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O ÚLTIMO COMBATE DE ELZA

 

Mjor-ElzaMajor-Elza

 

Quando as “cobras-fumantes”, as tropas da Força Expedicionária Brasileira, desembarcaram em Nápoles, em 1944, duas mulheres ajudaram a tornar mais leve o fardo dos homens que foram lutar numa guerra cujas razões nem sequer diziam respeito a seu país.

 

Uma delas, Major Elza Cansanção Medeiros, faleceu no dia 8 de dezembro passado, aos 88 anos. Elza era a mulher mais condecorada do Brasil, segundo o Comando Militar do Leste, com 35 medalhas; a primeira brasileira a se apresentar como voluntária na Diretoria de Saúde do Exército, para lutar na Segunda Guerra Mundial, aos 19 anos.

 

Na Itália, Major Elza conheceu Clarice Lispector, que acompanhava o marido diplomata. “Como não havia assistentes sociais no Exército brasileiro, Clarice ‘solicitou das autoridades militares, quer brasileiros, quer americanos, autorização para diariamente visitar o hospital e conversar um pouco com os doentes’, lembrava Elza.” Quem nos revela o fato é o norte-americano Benjamin Moser, autor da biografia Clarice,”.

 

Nos lançamentos de Clarice, em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, as pessoas perguntaram muito sobre as minhas experiências durante o processo do livro. É uma aventura fascinante, sobretudo por causa das pessoas que se encontra pelo caminho. Sempre comento sobre a veterana mais antiga da FEB, a Major Elza, que ainda se lembrava de Clarice Lispector na Itália de 1944, cortando as unhas dos pés dos pracinhas. Elza foi, de fato, uma pessoa única e sempre guardarei na memória nossas conversas, assim como sua dedicação total ao Brasil”, disse Moser ao saber da morte da veterana.

 

Segundo informações de periódicos de Alagoas, terra dos pais de Elza, ela sonhava em lutar na linha de frente, mas teve que se conformar em seguir como uma das 73 enfermeiras no Destacamento Precursor de Saúde da Força Expedicionária Brasileira, já que, na época, o Exército Brasileiro não aceitava mulheres combatentes.

 

O Comando Militar do Leste detalhou a participação de Elza na guerra: ela trabalhou nos hospitais de evacuação na Itália e nenhum soldado que foi tratado por ela morreu. Atuou como oficial de ligação e enfermeira-chefe no 7th Station Hospital, em Livorno. Com o fim da guerra, foi dispensada logo após o retorno ao país, indo trabalhar no Banco do Brasil.

 

Pensei que vocês ficariam contentes em ver o artigo que minha editora,
Cosac Naify, fez em homenagem à Major Elza. Ela me ajudou muito quando
estava pesquisando minha biografia de Clarice Lispector, recém lançada
no Brasil, e está citada muitas vezes no livro.

Foi um privilégio conhecê-la.


Benjamin Moserhttp://editora.cosacnaify.com.br/blog/

 

 

MAJOR ELZA, A MAIS CONDECORADA NO BRASIL

Jussara Câmara

 

 

Major-ElzaElza Cansanção Medeiros foi a primeira voluntária brasileira a participar como enfermeira e oficial de ligação, junto à Força Expedicionária Brasileira na Itália, durante a segunda Guerra Mundial. Das 67 mulheres militares que participaram da guerra, é a única que continua em atividade.

 

Major Elza, como é chamada, é a mulher mais condecorada do Brasil. Possui 36 medalhas, entre nacionais e estrangeiras, o que a torna a mulher mais graduada do Exército e a brasileira mais condecorada da história.

 

Em dezembro passado, recebeu a 36ª medalha: Ordem do Mérito Policial Militar, da Policia Militar do Rio de Janeiro. E no mês passado recebeu em Alagoas, o título de mulher do ano, pelo International Womans' Club.

 

Major Elza foi criada em Copacabana, teve governanta alemã e era o xodó do pai, o médico sanitarista Tadeu de Araujo Medeiros, que trabalhou com Oswaldo Cruz. Na verdade, a admiração entre os dois era mútua. Ela adora citar seus ensinamentos como: "tudo o que um ser humano faz, o outro pode fazer é questão de querer. Portanto, faça-o".

 

Tudo que fez, foi bem-feito. Aprendeu mecânica, porque tinha um fusca que vivia enguiçando. Ela regulava suas velas e carburador. Dirige ultraleve, que aprendeu no Clube da Aeronáutica, quando tinha 60 anos. Domina a culinária, fez todos os cursos de cozinha na época em que estava mudando o fogão de lenha para o de gás.

 

E foi assim desde pequena. Nadava com seu pai da rua Santa Clara até ao Posto Seis. Foi campeã de natação. Teve que aprender línguas, hoje fala cinco idiomas: francês, inglês, italiano, espanhol e xinga em alemão, revela.

 

Foi criada com todos os mimos, fora dos padrões da época. Se não gostava do professor na escola, não ia mais à aula. Aos 4 anos, dirigia um Ford Bigode, sentada no colo do motorista. Aos 12 ganhou seu carro. " Não teve homem que me agüentasse. Às vezes, nem eu me agüento", revela. Sua independência e rebeldia levou-a à guerra.

 

O inusitado é que ela não tinha militares na família, mas por causa de um desentendimento com o pai, resolveu se apresentar como voluntária para lutar na 2ª Guerra. Tinha 19 anos e foi como enfermeira da Força Expedicionária Brasileira (FEB), o exército não aceitava mulheres na linha da frente.

 

Foi um choque. "Viajei como uma menina, cheia de mimos para enfrentar o desconhecido e o desconforto", mas sempre se lembrava da frase do seu pai: "o medo não existe, você é quem o cria".

 

Trabalhou em hospitais de evacuação, distantes do front. Exercendo as funções de enfermeira Chefe do 7th Station Hospital na cidade de Livorno, Itália, e de Oficial de Ligação. Chefiou 24 enfermeiras de nível sócio-cultural diferentes, havendo muita rivalidade. Tem o orgulho de dizer que nenhum paciente seu morreu.

 

Mas, Major Elza sofreu um acidente. " No dia 23 de dezembro de 44, havíamos  recebido umas caixas com presentes para os pacientes, com escova de dente, sabonete, meia etc) e estava indo guardá-las em minha barraca. Ao atravessar a estrada deu alarme aéreo e de um jeep que se encontrava próximo me chamaram para abrigar-me sob ele. Não sabia que há pouco, havia explodido uma granada na calçada e que ali havia um buraco. Ao trocar a passada foi dentro dele e as pontas de cimento atingiram o meu joelho e com o choque fiz uma hérnia na coluna". Esta foi a razão da sua reforma e de ter adquirido uma paralisia progressiva.

 

Passou a amassar barro, exercício aconselhado para seu caso, escultura já tendo ganho 15 medalhas de ouro com elas.

 

Major Elza é uma das principais testemunhas vivas e possui um dos maiores acervos históricos e fotográficos (mais de 5 mil fotos) da participação brasileira na II Grande Guerra.

 

Já escreveu "Nas Barbas do Tedesco" Ed. BIBLIEx, narrando passagens cômicas da guerra. "E Foi Assim que a Cobra Fumou", da Imano Editora e Ed. Arques Saraiva, em resposta ao dito de que era mais fácil a cobra fumar do que a FEB embarcar.

 

"Eu Estava Lá", com textos simultaneamente em português, inglês e italiano, apresentando 907 fotos coletadas por ela, devidamente legendadas, em seqüência cronológica dos fatos, lançado já na Itália e nos Estados Unidos. E atualmente, prepara seu próximo lançamento: "Um, dois, esquerda, direita, mantenha a cadência", sobre a história da mulher nas Forças Armadas.

 

Aos 80 anos, trabalha no Ministério do Exército, dirigindo a Preservação da Memória Histórica para 5ª Seção do CML (Comando Militar do Leste). Sempre arrumada, com écharpe verde que combina com seus olhos e conjunto de seda.

 

Ela ainda segue os ensinamentos do pai: "Quem não se enfeita, por si se enjeita". Não é o seu caso.

 

 Este artigo eu escrevi quando a conheci em 2001 e foi publicado neste site.

 

 

O ANJO CENTENÁRIO
JUSSARA CÂMARA

"....Naturalmente fomos belas, nas fotografias e na vida cotidiana, mas nunca fomos tão extraordinárias como a imagem criada a partir de nós." Trecho do livro autobiográfico Marlene D. - Ed. Nórdica.

Bem-educada, reservada e de família respeitável, ela resolveu ser atriz, levando sempre em conta os ensinamentos da mãe: " Não abras a boca se não tens nada interessante a dizer e não te contentes nunca em destruir o que não te agrada. A vida não é um mar de rosas, nela nem tudo é mel e açúcar, mas, a vida é boa se lutas para que assim seja", descrito em seu livro.

Aprendeu desde cedo que para ser uma verdadeira profissional é preciso entender de tudo. Obediente, extremamente disciplinada, batalhadora e determinada, ela diz que teve sorte de ter como mestre von Sternberg, "foi um confessor, crítico, mestre que se adaptava a todas as minhas necessidades, conselheiro, empresário, porta-voz, pacificador do meu ser e do meu lar, meu amo absoluto. Ele me criou" conclui.

" Eu não descobri a Dietrich. Sou um professor que se impressionou com uma mulher bonita e cuidou de sua apresentação, exaltou seus encantos, ocultou suas imperfeições e a modelou cristalizando nela uma representação afrodisíaca." Palavras do diretor austríaco, Josef von Sternberg, radicado nos Estados Unidos, que a lançou no cinema com O Anjo Azul (Der Blaue Angel, 1930), primeiro filme sonoro do pós-guerra.

Marlene não se achava bonita, criticava seus cabelos, que teimavam em não ficar arrumados, apesar dos cuidados de Nelly Manley, cabeleireira, amiga e guarda-costas que a acompanhou. E "ficava horrorizada" com a importância que davam às suas pernas. "Quando li o roteiro de Desejo (Desire, 1936), vi que o filme começava com um primeiro plano de minhas pernas. Para mim, elas tinham apenas uma função utilitária: a de permitir-me caminhar"...

Ela conhecia suas próprias qualidades e sabia como ninguém, como queria ser fotografada, qual seu melhor ângulo, a melhor luz, mesmo que este " clic " fosse feito por nomes de peso como Cecil Beaton, Edward Steichen, Laszlo Willinger ou Horst P. Horst, entre outros. Tinha naturalidade e espontaneidade. Suas imagens se tornavam lindas, sedutoras.

E este mito de "femme fatale" acompanhou Maria Magdalena von Losch, nome verdadeiro de Marlene Dietrich, mesmo depois de sua morte, ocorrida em 6 de maio de 1992, em Paris. No entanto, esta imagem não correspondia ao que ela era: caseira, mãe dedicada de sua única filha Maria e conhecida entre os amigos, por seus dotes culinários.

Para ela, amizade era o bem mais precioso. "É um sentimento puro, jamais exigente e, por isso, eterno... É a relação humana mais importante e seu alcance supera em muito o do amor, " dito em seu livro.

Entre seus inúmeros amigos famosos, figuravam: Ernest Heminguay, Jean Gabin, Orson Welles, Sir Alexander Fleming, Charles Chaplin, Noel Coward. Resta saber se para eles, a amizade tinha o mesmo significado. Podemos afirmar que Heminguay foi mais do que um amigo, deixando um enorme "vazio" quando se suicidou.

Ela sempre foi reservada, teve seus amores e sua vida resguardados. Não estavam nos seus planos ter sua vida mostrada em museus. Mas, ficaria feliz de saber que seus compatriotas têm orgulho de seu trabalho e se propuseram a homenagear a sua grande diva de cinema em seu centenário.

Marlene Dietrich, que viveu reclusa 22 anos em seu apartamento, na Avenida Montaigne 12, para que o mundo não a visse envelhecer, foi mostrada como foi: a mulher que enlouqueceu tantos homens, muito deles, considerados apenas bons amigos, no ano passado durante o centenário do seu nascimento celebrado no dia 28 de dezembro, em Berlim.

Fotos cedidas pelo Goethe Institut-Rio de Janeiro. Foto 1 - Filme "O Anjo Azul", Alemanha 1930, Marlene e o diretor Josef von Sternberg. / Foto 2 - Filme "Marrocos", EUA. / Foto 3 - Filme "Desire", EUA 1936, Marlene e Gary Cooper. / Foto 4 - Hollywood 1933, fotógrafo Eugene Robert Richee / Foto da Home Page - Hollywood 1937, fotógrafo Cecil Beaton.

Cquote1.png"NASCI AQUI MESMO NO RIO DE JANEIRO, TRÊS MESES DEPOIS DA MORTE DE MEU PAI, E PERDI MINHA MÃE ANTES DOS TRÊS ANOS. ESSAS E OUTRAS MORTES OCORRIDAS NA FAMÍLIA ACARRETARAM MUITOS CONTRATEMPOS MATERIAIS, MAS, AO MESMO TEMPO, ME DERAM, DESDE PEQUENINA, UMA TAL INTIMIDADE COM A MORTE QUE DOCEMENTE APRENDI ESSAS RELAÇÕES ENTRE O EFÊMERO E O ETERNO”.

CECÍLIA MEIRELLES

 CECÍLIA MEIRELES E O RELACIONAMENTO ENTRE GERAÇÕES
DINA FRUTUOSO

 

CeciliaCecilia-Meireles

Esta poeta foi a primeira a colocar as mulheres no patamar dos maiores poetas nacionais, até então, habitado só por homens, com reconhecimento internacional.

Obra vasta, profunda, educativa de 1919 a 1964, ano de sua morte com câncer. São cerca de 2.500 crônicas, trinta livros de poesias. A previsão de sua obra completa, projeto editorial da Nova Fronteira, é de 23 volumes!

O relacionamento entre gerações é tema recorrente neste início de século XXI — aumento da expectativa de vida, dificuldades financeiras e desagregação de valores, tão a gosto da poeta e educadora. Decidimos então, levantar em alguns escritos de Cecília o que nos remeteria às suas idéias sobre tal relacionamento.

A leitura de sua biografia dá pistas sobre a importância de sua avó Maria Jacinta Benevides — portuguesa de Açores, que a criou a partir dos 3 anos — época em que sua mão faleceu pois, o pai morreu antes do nascimento de Cecília.

Os irmãos Carlos, Vítor e Carmine tiveram morte prematura e temos notícias deles pela própria Cecília na crônica "Carta a meus irmãos". Dessa maneira resta à poeta, à avó, personagem recorrente em sua obra, pois, a cada perda lá estava firme D. Maria Jacinta, falecida quando a poeta já estava com 32 anos.

Cito apenas alguns trechos relativos ao relacionamento entre gerações, para instigar o leitor a novas buscas no universo ceciliano: em especial em seus escritos onde declara "o vício de gostar de gente". Nas obras "Criança meu amor" — escrita aos 21 anos e "Escolha o seu sonho" encontramos indisfarçável ternura e vaticínio do encontro em várias idades, destacando amor à vida e o respeito aos outros como em "Genealogia" deste último livro onde volta 5 gerações e projeta 4 séculos).

Em "Afonso quer crescer" - do Criança meu Amor — diz". . . ensinar os ignorantes, para consolar os doentes, para conduzir os velhinhos. . . ou em "Mandamento" — "Os que vieram antes de mim, os que são bons, os que são velhos, aprenderam tudo que é a minha vez de aprender" dando ênfase ao ciclo vital, conclui". . . E quando for a minha vez de saber hei de aconselhar também os que vierem depois de mim".

Já em "Vovozinha" apresenta relacionamento alegre com a avó e a tristeza das perdas pelo envelhecimento. — lembremos que são memórias dos anos 10, 20 pois a avó faleceu em 1933. "E a vovó foi ficando velhinha, cada vez mais velhinha e mais pobre e mais triste. . . Em Natal o seu protagonista compara Papai Noel ao avozinho Gigi: "Então, esse Papai Noel já está muito velhinho. . . Faz coisas trocadas. . . É como o avozinho do Gigi? "E muito mais haverá que apontar no mundo criado pela poeta.

Como Cecília está atual. É necessário refletir sobre o papel dos avós na educação da nova geração, neste século XXI: os abastados têm pais virtuais e avós siliconados e os menos favorecidos muitas vezes são mantidos pela parca e certa aposentadoria, dos avós.

Cecília antevendo esse mundo sempre deu importância à educação, aos valores familiares. Como não falar, com ênfase, no relacionamento entre gerações em Cecília Meireles?

A autora Dina Frutuoso é psicoterapeuta, professora - Doutora da UFRJ/FE e escritora.

"©Copyright: dois textos de autoria de Cecília Meireles e a imagem da mesma, do condomínio dos proprietários dos direitos de Cecília Meireles. Direitos cedidos através de SolombraBooks

 

 

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