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CENTENÁRIOS CHEIOS DE VIDA
Cinthya Leite

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GARANHUNS – Um dos maiores intelectuais e homens públicos do Brasil, Barbosa Lima Sobrinho assistiu à passagem de três séculos. Recifense, nasceu em 1897, quando se travava a Guerra de Canudos, no Sertão da Bahia. Acompanhou a história do Brasil através de 23 presidentes da República, foi governador de Pernambuco entre 1948 e 1951, redigiu artigos semanais até a data de sua morte, em julho de 2000, no Jornal do Brasil. Foi, desde os anos 30, membro da Academia Brasileira de Letras. Faleceu aos 103 anos e ficou conhecido como integrante do grupo de centenários com boa saúde e mente ativa.


Completar um século de vida torna-se, cada vez mais, uma realidade mundial – inclusive no Brasil.

De acordo com o levantamento, que cobriu municípios com até 170 mil habitantes (nos grandes centros, projetou-se uma estimativa), a cidade de Garanhuns, a cerca de 230 km do Recife e com aproximadamente 125 mil habitantes, está entre as 20 cidades pesquisadas que mais possuem idosos centenários. São 31 pessoas nessa faixa etária, sendo 21 mulheres e 10 homens. Pela projeção, Pernambuco tem 718 idosos acima de 100 anos de idade. E no Recife, segundo o Censo 2000, são 255 idosos com 100 anos ou mais. O IBGE apresentará novos dados em 2010, quando será conhecida uma população de centenários muito maior.

Embora não exista uma fórmula para a longevidade, a maioria dos idosos que chega aos 100 anos com qualidade de vida admite que tem adotado uma vida muito regrada. A dona de casa Maria Antunes de Oliveira, 103 anos, é uma das que retratam o universo centenário da agrestina Garanhuns. “Nunca quis saber de cerveja, cachaça e refrigerante. Bebo muito suco, gosto de frutas, verduras e feijão. E tenho que comer uma papinha quando acordo. Mas já fumei”, diz Maria Antunes.

Se não fossem os cigarros, os derrames poderiam ter passado em branco na vida dela. Enfrentou quatro acidentes vasculares cerebrais (AVCs), que a deixaram com os movimentos dos membros inferiores e superiores comprometidos, além da visão prejudicada. Hoje, convive com a hipertensão (pressão alta), que está sob controle, graças aos remédios e atendimento fornecidos pelo Programa de Saúde da Família (PSF) de Garanhuns.

Apesar dos derrames, Maria Antunes é muita lúcida. Sabe o nome dos filhos, netos e bisnetos. Não esquece que nasceu em dia de réveillon e conversa direitinho sobre sua vida passada, política e religiosidade. “Não durmo sem rezar. Isso me faz muito bem e, por isso, ensino orações a toda a família.” Ela ainda tem um perfil que se assemelha bastante aos centenários estudados pelo célebre New England Centenarian Study, o maior estudo em andamento do mundo com homens e mulheres que ultrapassaram a marca de um século de vida.

“Segundo a pesquisa, que acompanha atualmente 1,5 mil centenários, 95% dos idosos chegam aos 100 anos saudáveis, sem graves doenças mentais”, diz o médico geriatra Alexandre de Mattos, presidente da regional Pernambuco da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG/PE).

Assim como Maria Antunes, a agricultora aposentada Marta Olívia dos Anjos, 102, alcançou a longevidade sem muitas doenças. Viveu quase toda a vida no Sítio Mimosinho (zona rural de Garanhuns), onde tinha o ofício de produzir farinha. “Marta era minha vizinha em Mimosinho. Decidi trazê-la para morar comigo desde que o marido dela faleceu, há uns 20 anos. Ela conversa e adora tomar sol. Mas, desde que viemos morar na zona urbana, há uns seis meses, está mais calada”, conta a agricultora aposentada Alda Rodrigues de Barros, 63.

Diariamente, às 7h, Marta toma sol na varada de casa e continua a seguir uma alimentação sem excessos, como fazia na roça, onde tinha um dia-a-dia energético. “Ela gosta de sopa, feijão e vitamina de maçã”, diz Alda. “Freqüentemente, a levo a uma unidade de saúde para checar a pressão alta, único problema que tem.”

Sobre os idosos centenários, a medicina é clara: não há ainda um modelo clássico, um perfil exato de quem atinge 100 anos ou mais. “Em linhas gerais, além de ter uma bagagem genética privilegiada, o indivíduo centenário segue boa alimentação, além de usar moderadamente o álcool e o fumo”, diz o médico geriatra Daniel Kitner, coordenador do ambulatório de geriatria do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC/UFPE).

O especialista frisa que, quando se fala de um cardápio equilibrado, vem à tona a ingestão de frutas, verduras e pouca exposição a alimentos industrializados. “A atividade física também costuma ter sido parte da rotina dessas pessoas”, acrescenta Daniel Kitner.

A agricultora aposentada Maria Rosa da Silva, 101, que mora na comunidade de Manoel Chéu, em Garanhuns, reconhece que tem a genética a seu favor. “Estou vivendo muito, como meu pai, que só morreu depois dos 90 anos. Tenho até tataraneto”, conta. “Passei por tanta coisa na vida. Já chorei, sofri e tive alegrias”, continua Maria Rosa, que se mostra independente. Em casa, ela mesmo cozinha. E nunca se esquece de ir quinzenalmente a um posto de saúde conferir a pressão arterial, que está 12 por 8, considerada normal. O fato de Maria Rosa passar longe do sedentarismo também pode ter favorecido a longevidade. A enxada foi seu ganha-pão durante 25 anos.

“A vida longeva depende 75% de hábitos saudáveis e 25% da genética. Isso vale até os 85 anos. Depois disso, o fator genético é o que mais pesa”, ressalta o geriatra Alexandre de Mattos. Significa dizer que, caso cuidem bem da saúde, indivíduos que têm sorte com os genes possuem muitas chances de chegar à “casa dos 80”. Ao atingir essa faixa etária com boas condições físicas e mentais, essas pessoas têm tendência elevada de atingir os 100 anos ou mais.

O fato de trabalhar numa roça, em Garanhuns, por muito tempo, também pode ter pesado para José Dionízio Cândido Oliveira, 103, alcançar a vida longa. “Até pouco mais de um ano, antes da morte da esposa, ele estava bem mais ativo e não apresentava a demência que tem hoje. Mas, devido ao falecimento da esposa, Dionízio se abalou muito e ficou com a saúde debilitada. Passou até a tomar remédio para pressão alta”, conta a técnica em enfermagem do PSF Jardim Petrópolis Patrícia Costa.

A medicina explica que o estado físico-mental de um centenário pode ser prejudicado caso apareçam traumas, infecções, doenças graves e fraturas. “Quando se manifesta algum contratempo, a funcionalidade do idoso cai. A curva de envelhecimento se acelera”, explica a geriatra Carla Núbia Borges, presidente da interiorização de geriatria e gerontologia da SBGG/PE.

CONVÍVIO SOCIAL É INDISPENSÁVEL NA LONGEVIDADE

convivio-socialEncontrar o porquê da longevidade não é simples, mas vários estudos alertam que, além dos hábitos de vida saudáveis e da predisposição hereditária, o convívio social tem papel essencial. “A sociabilidade tem ajudado a promover a vida longa nas regiões do mundo onde mais se tem centenários, que são Okinawa, no Japão, a Ilha da Sardenha, na Itália, Loma Linda, na Califórnia, e a Península de Nicoya, na Costa Rica”, diz o médico geriatra Alexandre de Mattos, tomando como base pesquisa da National Geographic Society e da Universidade de Minnesota (ambas dos Estados Unidos).

 Nesses quatro lugares, é grande o percentual de habitantes com 100 anos ou mais. Em Okinawa, por exemplo, estima-se que exista 1 milhão de pessoas – 900 são centenárias, taxa que representa quatro vezes mais a média da Grã-Bretanha. Na província, a expectativa de vida é de 81,5 anos – 9,2 a mais do que no Brasil. As quatro regiões estudadas ainda apresentam menor incidência de doenças cardiovasculares e de alguns tipos de cânceres, quando comparadas à média mundial.

A família do agricultor aposentado Austriclínio Mendonça, 104, talvez nem saiba do achado desse estudo sobre convívio social, mas faz questão de oferecer muita atenção ao patriarca. Embora Austriclínio não converse tanto como há uns anos, os filhos, netos e bisnetos são bastante presentes. “Sempre tem alguém com ele, dando carinho e mostrando que ele é amado”, diz a neta Maria de Fátima Ribeiro, 50, funcionária de uma ONG. “Poderíamos ter colocado papai num asilo, já que seria uma situação cômoda para a gente, mas isso nem fez parte dos nossos planos”, acrescenta a filha, a aposentada Maria das Dores Ribeiro, 79.

Austriclínio nasceu e morou muito tempo em Natuba (município paraibano, na divisa com Pernambuco), onde tinha um sítio e uma mercearia. Hoje, reside com três dos filhos dele, na Encruzilhada, no Recife. “Por toda a vida, ele teve um cardápio equilibrado, à base de alimentos sem agrotóxicos. Também nunca soube o que é estresse”, conta Maria das Dores. Esses hábitos uniram-se à genética de Austriclínio, cujos parentes geralmente passam dos 90 anos. “Hoje, convive com infecção urinária e tem um estágio pré-diabete. Tudo sob controle. E não é acamado, papai conversa sobre o passado com lucidez, reza o pai-nosso e a ave-maria.,”
O médico geriatra Daniel Kitner confirma a importância do convívio social. “O papel da família é sempre fundamental, no sentido de fazer com os centenários sintam-se acolhidos e protegidos”, diz.

SAÚDE EM DIA LONGE DE EXAGEROS
Para frear e controlar as doenças crônicas mais comuns que tendem a vir com o envelhecimento, como hipertensão e diabete, estudos mostram a importância de se adotar uma dieta à base de frutas e hortaliças, cereais, leguminosas, peixes e leite. Nesse contexto, merece destaque um estudo de pesquisadores da Universidade de Maryland (EUA) e publicado, em 2006, na revista American Journal of Clinical Nutrition. Entre os 535 idosos participantes da pesquisa, com 60 a 98 anos, aqueles que consumiram regularmente grãos integrais foram menos propensos a desenvolver placas obstrutivas que podem levar a infarto ou derrame. Eles também passaram a se enquadrar no grupo sem tendência a ter problemas de colesterol e diabete.

A costureira aposentada Nila de Almeida, 100, sabe como é essencial selecionar os alimentos que deve colocar no prato. “Nunca fui de comer muito doce nem pão. Mas adoro inhame, batata e leite. Faço as refeições bem direitinho”, conta. Ela só reclama do fato de sua comida não levar sal. “Por causa da pressão alta, sou obrigada a aceitar desse jeito mesmo”, continua Nila, que sempre teve uma vida saudável, sem fumar nem beber.
Nascida na cidade agrestina de Surubim, a 125 km do Recife, Nila veio morar na capital há cerca de 40 anos, quando a madrinha dela faleceu.

Hoje, reside com a sobrinha, a empresária Geralda Farias, no bairro de Casa Forte. Já passou por um acidente vascular cerebral (AVC), que não a deixou com graves seqüelas. Com orgulho, adora falar do aniversário de 100 anos, em 11 de junho passado.

“Nunca imaginei ter uma festa tão linda”, diz Nila, que acorda cedo para escutar as notícias pelo seu rádio. “Depois, tomo banho sozinha. Só chamo alguém se sentir dificuldade”, diz ela, que gosta de levar sol, passear com os sobrinhos, ir ao salão para cuidar do cabelo e das unhas. Conservar-se ativo dentro das limitações, integrado com a família e a sociedade, além de frear o estresse, como faz Nila, é um grande passo para a longevidade.
Para os especialistas, afastar o sobrepeso à medida que se envelhece também é uma maneira de dar ao organismo uma melhor chance de evitar problemas, como as doenças cardiovasculares. “Evitar a gordura corporal é tão importante que a diminuição em 30% da ingestão diária das calorias é uma ferramenta que ajuda a promover a longevidade”, diz o médico Fernando Almeida, especialista em endocrinologia do envelhecimento. “Mas não é reduzir qualquer comida. Itens saudáveis, como cereais e azeite extravirgem, não devem ser eliminados. É preciso descartar calorias vazias, que vêm de alimentos sem nutrientes essenciais à saúde”, acrescenta.

A partir de 1987, três projetos de restrição calórica em macacos, conduzidos pelo Instituto Nacional de Envelhecimento da Universidade de Wisconsin (EUA), mostraram que os animais submetidos à limitação de calorias apresentaram pressão arterial inferior e nível de açúcar no sangue mais baixo do que os macacos que se alimentaram à vontade. “São estudos com animais de laboratório, que não podem ser comparados com segurança para grupos humanos”, completa o geriatra Daniel Kitner.

Evidências indiretas, contudo, existem: em Okinawa, a população consome uma dieta aproximadamente 17% mais pobre em calorias que no resto do Japão. Na ilha, a mortalidade por doenças cardiovasculares, derrame cerebral e certos tipos de neoplasia é de 31% a 41% mais baixa do que no resto do País. E mais: em Okinawa, o número de centenários é 40 vezes maior do que em qualquer outro lugar do Japão.

A enfermeira aposentada Maria Poranci Salles, 101, é mais um exemplo de que hábitos saudáveis ajudam a alcançar a longevidade. “Titia sempre cuidou da saúde, nunca fez uso de bebida alcoólica nem fumou. Hoje, não tem problemas graves de saúde, embora esteja mais apática. E tem todas as taxas sangüíneas sob controle”, conta o antiquário Rogério Salles, sobrinho-neto de Maria Poranci.

É importante destacar que, nos países industrializados, as mulheres são mais longevas do que os homens. E mais: 85% de todos os centenários são mulheres. Esses números foram apresentados pelo geriatra Tom Perls (fundador do New England Centenarian Study, da Universidade de Boston, e criador do site LivingTo100.com), em agosto, numa entrevista para o site da revista Time. Segundo ele, uma explicação da feminização da velhice  está no atraso que elas têm em relação a doenças cardiovasculares. Disse Tom Perls que, enquanto as mulheres geralmente desenvolvem esses problemas entre 70 e 80 anos, os homens tendem a manifestar enfermidades cardíacas mais cedo, entre 50 e 60 anos.

MANTER A MENTE ATIVA É OUTRO SEGREDO
Um estilo de vida saudável, para obter longevidade, não inclui apenas cuidados com a alimentação e prática de atividade física ao longo da vida. Trabalhos realizados com população de centenários italianos (como destaca artigo publicado em agosto, na Revista Ciência & Saúde Coletiva) mostraram que idosos que mantinham boa atividade mental viviam mais, quando comparados aos que apresentavam algum problema, como isolamento e falta de atividade intelectual.

É por isso que, cada vez mais, profissionais de saúde têm orientado em relação à prática de tarefas que exercitam a mente. A leitura, o hábito de preencher palavras cruzadas e de praticar atividades artesanais são apenas algumas opções que contribuem para o envelhecimento ativo. “Estimular o cérebro do idoso deve ser uma prática tão incentivada quanto a atividade física. As tarefas significativas poderão contribuir na reorganização do tempo ocioso dos mais velhos, na descoberta de potencialidades e no desenvolvimento das habilidades de cada um deles”, explica a terapeuta ocupacional Mauricéa Tabósa, professora da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

O ginecologista aposentado Henrique Mattos de Oliveira, 100, mais conhecido como Mattinhos, é um exemplo de que fazer a cabeça funcionar é uma forma de conservar a capacidade intelectual e se manter participativo. Diariamente, ele faz questão de reciclar seus conhecimentos em língua inglesa. “Gosto de lembrar as lições nos diálogos que passam em fitas cassetes. Quando releio algum de meus livros antigos, percebo que são únicos. Muitos têm tópicos que não são mais apresentados nos livros de hoje”, conta Mattinhos, que também fala francês.

Além de exercitar a mente, o médico tem vida social ativa. “No Rotary Club do Recife Boa Vista, tenho 114 colegas. Com eles, me reúno todas as quartas. Não dá para se entregar à solidão, que é a pior coisa que um idoso pode fazer”, conta Mattinhos, que faz questão de citar que já esteve nos Estados Unidos, na França, na Alemanha e no Japão, sempre a trabalho. “Tenho boa memória.”

“Prestei serviço ao Hospital Pedro II, na Enfermaria Santa Maria, durante 51 anos, sem jamais receber qualquer remuneração”, recorda-se ele, que conta ter sorte com os genes. “Meu pai só faleceu aos 91 anos, minha mãe, depois dos 80. Mesmo assim, não deixo de me cuidar: não bebo e não fumo. Tenho pressão alta, que cuido tomando remédio”, conclui ele.

Publicado na Revista JC - Jornal do Commercio de Pernambuco e no Portal do Envelhecimento.. Texto de Cinthya Leite, pesquisadora mentora.


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