faça parte do Movimento pela Despocotização do Brasil, acesse www.lucianopires.com.br. 


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