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HOMENAGENS

dercyDercy Gonçalves faleceu aos 101 anos, no Hospital São Lucas, em Copacabana, Zona Sul do Rio, em 19 de julho passado. Segundo a assessoria de imprensa do hospital, Dercy foi internada na madrugada do sábado, com um quadro de pneumonia comunitária grave, que evoluiu para insuficiência respiratória.
Cinco dias antes de falecer, Dercy Gonçalves viveu um grande dia, apresentando-se num Talk Show no Bar do Nelson (a casa que a Rainha da Noite de São Paulo, Lilian Gonçalves, fez em homenagem à memória de seu pai, o cantor Nelson Gonçalves), onde atendeu a imprensa e recebeu muitas homenagens.

O Talk Show foi gravado como um reforço de prova aos esforços de Dercy para entrar no Guiness Book como a artista mais idosa em plena atividade no mundo.

Muito à vontade e com uma disposição incrível para sua idade, Dercy se mostrou surpresa e muito feliz com a quantidade de mídia presente ao evento. Sua chegada, no jaguar de Lilian Gonçalves foi apoteótica. Ao som de percussionistas da Vai-Vai e sob flashes e luzes de dezenas de fotógrafos e cinegrafistas, foi cercada por repórteres de jornais, revistas, sites e emissoras de rádios televisão.

Uma cadeira foi colocada do lado de fora do bar do Nelson e, sentada, Dercy respondeu às perguntas da imprensa por cerca de 40 minutos. Paciente e bem-humorada,  manteve seu estilo desbocado. “Porra, eu sou surda! Fala mais alto!”, “Cacete, deixa os outros perguntarem também!” foram algumas das expressões publicáveis ditas por Dercy aos jornalistas.

Indagada sobre o futuro, contou que ainda planejava muitos shows e comemorações: “Minha avó materna viveu 113 anos. Acho que vou até os 140”, disse ela.

Entre as homenagens que a TV Cultura exibiu dois dias depois da sua morte, o especial Dercy por Dercy, e por alguns amigos, dentro da série Brasileiros e Brasileiras.

No documentário, veiculado pela emissora em 2005, a atriz fala de sua caminhada artística e da relação com sua família. Destaca que toda mulher precisa se cuidar, fazer plástica e, segundo ela, “cortar tudo o que não presta”. Durante todo o programa, Dercy se refere à mulher como “fêmea” e sempre exalta o sexo feminino. Com duração de uma hora, o programa traz ainda vídeos e fotos da carreira da atriz; e possui narração em primeira pessoa, ou seja, da própria Dercy Gonçalves.

Na época em que este especial foi veiculado pela primeira vez, a própria Dercy Gonçalves, em Santa Maria Madalena, no Rio de Janeiro, parabenizou e agradeceu a TV Cultura pela exibição do programa. Segundo Dercy, “este foi o melhor programa já veiculado pela televisão brasileira, abordando o seu jeito de ser e de acontecer

 

ENSINAMENTOS DE DERCY
JUSSARA CÂMARA

Quando há alguns anos a entrevistei procurei adjetivos para defini-la e achei alguns com a letra "i" : irreverente, irrequieta, inteligente. Características marcantes de Dolores Gonçalves Costa, mais conhecida como Dercy Gonçalves.
Ela também é imprevisível. Dercy aceitou pousar nua para a revista Penthouse, antes de completar 95 anos.
Sua vida foi feita de batalhas vencidas. "Meu pai era tão pobre que me registrou e meus 5 irmãos todos juntos. Tenho uma irmã, que é apenas seis meses mais velha do que eu", confidenciou.
Sempre se defendeu, trabalhou em circo, parque de diversões, cabaré e teatro. Fez tudo que gostava e sempre foi feliz. " "Ninguém evita o inevitável. Passei pela vida tudo o que tinha que passar. A vida é como o mar: vai e vem", revelou.
Mas, fome mesmo nunca passou. O que sentiu foi discriminação. Muito garota, aos 13 anos, começou a namorar um rapaz de Santa Maria Madalena, cidade no interior do estado do Rio, onde nasceu e onde hoje, há um museu com seu nome. Mas, a família dele não aprovava. Enviaram até carta anônima para ele, dizendo que ela tinha um caso. "Este foi o pretexto, que ele arranjou para satisfazer a família e daí, nos separamos”, revelou.
Este episódio magoou-a, porque sempre foi sincera. Talvez por isso, a chamam de "desbocada". "As pessoas não falam a verdade, com medo de perder. O que, não sei. ", diz. Para ela, a verdade não é falta de educação e sim, " abrir geladeira na casa dos outros".
Dercy respeitava os outros e gostava de ser respeitada. " Tanto que para ela, amigo é quem não se pode incomodar. “Eu não mexo com os outros e não quero que mexam comigo. Nós temos o livre arbítrio: cada um é o que quer ser. Não posso ridicularizar os outros, como a maioria faz. Não posso ser igual a você, porque cada um tem sua natureza," afirmava.
"Somente caráter e moral é que nascem com a gente, cultura e educação dependem de cada um.  A natureza está sendo modificada e a educação hoje em dia é outra, muita coisa fabricada pela mídia”, eram frases suas.
Para ela, não há diferença entre homem e mulher. Ambos são necessários para o equilíbrio da terra. Apenas, não queria ter nascido mulher, porque naquela época, artista e jogador de futebol não eram considerados, não tinham classe. "Hoje, menina de 10 anos rebola que nem as "putas" da zona faziam", comentava.
Nunca se preocupou com sexo, era um mistério. " Achava que "ela" só servia para fazer xixi. E levei um susto. Não sabia que "ele" endurecia daquela maneira".
"Vim ver homem nu na minha vida, agora, no cinema e teatro. Não condeno, mas reprovo, não acho que seja arte. Minha pornografia foi até o ponto que fiz, o que acontece hoje, sexo muito livre, eu tenho vergonha," revelou.

 Sua disposição era invejável, Festeira como ela só, comparecia a todas as reuniões que era convidada, ia também a Bingos e saía com amigos. Ela nem parecia que já teve tuberculose, numa época em que seu tratamento era complicado. Venceu também um câncer de estômago.
Quando encontrava com mulheres mais jovens, de 65 anos, cheias de "doenças" e sem ânimo, chamava a atenção delas e não aceitava que  se abandonassem tão cedo. " A maioria é vigarista, está chantageando com os filhos, E não pode, de filho só se deve cobrar respeito e crédito", afirmava.
Só teve uma filha e não quis mais. "Não podia nem comigo, imagine mais filhos". Teve dois netos e um bisneto. "Fechei a porta do passado, só quero saber do amanhã. Já vivi muito, uma cota maravilhosa que Deus, dá a poucos" confidenciou.
Na verdade, melhor seria definir Dercy como uma pessoa irresistível, irradiante e inesquecível.



O CIDADÃO BETINHO

btinhoHá onze anos, em 9 de agosto, o Brasil perdia o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Olhos verdes penetrantes, sinceridade e calma ao falar, este mineiro de Bocaiúva era incansável na luta por um país mais justo.
Foi um dos fundadores do Ibase, articulador da Campanha contra a Fome, entre outras iniciativas que marcaram a sociedade civil. Betinho ajudou a transformar a cidadania em algo mais do que um conceito: uma realidade possível em nosso país e por isso mesmo, serve de exemplo para nós e não pode ser esquecido.

 

SOU UM MENINO QUE VÊ O AMOR PELO BURACO DA FECHADURA. NUNCA FUI OUTRA COISA. NASCI MENINO, HEI DE MORRER MENINO. E O BURACO DA FECHADURA É, REALMENTE, A MINHA ÓTICADE FICCIONISTA. SOU (E SEMPRE FUI) UM ANJO PORNOGRÁFICO
Nelson Rodrigues

UM GÊNIO POLÊMICO
JUSSARA CÂMARA

nelsonrodriNelson Rodrigues sempre foi um intelectual controverso, um escritor polêmico eque inovou no jornalismo e dramaturgia ao escrever sobre adultério, incesto, traição e morte, temas estes nunca antes tão expostos.
Ele soube como mais ninguém, expor com criatividade as agruras da personalidade humana, tanto que o crítico Sábato Magaldi classificou sua obra em peças psicológicas (nas quais se incluem A mulher sem pecado e Vestido de Noiva), mitológicas (entre elas, Anjo Negro, Álbum de Família, ambas de 1946) e tragédias cariocas (entre elas, A Falecida, de 1954 e O Beijo no Asfalto, de 1961).

 -“Suas obras eram profundas. Ninguém vê suas peças e sai incólume. Elas incomodam. São uma bofetada", resumiu a professora Maria Luiza Tindó, que conviveu com o jornalista pernambucano Nelson Rodrigues durante dois anos.
E esta sua característica, o tornou o mais importante autor do teatro brasileiro contemporâneo e o que mais causou polêmica em sua época.
Nascido em 23 de agosto de 1912, ainda criança veio para o Rio de Janeiro. Aos sete anos, dividiu o primeiro prêmio de redação da Escola Prudente de Moraes, na Tijuca, Zona Norte do Rio com um colega, que escreveu uma história inspirada nas mil e uma noites, baseada na aventura de um rajá e seu elefante. Nelson descreveu a desgraça de um marido traído que esfaqueou a mulher ao flagrá-la com o amante em sua própria cama.
Mais tarde, em uma de suas crônicas, Nelson explicou que: “ meu teatro não seria como é, e nem eu seria como sou, se eu não tivesse sofrido na carne e na alma, se não tivesse chorado até a última lágrima de paixão o assassinato do meu irmão Roberto". Talentoso desenhista, seu irmão foi assassinado com um tiro dentro da redação do jornal Crítica por engano, por uma mulher que desejava na verdade, matar seu pai, Mário Rodrigues.
O fato de sua vida pessoal ter sido marcada pela polêmica e pela tragédia, como problemas com a tuberculose, a morte do pai, do irmão Paulo que morreu num desabamento, as amantes, a miséria, um filho preso e torturado pelo regime militar - cujas diretrizes ele defendia – levaram-no a adotar o ambiente mórbido, pessimista e descrente da vida em seus escritos. Ele próprio vivia dizendo: "Eu sou um triste!".
Um homem com personalidade forte, torcedor eufórico do Fluminense Futebol Club, Nelson sempre foi figura polêmica, não encontrando um espaço para se enquadrar.  O movimento de esquerda naquela época, o considerava reacionário, enquanto a direita, o chamava de pervertido.
Em entrevista ao JB em abril de 1980, Nelson reclamava que durante toda a década de 40 e toda a década de 50, foi um homem absolutamente só.
- “Combatido, me chamaram de tarado, de cérebro doentio. Poucas pessoas, algumas exceções como Gilberto Freyre, José Lins do Rego e Manuel Bandeira, me estimulavam. Mesmo o Manuel Bandeira chegou pra mim um dia, quando eu e meus personagens éramos odiados, e disse: ' Nelson, por que você não faz uma peça em que os personagens sejam assim como todo mundo? Eu respondi da forma mais singela: 'Mas meu caro Bandeira, meus personagens são como todo mundo.' Porque uma coisa é verdade: quem metia ou mete o pau no meu teatro está procedendo como um Narciso às avessas, cuspindo na própria imagem. "
- O convívio com Nélson foi fascinante, mas havia o medo de ser cercada pela teia de tragédias que o envolviam. "Ele vivia muito solitário, meio soturno e quase não saia de casa. Eu era sua ligação com o mundo, “esclareceu Tindó.
No final da vida, Nelson bastante debilitado, depois de um aneurisma na aorta, morreu no dia 21 de dezembro de 1980, vítima de insuficiência vascular cerebral, após ter sofrido sete paradas cardíacas.

Até hoje, continua sendo o autor brasileiro mais encenado, e um dos mais lidos.


A VOZ QUE MARCOU UMA ÉPOCA
JUSSARA CÂMARA

No dia 31 de agosto de 1972 falecia Dalva de Oliveira, , uma das grandes estrelas dos anos 40 e 50, vítima de hemorragia no esôfago. Natural de Rio Claro, no interior de São Paulo Vicentina de Paula Oliveira, seu verdadeiro nome, tinha uma voz, cuja extensão ia do contralto ao soprano, e que marcou época como intérprete.
Sua carreira iniciou em São Paulo. Depois de terminar o serviço de faxina do salão de danças em que trabalhava, costumava cantar algumas músicas, tentando tirar melodias ao piano. Um dia, foi ouvida pelo maestro pianista, que a convidou para cantar numa "troupe", chefiada por Antônio Zovetti. "Era um cirquinho de tablado", segundo depoimento da cantora, que correu várias cidades de São Paulo, até chegar a Belo Horizonte (MG).
Sua participação acontecia nos intervalos dos espetáculos, quando era anunciada como "A menina prodígio da voz de ouro". Sua mãe foi junto, a convite do próprio empresário. Foi nessa época que passou a usar o nome de Dalva, sugerido pela mãe.
Assim, passaram a anunciá-la como a "doçura de voz da menina prodígio: a estrela Dalva!" Em Belo Horizonte aconselharam-na a fazer um teste na Rádio Mineira. Foi aprovada, mas, com a dissolução do Circo Damasco, voltaram a São Paulo. O maestro aconselhou sua mãe a ir para o Rio de Janeiro.
Dalva empregou-se como costureira numa fábrica de chinelos, da qual um dos proprietários (Milton Guita, conhecido como Milonguita) era diretor da Rádio Ipanema (atual Mauá). Dalva gostava de cantar enquanto trabalhava e Milonguita um dia a ouviu. Convidou-a, então, para um teste na Rádio Ipanema. Foi aprovada e logo depois transferiu-se para as Rádios Sociedade e Cruzeiro do Sul, onde cantou ao lado de Noel Rosa. Depois, passou pela Rádio Philips e finalmente conseguiu trabalho na Rádio Mayrink Veiga.
Na época, Adhemar, diretor da rádio, levou-a para conhecer o maestro Gambardella, que apesar de achar que ela possuía potencial para tornar-se uma cantora lírica, aconselhou-a a manter-se como cantora popular.
Nessa época, foi chamada para trabalhar no teatro com Jayme Costa
Casou-se com Herivelto Martins, com quem teve seus dois filhos, Pery e Ubiratã.

 

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