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DIA DE SÃO COSME E SÃO DAMIÃO


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Dia 27 de setembro é dia de pegar doce. Pelo menos era no meu tempo... Eu chegava em casa, vindo do colégio, pegava um sacão e ia pra rua, atrás de guloseimas. Naquele tempo, no tempo das antigas ternuras, as mães não se importavam se os filhos passavam boa parte do dia vadiando pelas ruas. Não tinha perigo. Aliás, tinha muita mãe com filho nos braços disputando os doces com a gente nas filas e aglomerações onde se estavam distribuindo os saquinhos de papel com a imagem dos santos gêmeos...


doces

A tradição diz que eles nasceram na Arábia, de pais cristãos. Tornaram-se médicos na Síria e praticavam a medicina, sem cobrar nada, na Egéia (na Ásia Menor). Isso numa época em que não existia plano de saúde, nem INSS. Tem pesquisador que garante que o mito de gêmeos heróis veio da mitologia greco-romana e que Cosme e Damião eram variações do culto pagão de Castor e Pólux.

Para complicar mais ainda a situação, o culto aos gêmeos médicos foi assimilado sincreticamente no Brasil pelas religiões de origem afro. No candomblé, por exemplo, eles seriam os ibejis, que atendem aos pedidos dos fiéis em troca de doces e quitutes. É comum ver na Umbanda, representações dos dois santos acompanhados de um menino chamado “Doum” (do ioruba: Idowu), que protege as crianças com menos de sete anos.

Lenda ou não, era uma delícia correr atrás de doce no dia 27 de setembro. Em cada saquinho, surpresinhas que faziam a festa da criançada do meu tempo. Ah, que saudade dos doces de antigamente e que recheavam os sacos de Cosme e Damião! Tinha cocada, branca, preta ou rosa, pé de moleque, cocô-de-rato, mariola, doce de abóbora em forma de coração, doce de batata, dadinho, bananada em forma de triângulo no palito, pingo de leite, chiclete Ploc e/ou Ping-Pong, maria-mole, delicado, jujuba, bala Juquinha, bala de tamarindo, bala Toffe, confetti, suspiro, caramelo Embaré, moeda de chocolate, amendoim salgado ou doce, geléia de duas cores (amarela e vermelha), pirulito bola, torrone, paçoca... A cárie e a dor de barriga estavam garantidas! .....

Quando eu fiquei mais rapazinho, além dos doces eu ia atrás de outros prazeres. Tinha algumas meninas taludinhas, que entravam na balbúrdia, disputando os saquinhos. E nós, canalhas juramentados, nos enganchávamos na bunda delas, tirando sarros homéricos.

Depois que enchíamos o sacão com os muitos saquinhos, era comum a gente se sentar e trocar alguns doces que não nos agradavam por nossos preferidos. Tinha gente que não gostava de cocô-de-rato (nome original:

flocos adocicados de arroz) e de pipoca americana. Nem de “colchão-de-mola” (maria-mole entre dois biscoitos quadrados). Eu gostava de tudo. Para mim, se colocasse açúcar em tijolo eu morderia e ainda acharia uma delícia! Tinha casa cuja dona era mais pobrezinha e colocava nos sacos uma mariola, um pedaço de bolo solado e duas balas. Ela tinha feito promessa aos santinhos e dava doces conforme suas possibilidades. Eu não me importava. Emburacava em tudo!

Uma coisa interessante: um amigo meu, criado em São Paulo, disse que isso não tinha por lá. Que só foi tomar conhecimento desse negócio de dar doce de Cosme e Damião no Rio. Será que é um costume local?

A HISTÓRIA

Cosme e Damião foram martirizados na Síria, porém é desconhecida a forma como morreram. Seu culto já estava estabilizado no Mediterrâneo no século V. Perseguidos por Diocleciano, foram trucidados e muitos fiéis transportaram seus corpos para Roma, onde foram sepultados no maior templo dedicado a eles, feito pelo Papa Félix IV (526-30), na Basílica no Fórum de Roma com as iniciais SS - Cosme e Damião.

Alguns relatos atestam que eram originários da Arábia, mas de pais cristãos. Seus nomes verdadeiros eram Acta e Passio. Surgiram várias versões, mas nenhuma comprovada com fundamento histórico. Em uma das fontes, explica-se que eram dois irmãos, bons e caridosos que realizavam milagres. Alguns relatos afirmam que foram amarrados e jogados em um despenhadeiro sob a acusação de feitiçaria e inimigos dos deuses romanos. Em outra versão, na primeira tentativa de morte, foram afogados, mas salvos por anjos. Na segunda, foram queimados, mas o fogo não lhes causou dano algum. Apedrejados na terceira vez, as pedras voltaram para trás, sem atingi-los. Por fim, morreram degolados.

Depois de mortos, apareceram materializados ajudando crianças que sofriam violências. Ao gêmeo Acta é atribuído o milagre da levitação e ao gêmeo Passio a tranqüilidade da aceitação do seu martírio. A partir do século V os milagres de cura atribuídos aos gêmeos fizeram com que passassem a ser considerados médicos, pois, quando em vida, exerciam a medicina na Síria, em Egéia e Ásia Menor, sem receber qualquer pagamento. Por isso, eram chamados de anargiros, ou seja, inimigos do dinheiro. Mais tarde, foram escolhidos patronos dos cirurgiões.
Sempre confiantes em Deus, oravam e obtinham curas fantásticas. Também foram chamados de "santos pobres". Muitos esforços foram feitos para demonstrar que Cosme e Damião não existiram de fato, que eram
apenas a versão cristã dos filhos gêmeos pagãos de Zeus. Isto não é verdade, embora haja evidências de que a superstição popular muitas vezes fez supor haver em seu culto uma adaptação do costume pagão.

No Brasil, em 1530, a igreja de Iguaraçu, em Pernambuco, consagrou Cosme e Damião como padroeiros. No dia 27 de setembro, quando é realizada a festa aos santos gêmeos, as igrejas e os templos das religiões afro-brasileiras são enfeitados com bandeirolas e alegres desenhos.
No candomblé, são associados aos "ibejis", gêmeos amigos das crianças que teriam a capacidade de agilizar qualquer pedido que lhes fosse feito em troca de doces e guloseimas. O nome Cosme significa " o enfeitado" e Damião, "o popular".

Hoje, eu não vejo mais distribuição de doces nas casas. Pelo menos, não na forma como era no meu tempo. O povo tem medo. Com a violência cotidiana não se brinca. E ainda tem os carros nas ruas, atualmente mais numerosos que na minha época. As mães já não deixam os filhos pequenos saírem na aventura em busca dos saquinhos de guloseimas. Putz... Que bosta de vida estas crianças estão tendo, né não? Quando tiverem a minha idade, que antigas ternuras terão pra contar?

Autor Marco Santos, seu blog é http://antigasternuras.blogspot.com


REVOLUÇÃO DE 1932

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A contribuição histórica do movimento constitucionalista para o processo de democratização no Brasil é o tema central do livro "1932: Imagens de uma revolução", da editora Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. A obra procura retratar como o maior conflito bélico do País no século XX é responsável por algumas mudanças no contexto político do início da ditadura do governo Getúlio Vargas.

O livro do historiador Marco Villa, docente do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos, lançado neste mês revela
que em meio ao crescimento de governos totalitários no mundo, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, a luta dos constitucionalistas estava estruturada em democracia, liberdade e cidadania.

A proposta do livro de Villa está longe de fazer louvor à guerra. Pelo contrário: o autor critica como a luta pela democracia deixou de ser tensão politica e caracterizou-se como guerra civil.

A maior guerra brasileira do século XX começou no dia 9 de julho e se estendeu até 29 de setembro de 1932. O conflito envolveu cerca de 85 mil combatentes, sendo 55 mil das forças federais e 30 mil do exército constitucionalista.

A aviação foi usada pela primeira vez em uma guerra civil brasileira. Eram 12 aviões do lado federal e 6 dos constitucionalistas. No início, os aviões fizeram guerra ideológica jogando panfletos sobre a cidade, mas no decorrer dos 90 dias do conflito, os bombardeios atingiram áreas civis, navios, fábricas e usinas elétricas.

Estima-se que o número de mortos em 1932 foi três vezes superior ao de soldados da Força Expedicionária Brasileira que morreram nos campos da Itália durante a Segunda Guerra Mundial: 1.050 soldados federais e 634 constitucionalistas.


O principal objetivo do professor é desfazer as visões reducionistas da Revolução. Marco Villa critica a posição dos que acusam a Revolução de ter sido uma luta marcada pelo conservadorismo e desejo separatista dos paulistas. Ele rejeita também a versão dos que restringem todo o contexto histórico do que aconteceu em 1932 a um mero instrumento do Partido Republicano Paulista (PRP). O movimento seria a reação dos que perderam o poder em 30.

"São essas visões que contribuem para que a data caia no esquecimento público", afirma Marco Villa. O problema dessas versões, segundo o autor, é que a importância política do movimento pela democracia sequer é mencionada. Enquanto isso, o mundo tomava contornos de ditadura.

O Facismo crescia na Itália, o Nazismo na Alemanha, o Salazarismo em Portugal, o Stalinismo na União Soviética e o Franquismo na Espanha. O principal resultado da luta dos constitucionalistas pode ser visualizado no que aconteceu em 1933: a realização das eleições para a Assembléia Nacional Constituinte e o voto feminino, pela primeira vez na história do País.

Entre as imagens da Revolução, o historiador ilustra como os jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro manipulavam as informações para produzir uma imagem positiva de cada movimento para a população.

- "Costuma-se dizer que em uma guerra a primeira vítima é a verdade", analisa o professor. Ele cita como exemplo as matérias sobre constantes vitórias da tropa de São Paulo sobre a federal divulgadas no jornal "O Estado de São Paulo". Essa linha editorial permaneceu até a data de rendição dos constitucionalistas.

A obra "1932: Imagens de uma revolução" é resultado da pesquisa que o professor Villa desenvolve sobre a cidade de São Paulo. Ela é ricamente ilustrada com imagens de armas, tanques de guerra, soldados no campo de batalha, recortes de jornal, mapas de São Paulo e cartazes de propaganda. Seu custo é R$ 60,00.

Marco Antonio Villa é historiador, mestre em Sociologia e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo. Para 2009, o professor já planeja publicar um ensaio intitulado "Breve História de São Paulo". Será um amplo levantamento bibliográfico do século XVI até os dilemas vivenciados no início do século XXI, com destaque para o século XX.

 


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