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UM BRILHO INTENSO

JUSSARA CÂMARA

 

bolo-Neyde

 

                      FOTO: JOSÉ CARLOS PEREIRA DE CARVALHO/VC NO G1)

 

O Cinema e Theatro Íris fundado em 1909, comemorou 100 anos. Naquela época, ele se chamava Soberano, mesmo nome do cavalo de seu proprietário, João Cruz Júnior.

 

Sua primeira grande reforma foi feita em 1921, quando a casa reabriu com o nome atual e suas frisas, camarotes e cadeiras com capacidade para 1.200 pessoas. Ruy Barbosa tinha cadeira cativa, com suas iniciais marcadas na madeira. Assim como outros intelectuais e personalidades da época.

 

Tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) em 1983, o Cine Íris passou antes por outra reforma, que recuperou toda a estrutura art nouveau do prédio, incluindo os azulejos portugueses e espelhos de cristal.

Apesar de conservar a mesma pompa do passado, atualmente o cinema exibe filmes pornográficos, que são interrompidos três vezes por dia, às 12h30, 15h30, e 18h30, para os shows de strip-tease. Pelo preço de nove reais, a pessoa compra o ingresso a qualquer hora, a partir das 10 horas, entra e sai quando quiser.

 

Esta foi a alternativa encontrada pela família, para o cinema Iris continuar aberto. Os herdeiros vivem da renda obtida com a bilheteria e do aluguel do sobrado de três andares para festas. Entre eles, Neyde Brilho Cruz, a neta do fundador, que recebeu a primeira fatia de bolo - de dez metros de comprimento e decorado -  na festa do centenário do cinema, das mãos da atriz Marília Pêra, eleita pelos associados da Sarca (Sociedade Amigos da Rua da Carioca e Adjacências) a "maior estrela do Brasil" durante a festa (foto acima)

 

Esta libriana, que acabou de completar 78 anos, irradia um brilho intenso e possui grande determinação. Quando solteira trabalhou  no Citibank na área de cãmbio e como muitas mulheres da sua época, casou cedo, aos 18 anos, e largou o emprego para se dedicar ao lar e aos filhos.

 

 

 

 

O casamento não deu certo e ela se desquitou e voltou a usar o nome de solteira e procurou de novo por emprego. Desta vez, foi trabalhar como contato de publicidade em várias revistas começando pela Jóia, depois Manequim, revista Claudia da Editora Abril e posteriormente, na Reader's Digest, que edita a Seleções.

 

Em plena década de 50, a mulher desquitada era mal vista. E como a maioria de seus colegas de trabalho eram homens, não se preocupou muito com isso. Ao contrário, enfrentou todos seus problemas.

 

Neyde se lamenta apenas de ter se casado tão cedo e ter parado de estudar. “Podia ter tido experiências maiores, mas fui tolhida”, arremata. No entanto, viveu intensamente sua época, lutou por seu espaço próprio e venceu.

 

 Eu vivi muito bem o meu tempo. Se eu tiver que dançar sozinha ou acompanhada, tanto faz, comenta. Meu tempo é hoje. O que vivi ontem, vivi, conclui Neyde. E onde ficam as lembranças? Pergunto. Eu passo adiante, responde.

 

É óbvio que como muitas pessoas, ela passou por fases difíceis, mas foi adiante sem pestanejar. “Meu sofrimento sempre foi só meu”, conta. “Estou sempre pronta para ajudar a quem acho que vale a pena. Não sou mulher manipulada e nem sirvo de muleta para outros.  Quando eu acredito, realizo. Não duvido e nem questiono da minha fé “, conclui.

 

Esta linda mulher tem um lado romântico, sonhador, ligado às artes e à harmonia. Quando jovem, pensou em ser professora, hoje sabe que não teria sido uma boa escolha, não teria paciência. Entretanto, gosta de tirar fotografias em preto e branco e acha que teria sido uma boa repórter fotográfica. “Adoraria conhecer gente e clicar a essência de cada um”, comenta.

 

- Eu sou muito irreverente. Eu acho que envelhecer é estar conectada com o novo. Na verdade, a gente continua querendo as mesmas coisas, de uma forma mais amadurecida, explica com sábias palavras. 

 

E é pura verdade. A inquietação de Neyde por conhecer pessoas e lugares é flagrante, nasceu com ela. Sua energia faz parte do brilho dos seus olhos e da sua forma de falar ontem, hoje e sempre. Neyde é intensa!

 

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