vidaememoria

 

 

 (...)

AGORA SIM

CAFÉ COM PÃO

AGORA SIM

VOA FUMAÇA

CORRE, CERCA

AI SEU FOGUISTA

BOTA FOGO

NA FORNALHA

QUE EU PRECISO

MUITA FORÇA

MUITA FORÇA

 

MUITA FORÇA

(...)

 

(TREM DE FERRO, DE MANUEL BANDEIRA),

 

Fonte: parovoz

 

 

 Logo após o prefácio, uma página quase toda em branco convida o leitor: “Embarcar...” A organizadora convidou mais de 20 escritores e 13 deles toparam a missão de vasculhar a memória e transformar as lembranças em palavras. São 17 textos de autores que reviveram sentimentos para contar as experiências de ver e andar de trem. São contos e crônicas que avançam pelos trilhos da obra “Estação Catarina – O Trem Passou Por Aqui”, organizada pela poeta e escritora Fátima Venutti.

 

Estação Catarina é a segunda obra de Fátima Venutti, que segue nos trilhos de um trem. Em 2008, a escritora lançou “Terceiro Apito”, que traz lembranças desde a infância sobre a experiência pessoal de viagens de trens. Logo após o lançamento da obra, Fátima ouviu diversos comentários de amigos e leitores sobre histórias vividas por eles. “O livro fez

as pessoas lembrarem de suas experiências com o trem, e daí nasceu a ideia para o Estação Catarina”, explica.

 

Ao longo da obra, a memória dos autores constrói um cenário cultural, social, econômico e geográfico embarcado na figura do trem e

das ferrovias catarinenses.

 

Estação Catarina – o trem passou por aqui, organização de Fátima Venutti, Editora Nova Letra, 2009, 128 págs, R$ 26,90.

 

 

Trem Farroupilha que ligava Porto alegre a Santa Maria no Rio Grande do Sul em 1913

 

TEM GENTE COM FOME

SOLANO TRINDADE

 

Waldemar e Maria nasceram pobres em 1915. Ele abandonado pela mãe preta, depois de quase morto no mar de Palhoça foi criado como criado e levado para outros lugares, distantes do mar e dos horizontes de todos. Ela esqueceu do passado infame de sua infância que de tão ruim não lembrava de quase nada. Formaram um casal, uma esperança para não morrerem de fome juntos. Sem nada ousaram viver pelo Planalto, entremeados pelo frio e vento cortante. O cobertor  possível eram as pernas quentes de Maria. Com sua carroça ele puxava a vida e os filhos.

 

Os filhos de Waldemar e Maria não eram filhos de Deus. Não nasceram em manjedoura nem receberam a visita dos reis. Eram os filhos da miséria, o saldo do débito, a alquimia e a marca de derrota no olhar. Tinham a pulsação e o ritmo da ausência de tudo. Quando ela começou a parir profusamente, feito animal no cio, ninguém entendeu os desígnios dos céus. Uns depois dos outros, em seqüência inconseqüente.

 

Somente quando o décimo filho nasceu decidiram mudar de vida. Abandonar o frio e a serra até um Vale Açu, um vale de promessas de gente alva, que acreditava que deus ajuda quem cedo madruga. Foi uma viagem longa, desastrosa e perigosa. O trem da fome trazia aqueles que não tinham nada e gemiam pelas curvas perigosas e que deixava nas suas narinas fumaça do medo de um futuro incerto. Era uma viagem de abandono e esperança.

Café-com-pão café-com-pão café-com-pão...

 

Feito bichos peçonhentos escorreram serra abaixo, num trem que não prometia nada, a não ser café-com-pão. De repente chegam ao paradeiro final onde, ao som do freio do trem de aço, jogam as poucas roupas e a quase nenhuma comida no chão, próximo da estação café-com-pão.

 

gare

 

FONTE: Antiga estação ferroviária da Fepasa de Porto Ferreira /SP, atual Casa da Cultura:

 

Ali, naquele lugar onde o trem descansava, passaram a morar Waldemar, Maria e seus filhos tantos, sob a Figueira de um Vale Açu em 1950. Mas aquela felicidade durou muito pouco, pois porcos e pobres sujavam a cidade e fiscais da prefeitura expulsaram aquela gente fétida, magra e feia do lugar.

 

Aquele monte de gente pobre, feia e fétida buscou outra morada, mais digna que uma Figueira, mais quente que o chão batido de uma estação do trem da fome café-com-pão que nunca experimentaram por lá. Fincaram estacas e o barraco sob a ponte dos Arcos, imponente na cor de ouro noutra curva do rio. Eram arcos de trem, de sonhos e de frio cortante que à noite lembrava vento serrano de dor. Todas as noites eram acordados com a promessa café-com-pão que passava pelos trilhos, veloz, levando consigo promessas jamais cumpridas. As nove crias sobreviventes brincavam à beira do rio, junto com a quase nenhuma roupa lavada. Imaginavam-se em lugar quente, com a barriga inchada de tanto comer e não de doer da fome.

 

O vento da Ponte dos Arcos amarelou e adoeceu Bernadete, a bebê de Waldemar e Maria. Pediram, pedintes, os nove filhos, um pouco de pão, leite e abrigo pela 15, pela 7, pelas portas cerradas das mansões da cidade. Nenhum deles conhecia o que era carinho nem dignidade. E o orgulho do pai Waldemar surrava seus descendentes que pediam, pedintes... A mãe escondida, passava ungüento nos ferimentos dos pedintes filhos.

 

E assim iam os dias e tinham que encontrar nova moradia, nova colocação antes que a pequena morresse de pneumonia. E encontraram noutra estação do trem café-com-pão (desta vez na rua Itajaí) sua nova habitação. E não conseguiam dormir com o vai e vem da estação, com o entra e sai de esperanças porta a fora, com a fumaça e os gritos da gente-com-fome café-com-pão meu senhor!

 

Cansado de tanto buscar, procurar lugar para trabalhar: Faço qualquer coisa, senhor... Tenho 9 pra sustenta... e deu as filhas, como escravas, para pros outros lavar, limpar e cozinhar. Assim elas não morreriam de fome e teriam teto pra lhe abrigar. E dando uma, dando duas, dando três, no meio da miséria eles sobreviveram, enquanto outros cinco nasceram.

 

Todos cresceram e trabalharam serviços serviçais, serviçais de todos enquanto o trem chegava e partia, mas nada de novo havia na vida deles que queriam viver.

 

Maria Idalina era boa pra parir e criar manjares de farinha e água. Como choca, protegeu e aleitou todos... Seu seio murcho e caído era o retrato da sua vida... Animais querendo ser gente. Incômodo social. 

 

E cresceram, um a um:

Silvio Waldemar (de 1935) teve outros cinco. Presidiu caça e tiro, virou bicheiro. Morreu com dois tiros certeiros. Alguns filhos, traficantes. Outros, desaparecidos.

 

Neli Maria (de 1936) adotou uma e pariu outra. Surras do marido bêbado, bondades do benzedor. Uma filha, abandonada. Outra vive com o cocho...

 

Júnior Nego (nascido em 1937) teve algum azar. Dos quatro filhos, um suicida, outro traficante. Pouco amor soube dar e na velhice encontrou seu par.

 

Alécio Waldemar (1938) teve quatro. Árbitro papagaio famoso... Uma das filhas grita dia e noite... Outros separados, separando, esperando um novo trem.

 

Um João nasceu antes de completar uma semana, em 1940. Nem valeu a pena registrar...

 

Adilson Waldemar é de 1943 era da Cia Hering. Teve dois filhos com olhos de dor. Não largou o vício e é visto arredondando esquinas, por vezes bêbado, noutras, esquecido de si.

 

Rogério Waldemar deu-se bem. Ano de 1944 era ano do filho da sorte. Carro do ano e vive no centro. Incompreendido da ninhada, dois filhos do bem e muito bem.

 

Wilson Waldemar já nasceu em ano ruim. 1947. Largou a mulher e os três filhos. A cachaça não, sua fiel companheira. Andam juntos pelas ruas e abrigos da cidade.

 

Maria de Lourdes agradeceu a Deus. Nasceu em 1948 e morreu no mês seguinte.

 

Bernadete Terezinha, nascida em 49, era a mais bonita. Tinha namoros mil, casou e separou. Hoje vive sozinha abraçada na amargura e costura com fios de solidão. Com o filho único, neto único de uma vida só.

 

Salete Maria (1951) casou bem com caminhoneiro. Quatro filhos. Descasou do mesmo homem muitas vezes. Uma das filha segue a tradição materna. Mentiras e covil.

Marlene Maria nasceu em 1952 e casou com garçon. Quatro filhos. Um não cresceu até hoje. Ainda servem a todos, todos os dias, numa roda de samsara.

 

Antônio Sérgio, nascido em 1953 era o Dom Juan e casou com a mais bonita. Não durou por falta de ambição. Abandonado, vive de favor. Seu filho quis ser vereador.

Seus olhos de criança pedinte ainda faíscam pedidos de amor.

 

Sônia Maria, de 1955, melhor sorte não teve. Relacionamentos desacertados, queria enricar e teve um filho com olhos azuis de anjo... Agora sem dentes, mora de favor sem CTPS assinada.

 

Cleia Maria foi a última, em 56. Foi pro lado oposto. Negou a vida da mãe. Amou muitas e muito. Vive de favor num puxado da irmã.

 

Minha mãe foi a sexta, em 1941. Crê ter tido sorte na vida. Dois filhos. Viúva de um santo e apartada de um zé ninguém,  come remédios, respira cigarros e vive em sua solidão. Seus braços pouco abraçam e seu coração é doente.

 

Histórias assim, trazidas com o trem da fome, esquecidas cotidianas, escondidas em estações miseráveis. Quando o trem vinha forte, descendo a serra, e soltava aos gritos seus apitos, eles gemiam com o vazio oco de seus estômagos de pobreza. Eram vidas brutas, bruscas, brutais. 

 

Quando ouço o barulho do trem nos batentes de trilhos, vem o canto do café-com-pão que me trás a dor no estômago, a sede dos servos, as histórias que não mudam, da cidade que não inclui sem-teto e sem-nome, as solidões das estações, o desacato e as autoridades. E o frio que vem da serra, que vem como animal peçonhento serpenteando penhascos de vida e que quase sempre, não me alegra nem me encanta. Só dá vontade de chorar e cantar um canto lastimoso, de batidas de ferro, de ritmos de fome: café-com-pão senhor, por favor! Uma esmolinha peloamordedeus!

 

 

 

 

_________________________

 

Direitos autorais (Lei federal nº 9.610/98) - Quando da utilização de material  deste site, deve ser feita a seguinte referência: "extraído de www.idademaior.com.br"