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O AMOR NO SÉCULO XXI - BEIJO EM QUESTÃO
Walda Menezes

 

Os alunos aproveitam o intervalo entre as aulas para trocar beijos candentes com suas colegas. Sob as escadas, nos corredores, nos pátios da escola. É claro: parece parte dos ritos de passagem que, muitas vezes chegam até à universidade. Ou será apenas um modismo que daqui a pouco vai passar?

 

Por enquanto, demonstra uma certa confusão. É como se os jovens tivessem misturando as coisas. Sim, porque parece que estudar é muito chato. E como ninguém é de ferro, a vida é curta, a juventude é um átimo, as meninas são uma tentação, pra que deixar para depois o que pode ser feito agora?

 

Mesmo porque os "hormone storms" estão em plena vigência, tonteando os centros nervosos. Principalmente os que ficam abaixo da cintura, criando uma urgência na realização dos anseios que não admite demora.

 

Tudo parece compactuar para a visão imediatista que a moçada tem hoje; bem diferente dos arroubos românticos que dominavam os galãs de outros tempos, à simples perspectiva de um beijo pespegado na doce amada.

 

Que tinha tudo a ver com os versos que Edmond Rostand põe na boca de Cyrano Bergerrac apaixonado por Roxane: " le baiser c'est um point rose sur l'i du verbe aimer".(tradução aproximada: o beijo é um ponto rosa sobre o i do verbo amar em francês).

 

E nada a ver com o "approach" da garotada de hoje que, tanto pode levar a um namoro mais ou menos rápido, a uma simples paquera ou à nova regra que já tem nome: o "ficar com" .

 

 

"FICAR COM" UM NOVO CÓDIGO JOVEM

 

Jacqueline Chaves, jovem psicóloga pertencente à geração do " ficar com", como ela se auto define, é autora do livro "Ficar com, um novo código entre jovens", editado pela Revan e vendido com sucesso.

 

Baseado na tese que a autora fez para obtenção do grau de Mestre em Psicologia da PUC, informa logo no início: "Quando se fala do relacionamento amoroso dos jovens, é preciso ter bem claro que eles carregam na sua história pessoal, consciente ou inconscientemente, fragmentos de muitas mudanças pelas quais têm passado a família, o casamento e o namoro."

 

"Ficar com" é, portanto, o nome de um novo código de relacionamento bastante característico entre os jovens, mas que acontece também entre as pessoas mais velhas.

 

Segundo Jacqueline Chaves: "em termos gerais, pode-se dizer que, com esse código, você não está preocupado com o outro, mas sim com o próprio prazer. Não existe a preocupação do depois. Antes do "ficar com"existia a "amizade colorida" que pressupunha uma certa fidelidade, um certo compromisso ".

 

O perigo que está implícito nas conclusões a que chega o acurado estudo de Jacqueline Chaves, é a criação ou a confirmação do que está criado: maior liberdade na formação de uma sociedade em que predomina a falta de limites.

 

"É o vale-tudo" conclui a autora, prevendo que aí entra a idéia de descartável, como que gerando a banalização muito grande do sexo.

 

Prazer pelo prazer, o "ficar com" vai desde a troca de beijos e carícias, até uma relação sexual, o que serve de alerta para pais muito permissivos.

 

E o que deixa cada vez mais distante aquele amor todo poderoso de que fala Dante Alighieri (La Divina Comedia, Canto Quinto), no mais belo poema romântico de todos os tempos: "amor que move o sol e outras estrelas ".

 

 

O AMOR POR AÍ ...

 

Luciana Delgado, 18 anos, balconista: "Não há tecnologia que consiga abafar a importância do amor. Os modismos aparecem e desaparecem. O amor fica. "

 

Emilia Alvarenga, 21 anos, estudante de comunicação: "O amor é a mola do mundo. Embora os jovens queiram aparecer moderninhos, no fundo todos são românticos por origem, por passado, por tradição. A prova é que as novelas são assistidas por jovens, adultos e velhos ".

 

Luiz Leopoldo M.B. 17 anos, universitário sobre o "ficar": "Não posso pensar em namoro sério; por enquanto é amor de brincadeira. É errado? Então porque dizem que o brasileiro está em segundo lugar entre os povos mais amorosos do mundo?".

Angélica, apresentadora de televisão, ao lhe perguntarem se ainda levanta a bandeira da virgindade: "Quando eu tinha 13 anos respondi que sim. Naquela idade foi a resposta lógica. Mas, hoje eu sei que não é necessário casar virgem".

 

Juliana Moraes, 15 anos, aluna de balé: "Beijar é indispensável. Como é que vou saber se existe algo mágico entre o garoto que me atrai e eu?"

 

Eliana Coutinho, professora de jardim de infância que exerce seu trabalho com ética e devoção: "De repente deram-nos toda essa liberdade. Mas, não nos ensinaram o que fazer com ela."

 

Mario Sérgio Cortela, professor de pós-graduação em educação na PUC/SP: "Vivemos a ditadura da velocidade que impede momentos de reflexão. Isso leva à sofreguidão do jovem".

 

A jornalista Walda Menezes foi editora do suplemento dominical do O Jornal, colunista dos Diários Associados; coordenadora de Moda das revistas Cigarra e O Cruzeiro; Chefe de redação da revista Desfile. Trabalhou em televisão e hoje em dia, colabora para revistas, jornais e nosso site.

 


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