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A HISTÓRIA DE DOM HELDER CAMARA


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Nunca um brasileiro chegou tão próximo de ganhar um Nobel como dom Helder Camara. Por quatro anos esteve na lista dos favoritos. Mas várias manobras elaboradas pelo regime militar impediram que o prêmio fosse dado ao “Profeta da Paz”.

 Em clima de Natal, chega às livrarias a biografia Dom Helder Camara – o profeta da paz, escrita pelos historiadores Nelson Piletti e Walter Praxedes e relançada pela Editora Contexto às portas do centenário daquele que era o “Irmão dos Pobres”, nascido em fevereiro de 1909.

 Uma das novidades dessa edição está no último capítulo, “A grande viagem”, que descreve a repercussão da sua morte. A obra é muito mais que um retrato de um líder religioso, que moveu multidões, fundou a CNBB e ajudou o Brasil na luta contra a desigualdade social. É a história do Brasil narrada através de um personagem carismático e polêmico, que dividiu opiniões na Igreja e na sociedade, foi amigo de quatro papas, diversos presidentes da República e líderes mundiais, tendo enfrentado a ditadura militar, além de ter quase sido o primeiro brasileiro a receber o Nobel da Paz.

 O livro está dividido em três períodos: “Anos Verdes”, “Anos Dourados” e “Anos Vermelhos”. Esse último foi o mais intenso politicamente e o projetou no cenário  mundial por sua luta a favor dos direitos humanos. Entre 1970 e 1973, o seu nome estava sempre na lista dos indicados para receber o Prêmio Nobel. Mas uma forte campanha articulada pelo regime militar movimentou céus e terras para impedir tal conquista.

 O Prêmio Nobel da Paz esteve tão perto do Brasil, mas não chegou às mãos daquele menino que nascera em Fortaleza no começo do século XX, que ainda criança brincava de ser padre e ajudar o próximo. Criado entre seis irmãos, por uma mãe professora e um pai com amigos influentes na política cearense e ligados ao integralismo. O jovem Helder seguiria o ideal integralista por boa parte da sua vida, mesmo após entrar para o seminário, em 1923. E aos 22 anos e meio se tornaria padre.

 ANOS DOURADOS

1936–1964 – Os “Anos Dourados” apresentam a trajetória desse padre que, em 1936, desembarca no Rio de Janeiro para dar continuidade aos seus ideais religiosos e assumir um cargo público no Ministério da Educação Iniciava ali uma carreira que seria marcada pela inteligência e pela enorme vontade de ajudar os mais carentes. Mas as manobras e os conchavos políticos acabam desanimando o padre, que prefere se dedicar aos estudos, à atividade profissional dentro da Igreja e a seu apostolado. Logo se afastaria também do movimento integralista.

 A experiência política e as habilidades com a oratória e a escrita lhe deram várias oportunidades. À frente da Ação Católica, organizou vários seminários e eventos para reerguer a Igreja, que havia perdido espaço para outras religiões. Já sagrado bispo, se torna um dos grandes idealizadores e fundadores da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros), criada em outubro de 1952. Três anos mais tarde foi escolhido para presidir a comissão organizadora do XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, que reuniria no Rio de Janeiro a cúpula católica do mundo inteiro.

 Tocado pelo conselho de um amigo, idealizou a Cruzada São Sebastião, que consistia acabar com as favelas do Rio de Janeiro em um prazo de dez anos. Na esteira da empreitada, cria o Banco da Providência. Mais uma vez dom Helder estava entre os pobres, a política e a religião. Suas idéias e convicções o estavam afastando cada vez mais da cúpula católica instalada no Rio de Janeiro, que providenciaram uma transferência de dom Helder para o Maranhão.

 Em Roma, recebeu a notícia do falecimento do arcebispo de Olinda e Recife e lá mesmo, no dia 12 de março de 1964, soube que não iria mais para a capital maranhense, e sim para Pernambuco. No dia seguinte foi recebido pelo Papa Paulo VI como amigo querido. Nessa época o Brasil estava mergulhado numa crise política, com João Goulart prestes a ser deposto. Poucos dias antes do golpe militar, dom Helder almoça com Jango para alertá-lo do perigo que corria.

 ANOS VERMELHOS

1964–1999 – Tanto a saída do Rio de Janeiro quanto a chegada ao Recife foram emocionantes. Mas o clima no país não estava nada bom. As idéias de dom Helder eram interpretadas como as de um marxista: "Quando dou de comer aos pobres, chamam-me santo, quando respondo porque é que os pobres têm fome - chamam-me comunista". Nos “Anos Vermelhos” o leitor verá que os jornais evitavam publicar suas declarações. Dentro da Igreja cresciam as críticas à sua posição política e à sua ajuda aos perseguidos pelos militares. 

 A maioria dos homens influentes do clero defendia a “revolução”. Para eles era uma maneira de combater o comunismo. Ao mesmo tempo em que dom Helder fazia inimigos no governo e na sociedade conservadora, fazia novos amigos na luta contra a tortura e a favor dos direitos humanos. Nomes como Carlos Lacerda, que um dia foi seu amigo, depois seu inimigo declarado, agora voltava a ficar ao seu lado. 

 Militares e religiosos tinham dom Helder como um problema grave e conseguiam muitas vitórias na forte campanha para manchar sua imagem, mas só dentro do Brasil e em algumas camadas do Vaticano. Seu nome continuava forte pelo mundo e não foram poucos os prêmios internacionais. Por onde passava e palestrava recebia alguma menção sobre seu engajamento a favor dos pobres, sempre através da paz para alcançar a justiça social.

  

A GRANDE VIAGEM

Os anos de chumbo estavam se amenizando e a abertura política era uma realidade no início dos anos 1980. Tinha-se João Paulo II como papa e o nome de dom Helder não representava mais um sinônimo de subversão. Mesmo após a aposentadoria, dom Helder não parava de ser homenageado. Aos 80 anos, o “Padre Vermelho” não era mais uma ameaça, mas um batalhador, um brasileiro que não desistiu dos necessitados. Estava chegando ao fim a trajetória do Profeta da Paz.

 Essa última parte o livro ganhou um capítulo inédito que fala da repercussão da sua morte, em 22 de agosto de 1999. Inúmeras manifestações, comoção nacional e depoimentos de várias personalidades artísticas e políticas apareciam nos jornais, rádios e tvs. Nomes como o do então presidente da República Fernando Henrique Cardoso, Frei Betto e Chico Buarque expressavam sua admiração e fatos que compartilharam com o “Irmão dos Pobres”.

 Em 90 anos de história, dom Helder publicou quase 20 livros e foi tema em mais de 52 obras no Brasil e no mundo. Foi agraciado com 32 títulos de Doutor Honoris Causa, nos quatro cantos da Terra. Somando os prêmios e distinções foram 33, dados por comitês internacionais e organizações como a ONU. Esteve próximo de conquistar o Prêmio Nobel da Paz por quatro vezes. Entre os oitos papas que comandaram a Igreja Católica durante a sua vida, conquistou a simpatia de todos com quem conviveu. O último deles, João Paulo II, um dia disse: “Pai, muito obrigado por haver na Igreja filhos seus como madre Teresa e dom Helder”.

 Dom Helder Camara – o profeta da paz de Nelson Piletti e Walter Praxedes tem  400 páginas e custa R$ 49,90

 

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