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NÃO HOUVE OUTRO IGUAL A ALCEU
Jussara Câmara

casalNo dia 1º de janeiro de 2009, Alceu Penna (na foto ao lado com a irmã Tereza, também falecida) faria 94 anos. Este que foi um dos nossos mais talentosos desenhista, figurinista, criador de estilo e costumes no Brasil e que não teve um substituto.

Natural de Curvelo, Minas Gerais, foi o único que desenhava entre os doze irmãos. Sua mãe, Mercedes de Paula Penna declarou: "aqui em casa é igual ao galinheiro: o que canta melhor; o resto cala a boca ", relata sua irmã Thereza Penna, que viveu com ele durante 30 anos, até sua morte, em 1980. E assim aconteceu. Se algum outro irmão pensou em trabalhar como desenhista, teve se contentar com outra profissão.

Sua mãe lhe ensinou os primeiros traços, mostrando que o olho era igual a uma vírgula; o que o menino Alceu repetia em seus desenhos feitos nas calçadas da rua, com giz emprestado por um alfaiate. Mais, tarde fez um curso de pintura clássica, dado por um dentista.

calendarioAos dez anos foi estudar interno num colégio em São João Del Rey, também em Minas e depois, veio para o Rio, estudar arquitetura. No último ano, achou que este não estava completo, pois faltava a matéria de perspectiva e como não lhe foi dado, preferiu abandonar a faculdade. Nesta época, já fazia as capas da revista O Cruzeiro.

Logo quando chegou ao Rio, procurou J. Carlos, famoso desenhista da época, de quem copiava as melindrosas; e ouviu deste que deveria seguir seu próprio estilo, pois seus desenhos eram muito bons.

Neste período, o oftalmologista Caldas Brito, pai de J. Carlos descobriu que ele era daltônico. A partir daí, passou a marcar a posição de seus guaches para não errar na hora de usá-los e a contar com a ajuda de Thereza.

Alceu Penna foi um criador fora do seu tempo. Alegre, expansivo, crítico e perfeccionista, era através das mãos, que ele se comunicava. E eram também as mãos, sua grande fixação. Elas eram perfeitas e lindas em seus desenhos.

As Garotas de Alceu, que estreou na revista O Cruzeiro, em 1938, veio fixar em duas páginas coloridas um novo padrão de comportamento para a época: o da mulher ideal. "Cada semana os leitores acompanhavam os cabelos, as roupas e o que as garotas faziam. Elas se tornaram um referência nacional durante 28 anos", conta Thereza.

figuraEle iniciou com ilustrações para capa do O Cruzeiro, A Cigarra, livros infantis, O Globo juvenil, O Jornal. Foi ilustrador de anúncios e Folhinhas. Inovador e liberal, uma de suas criações para o Moinho Santista, de 1952 teve que ser mais "vestida" para poder ser lançada. (ao lado a criação censurada, e acima a ilustração "vestida").

Criou também figurinos para shows no Cassino da Urca, Atlântico, Icaraí e do Copacabana Palace. Aos poucos, foi sendo requisitado para criar modelos de noivas, Carnaval e festas de S. João. Até hoje, seus desenhos são muito atuais. E durante muito tempo, foi desenhista da Rhodia.

Em 1939, foi para os Estados Unidos com o propósito de trabalhar em Los Angeles com Walt Disney, a quem conhecia. Como não dominava o inglês, realizou alguns trabalhos e retornou. Sorte nossa que pudemos conviver com o traço elegante e sempre atual de Alceu Penna. É pena que ainda não o homenageamos à altura de seu talento, coisas de Brasil.

Foto e ilustrações gentilmente cedidas em vida  por Tereza Penna, amiga desta colunista (escaneamento e restauração digital - Guilherme Faulhaber).

 

MORRE O CRIADOR DO MELHOR PROGRAMA INFANTIL
DA TV BRASILEIRA

ANTONIO BRASIL

Você talvez não conheça o ator e diretor Fábio Sabag. Aos 77 anos, ele morreu aqui no Rio no último dia do ano. Mas todos os “jovens” com mais de 40 ou 50 anos e que gostam de TV certamente se lembram de sua principal obra: o Teatrinho Trol, um dos mais premiados programas da história da televisão brasileira.

Produzido pela Tupi de 1956 a 1966, o programa fez enorme sucesso com crianças e  adultos. Naquelas tardes de domingo dos primeiros anos da TV no Brasil, todos desapareciam das ruas para assistir aos melhores contos de fadas e peças infantis especialmente adaptados para a TV.

Eram tempos heróicos do meio. Tudo era novo, improvisado e experimental. Com muita coragem e profissionalismo, muitos anos antes da introdução do vídeo-tape, o Teatrinho Trol encenava suas peças infantis ao vivo diante de várias câmeras de TV. Os erros eram inevitáveis, mas a vontade de criar e inovar era ainda maior.

Em preciosa entrevista para o site InfantTV, Fábio Sabag explica esses tempos pioneiros (ver aqui):

“Eu já tinha feito teatro infantil em São Paulo e depois na TV, quando  ela começou. Procurei me cercar do que havia de melhor na época, atores, autores, figurinistas, maquetistas, etc...”

Sobre as dificuldades, ele comenta:

“Não sabíamos o que eram dificuldades, pois a única maneira de se trabalhar era ao vivo. Ninguém sonhava com video-tapes, etc. Os programas eram muito ensaiados. Apesar dos ensaios, falhas eram inevitáveis. Tivemos muitas, dariam um livro.”

Sabag também explica o segredo do sucesso do programa:

“Ficamos no ar durante 10 anos com muito sucesso. O segredo era muita luta, elenco de primeira, pesquisando as crianças, e sempre com a proposta de formação de platéias. Quem assistiu o Teatrinho, teve sempre, ao longo desses anos, um critério na escolha de espetáculos, para seus filhos e netos”.  

PREMIADO E FELIZ
No Teatrinho Trol, grandes nomes da nossa dramaturgia como Fernanda Montenegro, Zilka Salaberry, Norma Blum, Roberto de Cleto, Moacyr Deriquem e até mesmo jovens promissoras como a estrela Christiane Torlone aos 10 anos encantavam toda uma geração com o melhor do teatro adaptado para a TV.

E por trás de toda aquela mágica e inovação estava o jovem Fábio Sabag. Ele se tornaria sinônimo de qualidade e criatividade no Teatrinho Trol:

“A melhor recordação são as pessoas que encontro até hoje, pais, avós, que eram fãs do Teatrinho. Recebemos 120 prêmios e citações nas maiores revistas e jornais do Brasil e de muitos outros países e de escritores, intelectuais, artistas, inclusive da Unesco. Quanto a decepções foram tão poucas, que não deixaram mágoas. Sempre fui e sou feliz.”

Em mais quase 60 anos de atividades profissional, Fábio Sabag teve mais de 7.000 participações como ator de teatro, cinema, televisão e produtor de teatro. Chegou a ter quatro companhias teatrais no Rio de Janeiro.

Só na Globo participou de mais de 20 novelas, além de minisséries e casos especiais.

Mas quem não assistiu ao Teatrinho Trol, não sabe o que perdeu.

 

DÉBEIS MENTAIS

De lá pra cá, com raras exceções como o Sítio do Pica-Pau Amarelo ou o Castelo Ra-Tim-bum, a televisão infantil brasileira tem sofrido muito.

Os programas infantis de Xuxa e suas congêneres contribuíram  de sobremaneira para deseducar e imbecilizar toda uma geração de crianças. A perigosa mistura de estimulo à sensualidade precoce e consumo desenfreado teve péssimos resultados.

Nos EUA, a tentativa da dupla Xuxa e Marlene Matos de introduzir programas infantis com o “molho” brasileiro foi um completo fracasso. Associações de pais, mestres e críticos se uniram para impedir os programas infantis da dupla brasileira. Na terra de bons programas infantis como o Vila Sésamo produzido pela rede pública PBS, essa foi uma sábia decisão  Aqui entre nós, não existe nada pior e mais perigoso do que os programas da Xuxa.

Nos novos tempos, os pequenos telespectadores passaram a serem vistos somente como consumidores e índices de audiência. Todo um trabalho de formação de público, principalmente para as artes cênicas se perdeu. Os teleteatros se transformaram em novelas e os programas infantis tratam as crianças como marionetes.

Fazer programa para crianças deixou de ser investimento no futuro e passou a ser grande negócio para as nossas emissoras.

Antes de morrer, Fábio Sabag já reconhecia esses problemas.

“No mundo tudo muda a cada segundo. As crianças aceitam o que lhes é oferecido pela Tv. Mas, não se iluda. Elas sabem o que querem, mas muitas vezes não têm opções. Além do mais existe o hábito”.

E sobre o futuro, Sabag completa:

A  criança merece um espetáculo, melhor e muito mais bem cuidado do que o dos adultos. Hoje todos os programas, são bem produzidos, mas a maioria é feita com pessoas inadequadas e apresentadores no estilo 'tati-bi-tati'. Pena que tratando as crianças como débeis mentais”.Tudo a ver!

 

Antonio Brasil é  jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Atualmente, faz nova pesquisa de pós-doutorado em Antropologia no PPGAS do Museu Nacional da UFRJ sobre a "Construção da Imagem do Brasil no Exterior pelas agências e correspondentes internacionais". Trabalhou na Rede Globo no Rio de Janeiro e no escritório da TV Globo em Londres. Foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. É responsável pela implantação da TV UERJ online, a primeira TV universitária brasileira com programação regular e ao vivo na Internet. Este projeto recebeu a Prêmio Luiz Beltrão da INTERCOM em 2002 e menção honrosa no Prêmio Top Com Awards de 2007. Autor de diversos livros, a destacar "Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica", "O Poder das Imagens" da Editora Livraria Ciência Moderna e o recém-lançado "Antimanual de Jornalismo e Comunicação" pela Editora SENAC, São Paulo. É torcedor do Flamengo e ainda adora televisão

 

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