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TENHO SERENIDADE
Jussara Câmara

raymonde11Mesmo sabendo que no Brasil, o número de pessoas com 100 anos ou mais chega a 11.422, segundo dados de dezembro de 2007, do IBGE ( Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística); não é todo dia que se entrevista uma centenária, principalmente como Mademoiselle Raymonde de Vasconcellos.
 
Marquei às 16 horas e chequei dez minutos antes. Maria dos Anjos, a  empregada pediu para eu aguardar na sala. De lá, ouvi que ficou aflita em ainda não estar pronta. No horário certo esta simpática senhora, nascida em Paris a 30 de junho de 1904, surgiu impecável em seu “tailleur” lilás, blusa florida, broche de ouro, colar de pérolas e sapatos novos, que a estavam incomodando, me disse Rita, sua acompanhante há 13 anos. Ela também me chamou atenção para seus lindos cabelos brancos, que nunca foram pintados e estavam cuidadosamente penteados.
 
Seu pai era paraibano e diplomata. Casou-se com uma francesa, e teve três filhos, apenas Raymonde está viva. Ela viveu em Paris a Primeira Guerra e se lembra do barulho dos bombardeios e que todos da família se recolhiam ao subsolo do prédio, onde moravam, até que tudo se acalmasse. 
 
A primeira vez que veio ao Brasil, tinha uns 16 anos e achou as moças daqui muito “adiantadas”. “Lá em Paris eu não saía, não havia arrasta-pé”, disse.
 
Mais tarde, voltou à Europa, desta vez para morar em Roma, onde seu pai foi enviado. Aos 24 anos retornou ao Brasil, onde se instalou definitivamente. Desta vez, não estranhou tanto, ao contrário, gostou do “jeito” dos brasileiros e fez muitas amizades.
 
Começou a trabalhar como professora de francês da Escola Americana, onde se aposentou. Quando fez 100 anos, seus inúmeros ex- alunos a homenagearam com uma grande festa. 
 
Nunca perdeu o sotaque, como disse é seu “tempero”.  Raymonde é uma senhora bonita, muito educada, que não se casou porque não quis. Tem muitos amigos e até hoje, gosta de recebê-los em casa.
 
É presidente da Velha Guarda de professores da Escola Americana e se encontra com suas ex- colegas quinzenalmente, em restaurantes ou em casa. Dá aulas de francês para 12 alunas e no dia 13 de novembro será homenageada no Museu Histórico Nacional.
 
Publicou dois livros, um em francês lançado em 1972 em Paris e outro em português, aos 97 anos: Polifonia: Contos realistas e Surrealistas.  “Quando me aposentei, passei a escrever, gostava muito”. No entanto, há quatro anos, uma mácula na retina, a impede de continuar com este hobby. 
 
Porém, continua fazendo as outras coisas que gosta, entre elas, comer de tudo. “Ela gosta de manteiga, só come carne vermelha sangrando e duas barras de chocolate por semana”, interfere Rita.  Mademoiselle acrescenta, meio marota: “ à noite, como o que tiver ao alcance da mão: chocolate ou biscoito”.
          
Contrariando todas as regras para uma vida mais saudável, Raymonde não gosta de ginástica. Até os 50 anos, gostava de escalar e foi membro do CEB - Centro de Excursionista Brasileiro. Hoje em dia, às vezes, por insistência da  enfermeira Rita, faz alguns exercícios de alongamento. Fora isso, ela mesma diz: “ ando quando preciso andar. Não é pra me cuidar, isso não me interessa”. Revela apenas que gosta de ir à Lagoa, porque adora a paisagem, que a revigora.
 
Gosta também de viajar. Conheceu a Europa toda, a China, os Estados Unidos, nosso país e alguns da América do Sul.  Hoje, quando viaja é acompanhada de Rita, mas antes gostava de ir sozinha, porque podia fazer o que queria, revelou.
 
Pergunto: A senhora sente o passar dos anos? Não, responde. “A gente só sente, quando tem alguma dificuldade, caso contrário, não dá tempo”.
 
E qual o segredo para se viver tanto tempo e bem? “Se interessar por alguma coisa, não ficar fora da vida, participar”, Mademoiselle explica. E a senhora é feliz? “Posso dizer que sim, tenho serenidade”, conclui.


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