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PASSADO EM IMAGENS NO PRESENTE

 

O projeto Arqueologia da Memória, da Fundação Cultural de Curitiba, reconstitui a história do Centro a partir de fotografias cedidas por seus habitantes.

 

Quando nasceu, Maria Luísa Jurischka morava na Rua Desembargador Motta, perto da Avenida Manoel Ribas. Ainda na infância, mudou-se para o Boqueirão e hoje é moradora da Barreirinha. Mesmo assim, é parte importante na história do centro de Curitiba. Seu pai, Leopoldo Grummt, tinha o hábito de fotografar tudo – era dono de álbuns caprichosamente organizados, com direito a cantoneiras e legendas nas fotos. Após a morte de Grummt, as fotos acabaram engavetadas, como muitas das lembranças presentes nos retratos que ele costumava tirar.

 

Ao saber, pela televisão, do projeto Arqueologia da Memória: na Trilha do Paço, Maria Luísa enxergou uma oportunidade dupla: homenagear o pai ao tornar público seu ponto de vista sobre a história do centro da cidade em que ela nasceu, cresceu e onde vive há mais de 60 anos.

 

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Na Praça Carlos Gomes: foto tirada em 1953 e cedida ao projeto pelo filho do fotógrafo.

Com o objetivo de promover a preservação e a revitalização do Centro, tendo como foco principal o Paço Municipal e seu entorno, o projeto Arqueologia da Memória: na Trilha do Paço – promovido pela Fundação Cultural de Curitiba (FCC), com o apoio da Unesco, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do Ministério da Cultura (MinC) – convocou a população curitibana a buscar, em seus arquivos pessoais e álbuns de família, fotos antigas e recentes da região central, como forma coletiva de construir a memória da cidade. “A idéia de envolver a população foi a espinha dorsal do projeto, para que se constituísse a história viva da cidade e não a história chapa-branca, sempre contada a partir do ponto de vista do ‘vencedor’”, explica a pesquisadora Lilian Amaral, curadora do projeto.

 

Ao todo, uma equipe de pesquisadores da Casa da Memória coletou mais de 600 fotografias do centro de Curitiba, além de ter registrado em vídeo dezenas de depoimentos de alguns dos moradores que cederam os retratos. “Pedimos que nos contassem quais eram as memórias contidas naquelas imagens. Muitos se emocionaram”, conta a pesquisadora Aparecida Vaz da Silva Bahls, da Casa da Memória.

 

Das centenas imagens, 12 foram selecionadas para compor a exposição que reúne fotografias e pequenos textos explicativos sobre as imagens, dispostos em 200 mobiliários urbanos, espalhados por diversos bairros de Curitiba, desde o dia 21 de novembro. “A cidade é vista como um grande museu, onde estão presentes os patrimônios material e imaterial. Tudo faz parte desse grande museu mutante”, explica a curadora.

 

Tanto que, para a seleção das fotos, os critérios utilizados não foram a beleza das paisagens retratadas ou a qualidade técnica das imagens, mas sim o registro de rituais e laços afetivos das pessoas com a cidade. “A idéia era mostrar como as pessoas constroem suas vidas a partir do espaço onde vivem. Queríamos descobrir o que de importante os prédios e praças do Centro têm no imaginário da população e envolvê-las a partir do uso de dispositivos contemporâneos, criando uma espécie de cartografia iconográfica”, conta Amaral.

 

Assim, o retrato de Maria Luísa e de seus primos na casa das máquinas do Edifício Lustosa tornou-se uma peça fundamental no “mapa simbólico” do centro de Curitiba, proposto pelo projeto. “É apenas uma entre muitas imagens que meu pai fez de uma Curitiba quase térrea, com poucos aranha-céus”, conta Maria Luísa, que emprestou 66 fotos à Casa da Memória.

 

O material cedido pelo comerciante Jorge Derviche Filho, 54 anos, não chegou a ser escolhido para a exposição de mobiliários, mas integra outros produtos gerados pelo projeto (leia mais no quadro acima), entre eles um jornal e um DVD. Derviche, que morou em frente ao Paço Municipal durante a infância e hoje trabalha no local, decidiu participar do projeto como forma de chamar a atenção do poder público para a manutenção da cultura por meio da preservação dos espaços mais antigos da cidade. “Uma cidade que não tem memória, não existe. Precisamos valorizar nossa cultura, antes que acabem com ela, como fizeram com o petit-pavê, substituído por um asfalto horrível”, critica o comerciante.

 

Fonte: Gazeta do Povo / Juliana Girardi

 

 

NOTICIÁRIO GERAL DA PHOTOGRAPHIA PAULISTANA

1839 – 1900

 

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O livro de Paulo Cezar Alves Goulart e Ricardo Mendes, “Noticiário Geral da Photographia Paulistana – 1839-1900” é uma co-edição do Centro Cultural São Paulo e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Ele ganhou o primeiro lugar na categoria Arquitetura, Urbanismo, Fotografia, Comunicações e Artes do 50º Jabuti, e o 3º Prêmio Literário José Celestino Bourroul.  

 

Pesquisador na área de Artes Gráficas, Paulo Cezar Alves Goulart começou no final dos anos 80 a fazer um minucioso levantamento para mostrar o desenvolvimento das artes gráficas e a fotografia do século XIX sob um ângulo curioso: o dos fotógrafos e comerciantes de fotos que anunciavam seus negócios em jornais e revistas paulistanos. Usou como matéria-prima arquivos de jornais, revistas e almanaques paulistanos. Nos anos 90, Ricardo Mendes, pesquisador em história da fotografia, incorporou-se ao projeto, que procurou mostrar como os profissionais daquela época pensavam a fotografia, elaboravam esses objetos e introduziam novos usos e novas estratégias de marketing para alavancar seus negócios.

 

Curiosamente, o texto Noticiário Geral da Photografia Paulistana – 1893-1900 começa na página 50 do livro. Nas 49 páginas iniciais, o leitor é introduzido ao universo abordado por meio de fotografias da época, que mostram a evolução técnica e a mudança de costumes. Segue-se à imagem inicial do fazendeiro acompanhado de seus escravos uma série de tipos humanos. São comerciantes, políticos, damas da sociedade, homens e mulheres do povo, turmas de estudantes, grupos de profissionais.

 

O livro é fartamente ilustrado por fotografias que pertencem ao Museu Paulista – USP -o Museu do Ipiranga - um dos mais importantes acervos de fotografia sobre São Paulo no século XIX, além de imagens encontradas nos arquivos públicos. Através delas, podemos ter uma outra visão da cidade de São Paulo. Seu crescimento pela febre dos retratos que não deixa de ser a busca da vaidade e da importância social.

 

Os autores conseguem extrair das fontes consultadas dados sobre a difusão da imagem técnica na sociedade paulistana ao analisarem os usos políticos, científicos e pragmáticos da fotografia. É na década de 1890 que a polícia de São Paulo começa a utilizar o registro fotográfico, usado não só como fonte documental, mas como meio de prevenção direta com exposição de fotos de indivíduos perigosos em estações ferroviárias e redações de jornais.

 

Este livro nos permite conhecer o desenvolvimento de nossa sociedade e a confirmar  a importância da fotografia na modernidade que nasce no final do século XIX início do século.

Foto de Albert Henschel que ilustra a capa do livro “Noticiário Geral da Photographia Paulistana: 1839-1900”.

 

 ATELIÊS DE FOTOGRAFIA

O editor da primeira revista fotográfica La Lumière , Ernest Lacan,  estabelecia precisa relação entre fotógrafos atuantes em Paris, nos anos 50 do século 19, a localização de seus ateliês no mapa da cidade e os preços cobrados por cada um deles. Existia uma diferença substancial entre o fotógrafo básico (trabalhador ou artesão), o artista-fotógrafo (proveniente da burguesia), o fotógrafo amador (aristocrático) e o fotógrafo-sábio, que reclamava para si o status de artista, segundo  Annateresa Fabris,  que assina texto de apresentação do livro.

 

Noticiário Geral da Photographia Paulistana: 1839-1900 permite aplicar parcialmente as observações de Lacan ao caso específico de São Paulo. Dos anos 50 aos anos 80, os profissionais buscam como endereço para seus ateliês as ruas Direita, São Bento ou Rosário; em 1890, verifica-se presença de um núcleo significativo no Brás – bairro que atrai imigrantes e industriais e tem seu crescimento devido à rede ferroviária Central do Brasil e Santos Jundiaí. Alguns estabelecimentos situam-se em Santa Efigênia, bairro de classe média.

 

Noticiário Geral da Photographia Paulistana: 1839-1900 Imprensa Oficial do Estado de São Paulo / Centro Cultural São Paulo de Ricardo Mendes e Paulo Cezar Alves Goulart, Projeto gráfico: Debora Ivanov tem 340 páginas, R$ 75,00

 

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