vidaememoria
 


 

UMA ARTISTA QUE ROMPEU FRONTEIRAS

JUSSARA CÂMARA

 

noivaizabel-trabalhandonoivaizabel

 

Isabel Mendes da Cunha nasceu no dia 3 de agosto de 1924, em Itinga. Quando casou foi para Santana do Araçuaí no Município de Ponto dos Volantes, que fica no Vale do Jequitinhonha, também no estado de Minas Gerais. Filha de louçeira, cresceu vendo a mãe trabalhar com esta arte.

 

Quando pequena, sonhava em ter uma boneca de verdade, mas tinha somente bonecas de barro, que de noite, escondida, ela modelava e cujos rostos fazia igual aos das pessoas. E foi este barro a sua única forma de sobrevivência e de conquistar o mundo.

 

Após o falecimento de seu marido, ela ficou com os dois filhos Amadeu e Maria Madalena e mais dois adotivos para sustentar. Seus vizinhos sugeriram que ela desse os seus filhos para outra família de melhor condição para cuidar. Mas, ao invés disso, D. Isabel preferiu fazer o que eu sabia fazer melhor: naquela época eram potes, filtros, travessas, figuras de presépios, panelas de barro e outros utensílios domésticos.

 

Ela acordava cedo e caminhava 11 km de Santana do Araçuaí até a BR 116 em busca de alguma corona ou um pau-de-arara que passasse, para ir a Padre Paraíso, Ponto dos Volantes ou Itaobim, para vender suas peças. O dinheiro da venda era revertido em comida para os filhos, que muitas vezes ficavam em casa sem ter o que comer à espera da mãe.

 

Certa vez ela resolveu fazer uma boneca para vender junto às outras peças, mas por ser mais “trabalhosa” que uma panela, o valor não poderia ser igual. No início, houve resistência das pessoas em comprar a boneca.

 

Aos 54 anos, Isabel Mendes da Cunha decidiu fazer trabalhos maiores. Aumentou o tamanho de seus fornos. Suas figuras tinham, por vezes, mais de metro de altura. As cores, obtidas por um processo de decantação do barro, davam às bonecas expressivas fisionomias caboclas.

 

Dona Isabel ensinou a sua arte a todos aqueles que vinham até ela a fim de aprender e nunca cobrou nada em troca disso, hoje em Santana do Araçuaí 40 famílias vivem da cerâmica.

 

Seus trabalhos começaram a ficar famosos no final da década de 1970, quando os expôs em Belo Horizonte.

 

 

 

premio-izabelEm 2004, uma das peças, que representava uma mãe amamentando o filho, ganhou o primeiro lugar do prêmio UNESCO de artesanato para a América Latina e Caribe, sagrando-se campeã entre 90 trabalhos de 16 países. Sua técnica de tirar exclusivamente do barro peças modeladas à mão e coloridas sem nenhuma pigmentação artificial obteve o reconhecimento internacional.

 No ano seguinte recebeu a Ordem ao Mérito Cultural do governo federal, em reconhecimento a sua ação em favor da cultura brasileira. Hoje, é reconhecida como uma das mais importantes artistas populares do país e é certamente a mais famosa artesã que trabalha com barro no Vale do Jequitinhonha.  Suas noivas, feitas em grandes formatos, marcaram definitivamente seu estilo, e hoje são reproduzidas em todo o país.

 Quem ainda não conhece as obras desta artista podem visitar a mostra “Afluências” no Museu do Pontal, que exibirá também uma retrospectiva da produção artística do Vale do Jequitinhonha. Integram a mostra obras de Noemisa Batista, Ulisses Pereira Chaves, Glória Maria de Andrade, as irmãs Teixeira, Deuzani Gomes dos Santos, entre outros artistas.  Além das obras pertencentes ao acervo da instituição, estarão na mostra obras de colecionadores como César Achè, Ana Maria Chindler e do Museu de Folclore Edison Carneiro.

 

MUSEU CASA DO PONTAL

O Museu Casa do Pontal, numa área de 12 mil metros, no Recreio dos Bandeirantes, no Rio, é considerado um dos maiores e mais significativos museus de arte popular do país. Seu acervo – resultado de 40 anos de pesquisas e viagens por todo país do designer francês Jacques Van de Beuque – é composto por cerca de 8 mil peças de 200 artistas brasileiros, e recobre a produção feita a partir do século 20. A exposição permanente do Museu reúne, em 1.500 metros de galerias, obras representativas das variadas culturas rurais e urbanas do Brasil. Mostradas tematicamente, abrangem as atividades cotidianas, festivas, imaginárias e religiosas.

 

Exposição “Afluências: a Arte do Vale do Jequitinhonha” vai até 29 de março de 2009. as visitas são de terça a domingo, de 9h30 às 17h

Estrada do Pontal, 3.295, Recreio dos Bandeirantes

Telefone: (21) 2490.3278/ 2490.4013

Ingressos: R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00 (meia), para pessoas com mais de 65 anos, estudantes e crianças até 10 anos. O ingresso à exposição permanente do Museu dá acesso livre à galeria.

 

 

_________________________

Direitos autorais (Lei federal nº 9.610/98) - Quando da utilização de material  deste site, deve ser feita a seguinte referência: "extraído de www.idademaior.com.br"