ASFALTO VERDE

CIRENE FAZOLO FREIRE


cirene Neila, cinco letras e cinco mil qualidades. Falar de Neila é difícil porque, com cinco mil qualidades, a cabeça se perde em divagações. Eu falo de Neila como posso, como me favorece a imaginação. Arranco as palavras das cinco letras e das cinco mil qualidades.


Certa vez, numa tarde bonita, em sua casa humilde, ainda solteira e bem novinha, ajoelhada no chão da sala, tendo ao lado uma lata de cera e na mão direita um pedaço de pano, Neila dava brilho ao assoalho de tábuas ou tacos, não me recordo, na sala pequena e humilde. Fazia brilhar o chão de sua casa situada na beira do cafezal, num sítio lá pelos lados de Jerônimo Monteiro. Não sei o nome daquele lugar onde fica a casa pequena que, com certeza, a viu nascer. Se não viu nascer, viu crescer e fazer brilhar seu chão.  O assoalho brilhava pelas mãos disponíveis de Neila e deixava o cheiro de limpeza, assim como em Neila tudo é limpeza, pureza e suavidade.

 

Fiquei olhando aquela criaturinha linda e pura como a flor, encerando o chão, porque Neila quer que o chão de sua casa seja limpo e cheio de brilho. Por isso ganhou um asfalto verde.

 

Mais tarde, já amadurecida, casou-se com Jorge. Fui ao casamento, almoçamos ao ar livre no terreiro grande da casa pequena onde o chão é lustroso pelas mãos de Neila. À tardinha, às seis horas, quando os sinos anunciavam o Ângelus, Neila entrou na igreja, radiante, linda, num vestido lindo, numa tarde quente. No altar repetiu com o padre as palavras que fazem unir dois corações num só coração. Foi morar numa pequena casa, perto dos pais. Eles sentiram demais sua falta, mas sentiram também felicidade ao mesmo tempo, porque Neila soube levar sua vida simples na roça, onde os galos cantam de madrugada e os passarinhos gorjeiam alegremente ao redor da pequena casa, onde o cheiro da limpeza, feito por suas mãos habilidosas, permanece. Como permanece em sua alma limpa e pura a suavidade da flor do campo, porque Neila é realmente a flor do campo.

 

Falou comigo sobre seu trabalho na catequese da igrejinha daquela região, pequena comunidade com cinco letras e cinco mil qualidades. No dia 21 de março, na casa da Iolanda, em Alegre, tive o grande prazer de revê-la, acompanhada dos pais e seu filhinho de dois anos, muito parecido com o Menino Jesus. Neila mudou-se para a casa pequena onde a jaqueira sombreava o terreiro e manda para dentro de casa a brisa fresca da tarde. Não conheço seu novo lar, mas sei que seu asfalto é verde.

 

Com estas palavras, ditas por ela – asfalto verde –, me inspirou a escrever esta crônica e mandar pelo correio, porque não posso deixar de comentar e esticar esta frase. Ela, no seu sorriso de pura bondade e na sutileza das palavras, me falou: “O Jorge disse que nosso asfalto é verde”. Cá dentro de mim, como uma luzinha que se acende de repente, algo me iluminou. O asfalto de Neila, Jorge e do Menino Jesus é macio, atapetado de relva, onde os pés não sentem o calor porque é relvoso, atapetado pela própria natureza. Deus os abençoe no asfalto verde e os faça cada dia mais felizes, mais conscientes de que a felicidade não mora num palácio, mas sim num asfalto verde.

 

Cirene Fazzolo Freire é capixaba, viúva, 87 anos completados no dia 6 de fevereiro 2008.

 

O IMBRÓGLIO DO ACORDO ORTOGRÁFICO

DEONÍSIO DA SILVA

Comecemos pelo título deste artigo. Você sabe como vai ser escrito “imbróglio” depois de entrar em vigor o novo Acordo Ortográfico que, nascido no Rio de Janeiro, em maio de 1986, vai entrar em vigor em 2009, no Brasil e nas demais nações lusófonas? Aliás, a data de início da vigência vale apenas para documentos oficiais e para a mídia. Para as outras instâncias, incluindo o ensino público, o prazo vai até 2012, embora o Acordo comece a ser aplicado em 2010.

 

Convido os leitores a examinar certos detalhes e brechas, como fazem juristas e advogados com as leis. Afinal, semelhando a Constituição de 1988, a norma culta da Língua Portuguesa tem suas leis, que todos devemos respeitar. Todos?

 

Bem, o Instituto Antônio Houaiss e a Publifolha acabam de lançar Escrevendo pela nova ortografia: como usar as regras do novo acordo ortográfico da língua portuguesa, coordenação e assistência de José Carlos Azeredo (134 páginas).

 

É um opúsculo que certamente colabora para fazer da Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa o livrinho que foi a Constituição para o presidente Eurico Gaspar Dutra, mas deixa inseguro quem o consulta.

Vejamos. Na apresentação, aparecem “linguística” e “europeia”, em vez de “lingüística” e “européia”, pois o trema e o dito acento ainda estão em vigor. E vade-mécum, já aportuguesado, aparece em itálico. Mas, então, uma coisa ou outra: se aceitamos a forma portuguesa, é vade-mécum. Se não aceitarmos, será vade mecum, sem acento e sem hífen, pois é assim que se escreve em latim. Cuidemos do latim, ele está presente no português, principalmente no direito, e acho que ninguém de nós quer dispensar o habeas corpus, quer?

 

Eu queria ser amistoso nesse artigo. Primeiro, porque gente de bem, qualificada, com boas intenções, vem a público para explicar o Acordo. Mas, como escritor e professor de Letras, gosto de voltar ao antigo dilema que enfrentam todos os que escrevem: a botânica ou a jardinagem? A maioria dos leitores quer a jardinagem da língua, não a botânica, que esta é obra de lingüistas, lexicógrafos, gramáticos. Não se enfeita a janela com um vaso de sementes. Para a mulher amada, você dá um buquê de flores, e essas são palavras. Confiar a língua portuguesa exclusivamente a estudiosos da língua, por mais qualificados que sejam, equivale a permitir que sobre o sexo legislem apenas ginecologistas e urologistas.

 

Os dicionários mais consultados de nossa língua ainda não se atreveram a grafar “imbrólhio”, como se diz em bom português. Preferiram manter o neologismo italiano imbroglio, sem acento, ou acentuá-lo, seguindo os editores do português Camilo Castelo Branco e do brasileiro Raul Pompéia. Sim, abonaram imbróglio com um texto de Dispersos I, do primeiro, e de O Ateneu, do segundo. Mas por quê? Por que acentuaram, indicando a pronúncia, e mantiveram o encontro “gl” como se tivesse em português a mesma pronúncia que tem no italiano?

 

De todo modo, o Acordo veio para ficar. É bom começar a ler obras como este livrinho. Tudo indica que, por razões de mercado, logo estará em bancas e livrarias o de sempre: o roto ensinando o esfarrapado a se vestir.

Com que roupa você vai? Este é o xis da questão também para a língua. Você não vai à praia de terno e gravata, e não vai ao Legislativo, ao Judiciário, ao Executivo, ao trabalho ou ao estudo de calção de banho.

 

PS1: Não é a primeira vez que as comissões julgadoras do Prêmio Jabuti se atrapalham. Este ano premiaram como um dos melhores livros de contos, e realmente é, Fichas na Vitrola, do excelente autor mineiro Jaime Prado Gouvêa. Mas o livro foi lançado por Pedro Paulo de Sena Madureira, então na Editora Guanabara, em 1986, depois de ter sido vencido o Prêmio Nacional Guimarães Rosa, de MG, em 1982. Há alguns anos um dos finalistas foi o crítico Augusto Meyer, falecido em 1970. A revista Carta Capital foi a única a registrar o equívoco, em texto do também mineiro Maurício Dias, como segue:

 

“A exceção e a regra. O mundo literário aplaude o livro Fichas na Vitrola, de Jaime Prado Gouvêa, que ficou com o terceiro lugar, na categoria “Contos e Crônicas”, do Prêmio Jabuti 2008. Mas reagiu surpreso à premiação. O livro foi lançado pela Editora Guanabara, de Pedro Paulo de Sena Madureira, na década de 1980, e não poderia ter sido inscrito. O regulamento do prêmio só admite livros publicados em 2007. Quem botou esse Jabuti na forquilha?” 

 

PS2: Versão maior deste artigo, com o dobro de caracteres, está disponível aqui. (Agência Brasil Que Lê)

 

Deonísio da Silva é escritor, professor universitário e escreve uma coluna semanal de etimologia na revista Caras.

 

                                            SOBRE A VÍRGULA

Vírgula pode ser uma pausa... ou não.  Não, espere.  Não espere.

Ela pode sumir com seu dinheiro.  23,4.  2,34.

Pode ser autoritária.  Aceito, obrigado.  Aceito obrigado.

Pode criar heróis.  Isso só, ele resolve.  Isso só ele resolve.

E vilões. Esse, juiz, é corrupto.  Esse juiz é corrupto.

Ela pode ser a solução. Vamos perder, nada foi resolvido. Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião. Não queremos saber.  Não, queremos saber.

Uma vírgula muda tudo.

ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.

Detalhes Adicionais. Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria de quatro à sua procura.

Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER.

Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM.


LEITURAS RECOMENDADAS

 A VIDA QUE NINGUÉM VÊ

vida-que-ninguem-veEliane Brum Uma repórter em busca dos acontecimentos que não viram notícia e das pessoas que não são celebridades.. Uma escritora que mergulha no cotidiano para provar que não existem vidas comuns. O mendigo que jamais pediu coisa alguma. O carregador de malas do aeroporto que nunca voou. O macaco que ao fugir da jaula foi ao bar beber uma cerveja. O álbum de fotografias atirado no lixo que começa com uma moça de família e termina com uma corista. O homem que comia vidro, mas só se machucava com a invisibilidade.

 

Essas fascinantes histórias da vida real fizeram sucesso no final dos anos 90, quando as crônicas-reportagens eram publicadas na edição de sábado do jornal Zero Hora, estão reunidas agora no livro, A Vida Que Ninguém Vê.

 A edição que marcou a estréia da Arquipélago Editorial - reúne as 21 melhores colunas de acrescidas de textos que revelam o "dia seguinte" de dois personagens emblemáticos da série de reportagens: Adail realizou seu grande sonho, enquanto Antonio sofreu de uma segunda tristeza. Ao final do volume, um texto inédito de Eliane avalia, com o distanciamento que o tempo oferece, o que há por trás dessa vida que (quase) ninguém viu. A autora Eliane Brum ganhou mais de 30 prêmios de jornalismo, no Brasil e no Exterior.

 A Vida que ninguém vê, de Eliane Brum, Arquipélago Editora, tem 205 páginas e custa R$ 26,40

 

O GUIA DO MENTIROSO

guia-mentirosoTodo mundo mente. E quem nega esse princípio está mentindo. Foi partindo desse pensamento que Duke Christofferson elaborou um livro para quem quer dar uma de  Pinóquio sem passar pelo vexame de ver o nariz crescer. O Guia do Mentiroso – Domine a Arte da Mentira mostra que mentir é uma arte que pode ser aprimorada. E que faz parte do instinto de sobrevivência da humanidade.

As técnicas são cuidadosamente apresentadas em oito capítulos, que incluem um teste elaborado para saber seu PCL (Potencial para Criação de Lorota). Através dele, o leitor vai descobrir se é cascateiro, embromador, contador de “causos”, mentiroso descarado, mentiroso compulsivo ou mentiroso patológico. Ensina também os passos para pregar uma boa mentira: avaliar a situação, burilar a mentira, convencer-se de que é tudo verdade, deflagrar a mentira e escapulir da cena do crime. Mostra as cinco leis para mentir bem – a primeira é não se sentir mal por mentir, mas sentir-se mal por causa das coisas ruins que levam você a ter que mentir. Revela como preparar a consciência para sair mentindo e a importância de saber quando mentir, o que, para o autor, é ainda mais crucial do que saber como mentir.

 Sobre o autor:

Duke Christoffersen desenvolveu sua habilidade como mentiroso no Kansas, onde precisava inventar histórias para não morrer de tédio. Em 1998, ele se mudou para a Califórnia, para trabalhar como roteirista do programa de TV The Dilbert Show.

 O Guia do Mentiroso – Domine a Arte da Mentira (Matrix Editora – 96 páginas)

LIVROS DE FOTÓGRAFOS

isso

 

A quarta edição do Festival Internacional de Fotografia Paraty em Foco – PEF 2008 que aconteceu em setembro, em Paraty, lançou nove livros. Entre eles, destacamos “Isso é que é”, do carioca Cláudio Edinger uma antologia de seu trabalho dos últimos 30 anos. O fotógrafo mostra suas várias encarnações durante sua carreira, como o hippie no Edifício Martinelli, em 1975, quando tinha 22 anos, e fotografando com uma Hasselblad, em 1986, quando tinha 34 anos, na Índia.

 

 

 

mandamentos

 

 

E Adobe Photoshop – Os 10 Fundamentos de Clício Barroso. São mais de 250 páginas divididas em dez capítulos com descrição de técnicas e efeitos que podem ser aplicados em diferentes trabalhos fotográficos.

 

 

 

 

Convite

convite

 

 


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