vidaememoria
 



AS ROSAS NÃO FALAM
COMPOSIÇÃO: CARTOLA
BATE OUTRA VEZ
COM ESPERANÇAS O MEU CORAÇÃO
POIS JÁ VAI TERMINANDO O VERÃO,
ENFIM

VOLTO AO JARDIM
COM A CERTEZA QUE DEVO CHORAR
POIS BEM SEI QUE NÃO QUERES VOLTAR
PARA MIM

QUEIXO-ME ÀS ROSAS,
MAS QUE BOBAGEM
AS ROSAS NÃO FALAM
SIMPLESMENTE AS ROSAS EXALAM
O PERFUME QUE ROUBAM DE TI, AI

DEVIAS VIR
PARA VER OS MEUS OLHOS TRISTONHOS
E, QUEM SABE, SONHAVAS MEUS SONHOS
POR FIM


CARTOLA PARA TODOS

cartolaFoi lançado o CD Cartola para todos, (gravadora MCD) , gravado ao longo de 10 anos para celebrar o  centenário de nascimento deste genial compositor. Ao todo são treze clássicos do mestre da Mangueira em interpretações inéditas de 36 artistas, como Paulo Moura, Marcos Suzano, Toninho Ferragutti, Wanda Sá, Zeca Assumpção, Enok Virgulino, Tobias da Vai-Vai, Mario Manga, Zeca Assumpção, Lelo Nazário, Toninho Ferragutti e Tony Gordon, entre outros.

Considerado o maior sambista da história por diversos músicos, Cartola nasceu no Rio  em 11 de outubro de 2008 e passou a infância no bairro de Laranjeiras. Dificuldades financeiras obrigaram a família numerosa a mudar-se para o morro da Mangueira, onde então começava a despontar uma pequena favela.

Na Mangueira fez logo amizade com Carlos Cachaça e outros bambas, se iniciando no mundo da malandragem e do samba. Arranjou emprego de servente de obra, e passou a usar um chapéu para se proteger do cimento que caía de cima. Era um chapéu-coco, mas o apelido Cartola pegou assim mesmo.

Com seus amigos do morro criou o Bloco dos Arengueiros, cujo núcleo em 1928 fundou a Estação Primeira de Mangueira, a verde-rosa, nome e cores escolhidos por Cartola, que compôs também o primeiro samba, "Chega de Demanda". Seus sambas se popularizaram nos anos 30 em vozes ilustres como Francisco Alves, Mário Reis, Silvio Caldas e Carmen Miranda. Mas no início dos anos 40, Cartola desaparece do cenário. Pouco se sabe sobre essa época além de que brigou com os amigos da Mangueira e que ficou mal depois da morte de Deolinda, a mulher com quem vivia. Especulou-se até que houvesse morrido.

Cartola só foi reencontrado em 1956 pelo jornalista Sérgio Porto, trabalhando como lavador de carros. Porto tratou de promover a volta de Cartola, levando-o a programas de rádio e fazendo-o compor novos sambas para serem gravados.

Em 1964 Cartola e a esposa Zica abriram um bar-restaurante-casa de espetáculos na rua da Carioca, o Zicartola, que promovia shows de samba e boa comida, reunindo no mesmo lugar a juventude bronzeada da Zona Sul carioca e os sambistas do morro.

O Zicartola fechou as portas algum tempo depois, e o compositor continuou com seu emprego publico e compondo seus sambas. Em 1974 gravou o primeiro de seus quatro discos solo, e sua carreira tomou impulso de novo com clássicos instantâneos como "As Rosas Não Falam", "O Mundo É um Moinho", "Acontece", "O Sol Nascerá" (com Elton Medeiros), "Quem Me Vê Sorrindo" (com Carlos Cachaça), "Cordas de Aço" e "Alegria". Ainda nos anos 70 mudou-se da Mangueira para uma casa em Jacarepaguá, onde morou até a sua morte ocorrida em 30 de novembro de 1980.

Fonte: http://cliquemusic.uol.com.br/artistas/cartola.asp

“RASQUEM OS MANUAIS DE PSIQUIATRIA. QUEM QUISER APRENDER PSICOLOGIA DEVE LER MACHADO DE ASSIS E WILLIAM SHAKESPEARE”
Nise da Silveira

NISE: MULHER BRASILEIRA DO SÉCULO XX
Walda Menezes

niseNise da Silveira falecida em 1999, dentre os luminares da ciência, é considerada por muitos a figura feminina exponencial do século XX no Brasil.

Não é de surpreender. Afinal, viveu 94 anos coerente com o que sonhou desde menina – minorar o sofrimento humano. E deixou uma desconcertante bagagem de realizações:

Verbete do Larousse: psiquiatra desde o início da década de 30 do Centro Psiquiátrico Pedro II do Engenho de Dentro, onde desenvolveu revolucionários métodos de tratamento de doentes mentais; criadora do hoje internacionalmente famoso Museu de Imagens do Inconsciente; personagem de Graciliano Ramos com quem à época do Estado Novo, esteve no cárcere; tema de desfile da escola de Samba do Salgueiro; personagem de um filme de Leon Hirszman e assunto de mais de um documentário, tornou-se Dra, Nise amiga e correspondente de Carl Gustav Jung, desde que o grande psicanalista se mostrou particularmente interessado pelas pinturas e esculturas de doentes brasileiros expostas no II Congresso Internacional de Psiquiatria de Zurique, realizado em 1957.

Infensa a glórias, dizia ela: "O que importa é o aqui e o agora, é dar o recado." E ela o dava muito bem, abrindo caminhos para que nascessem expressões dos pacientes do Hospital do Engenho de Dentro que, não apenas fizessem entender o caos em que a doença os mergulhara, como tornasse legível para os que os tratavam, que havia ali uma realidade até então, inexplorada.

Tudo, com certeza, inspirado à Doutora Nise pelo sentimento que tinha enriquecido a sua vida e que ela confessava singelamente ter sido a sua inspiração maior: "O amor àqueles que só conhecem a solidão, a doença mais devastadora de nossos dias".


Hoje, se viva fosse receberia uma homenagem de, Bernardo Carneiro Horta, que conviveu com ela por 12 anos. Ele é o autor de “Nise, arqueóloga dos mares”, livro que revela todo o lado do humor, da ternura e contradições desta psiquiatra que ganhou o apelido de Anjo Duro do falecido psicanalista Helio Pellegrino, porque ela sabia ser ao mesmo tempo doce e feroz.

Foto: Dra. Nise com Raphael Domingues, interno e pintor.


ENCONTRO MARCADO COM DEUS
JUSSARA CÂMARA

sabinoO escritor Fernando Sabino morreu em sua residência, em Ipanema, ao lado de dois filhos, um dia antes de completar 81 anos, em 2003. Nascido em Belo Horizonte, em 12 de outubro de 1923, ele lutava contra um câncer no esôfago há dois anos.

Sabino escreveu 50 livros, entre eles, O encontro Marcado, que teve 75 edições, média de duas anuais no Brasil e várias no exterior. O grande mentecapto, que começou a escrever em Nova York, e só iria retomar 30 anos depois, quando enfim o publicou, em 1979, ganhando o Prêmio Jabuti. E O homem nu, todos grandes sucessos de crítica e público.


No total, vendeu mais de três milhões e 200 mil exemplares, sendo um dos autores brasileiros de maior prestígio comercial. Seu último romance publicado, Os movimentos simulados, saiu em maio deste ano, pela editora Record, que detém os direitos de sua obra.

Fernando Sabino adorava ler livros na adolescência, publicou um conto policial com apenas 11 anos. Publicou seus primeiros contos "Os grilos não cantam mais", em 1941 e a novela A Marca, em 1944, que receberam elogios de Mario de Andrade, com quem o escritor manteve uma longa correspondência de aprendizagem, reproduzida no volume Cartas a um jovem escritor e suas respostas, de 2003.

Quando se mudou para o Rio, Sabino passou a conviver com Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Di Cavalcanti, Manuel Bandeira e outros influentes intelectuais. Foi desde esta época que mantinha amizade com Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, descrita no livro de correspondência Cartas na mesa, de 2001.

Segundo o crítico literário e poeta Affonso Romano de Sant'anna, crítico literário e poeta, " com ele foi um pedaço de Minas, do Brasil e de nós mesmos. Poucos escritores conseguiram uma audiência de público tão diferenciada. Foi uma ponte entre os modernistas e a minha geração. Todo jovem escritor leu em algum momento O encontro marcado", disse.

Durante o ano de 1959, trabalhou como correspondente na Europa para o Jornal do Brasil , para o qual também cobriu a Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra.

Nos anos 60, Sabino torna-se cronista. São desta época livros como O homem nu, A mulher do vizinho (Prêmio Fernando Chinaglia do Pen Club) e A companheira de viagem.

Em 1991, publicou Zélia - uma paixão, biografia autorizada de Zélia Cardoso de Mello, ministra da Fazenda no governo Collor. A crítica não perdoou o livro. Amargurado com o clima hostil, o escritor, que já era avesso a entrevistas, se fechou mais ainda.  A partir daí vive uma vida mais reclusa, saindo apenas para seu passeios em Ipanema  e ir à missa.


"...LIBERDADE, ESSA PALAVRA
QUE O SONHO HUMANO ALIMENTA
QUE NÃO HÁ NINGUÉM QUE EXPLIQUE
E NINGUÉM QUE NÃO ENTENDA..."
Cecília Meirelles
(ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA)

TUDO SERIA FÁCIL SE NÃO FOSSEM AS DIFICULDADES
BARÃO DE ITARARÉ

UMA FIGURA EXTREMAMENTE IRREVERENTE
JUSSARA CÂMARA

baraoÉ uma pena que as novas gerações nem saibam quem foi o gaúcho Aparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o Barão de Itararé. Este escritor, poeta e humorista que faria no próximo dia 29 de janeiro, 114 anos, foi um dos brasileiros mais criativos e irreverentes que tivemos. Ele mesmo decretou que seu epitáfio deveria ser : "esse grande herói que a Pátria chora em vida e há de sorrir incrédula quando o souber morto".

O Barão chegou ao Rio em 1925, trabalhando em O Globo e, na A Manhã de Mário Rodrigues. No ano seguinte, fundou A Manha e em 1930, se auto-proclamou, Duque de Itararé, herói de uma batalha que não houve.  Semanas depois, ele mesmo se rebaixou a Barão como prova de modéstia.

Até em sua biografia, o Barão brincou com duas informações verdadeiras: o seu ano de nascimento, 1895 e por sua passagem pela Faculdade de Medicina.

Itararé declarava, que podia provar que tinha, na verdade, menos 10 anos de idade, perdidos repetindo o segundo ano do curso de Medicina em Porto Alegre e dois, na prisão, ''onde se enclausurou para meditação e retiros espirituais, como hóspede do Estado e com guarda permanente a sua disposição''.

E foi por causa de sua irreverência que o Barão foi preso inúmeras vezes. Suas constantes estocadas contra o governo instalado pela revolução, eram estampadas nas páginas do seu semanário "A Manha" tablóide de circulação nacional, publicado entre 1926 e 1935, com algumas interrupções.

Em outubro de 1934, ele lançou o "Jornal do Povo", de caráter político-doutrinário, em companhia de Aníbal Machado, Pedro Mota Lima e Osvaldo Costa.  Nos dez dias em que durou, o jornal publica em fascículos a história de João Cândido, um dos marinheiros da revolta de 1910.  Por causa disto, o Barão é seqüestrado e espancado por oficiais da marinha nunca identificados.  Depois do atentado retorna à redação e afixa uma placa na porta: "Entre sem bater".


DE ONDE MENOS SE ESPERA,
DAÍ É QUE NÃO SAI NADA.

BARÃO DE ITARARÉ

Preso, novamente, em 1935, ficou na prisão durante todo o ano de 1936, onde conviveu com Hermes Lima, Eneida de Morais, Nise da Silveira e Graciliano Ramos. Depois de solto, reabriu A Manha, que só conseguiu funcionar por um ano, sob censura.

Durante seis anos, a partir de janeiro de 1938, publicou no Diário de Notícias a coluna ''A manhã tem mais...''. Durante o Estado Novo (1937-1940), classificado por ele como "o estado a que chegamos", é preso mais vezes.

Em 1945, ressurge A Manha. Mas, três anos depois, em virtude de problemas financeiros, ele deixa de circular. Em 1950, o reaparece, editada em São Paulo, onde o humorista viveria até setembro de 1952, quando o jornal deixa de circular, definitivamente.


ESTE MUNDO É REDONDO,
MAS ESTÁ FICANDO MUITO CHATO

BARÃO DE ITARARÉ

ALMANHAQUE
almanhaqueEm 1949, aos 54 anos, associa-se ao paraguaio caricaturista e artista gráfico Guevara e lança, em São Paulo, o primeiro lmanhaque, um dos seus grandes sucessos. Este novo empreendimento criado para dar lucro, tinha inúmeros anúncios, passatempos, jogos, anedotas, quadrinhas, curiosidades, como frases que se lêem da mesma maneira de trás para frente (somar só os ramos); e contos humorísticos.

Paródia dos almanaques tradicionais, o Almanhaque reunia textos do Barão como alguns dados biográficos: " Senhor feudal de Bangu-sur-mer, o Barão seria um ''homem sem segredos que vive às claras, aproveitando as gemas e sem desprezar as cascas''.

E evidentemente é recheado de sátiras aos políticos e à política em geral. Getúlio, ainda vivendo o exílio em São Borja, aparece ali em uma ou duas situações, sem muito alarde. Alusão à sua próxima volta à Presidência é o anúncio, aliado a uma daquelas típicas montagens fotográficas de A Manha, onde se informa que o ''sr. G. Túlio Vargas, que já foi campeão presidencial de golfo e ping-pong'' e está se dedicando ao futebol, tem treinado diariamente em sua fazenda, ''organizando uma equipe com a qual tenciona disputar, para o ano, o campeonato nacional''.

Outra marca do humor do Barão são as chamadas máximas e mínimas do Barão, que ele publicava no Almanhaque, como estas:.

Mais vale um galo no terreiro do que dois na testa.

Quem empresta, adeus...

Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.

Quando pobre come frango, um dos dois está doente.

O erro do governo não é a falta de persistência, mas a persistência na falta.

Depois do governo ge-gê, o Brasil terá um governo ga-gá. ( Ge-gê: apelido de Getulio Vargas. Ga-gá: referia-se às duas primeiras letras no sobrenome do novo presidente, Eurico Gaspar Dutra).

O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.

A estrela de Belém foi o primeiro anúncio luminoso.

Anistia é um ato pelo qual o governo resolve perdoar generosamente as injustiças que ele mesmo cometeu.

Urçamento é uma conta que se faz para saveire como debemos aplicaire o dinheiro que já gastamos. Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados.

Adolescência é a idade em que o garoto se recusa a acreditar que um dia ficará chato como o pai.

O advogado, segundo Brougham, é um cavalheiro que põe os nossos bens a salvo dos nossos inimigos e os guarda para si.

Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo que o deixaria louco de raiva se acontecesse com você.

A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.

A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.

De 1964 a 1970, viveu sozinho e afastado da imprensa, realizando pesquisas esotéricas. O Barão de Itararé morreu em 27 de novembro de 1971, no Rio de Janeiro.

Seu trabalho, embora esquecido para vastas parcelas do público, foi fundamental para a formação de um novo humor no Brasil, que se  vinculou à luta pelas liberdades do homem e de suas verdades.


QUE PAUL NEWMAN CONTINUE SE DIVERTINDO LÁ EM CIMA...
Celso Lungaretti

paulPaul Newman morreu, aos 83 anos. Não era um ator extraordinário, mas tinha carisma e um faro quase infalível para escolher papéis que o destacariam.

Parecia ser um sujeito simpático e de bem com a vida. Mas não lhe faltava coragem nem discernimento político, pois fez campanha por Eugene McCarthy, pré-candidato à presidência que, já em 1968, propunha-se a tirar os EUA do Vietnã.

Não era qualquer celebridade que ousava associar sua imagem à do santo guerreiro Gene, tão amado pelos estudantes quanto detestado pelos conservadores e reacionários de todos os matizes (que seriam apropriadamente designados por Richard Nixon como maioria silenciosa, em contraposição à minoria que falava porque tinha o que dizer...).

Ao desacelerar sua carreira cinematográfica, continuou em evidência como um dos proprietários da equipe Newman-Hass, uma das principais escuderias da Fórmula Indy.

Mesmo com câncer terminal, respondia com gracejos às indagações sobre seu estado de saúde. Impossível não simpatizarmos com ele.

Os críticos ressaltarão, como sempre, os seus olhos azuis. O que mais me chamava a atenção era a voz grossa, que parecia pertencer a um grandalhão, não a um indivíduo de porte mediano.

Também deve sair uma enxurrada de matérias citando o boxeador Rocky Graziano como seu primeiro grande personagem, em Marcados Pela Sarjeta (dirigido por Robert Wise, 1956). Críticos de cinema detestam pugilismo, daí desconhecerem quase tudo nessa área.

Pouquíssimos aficionados do boxe perceberão que a referência é ao lendário Rocky Marciano, um dos maiores pesos-pesados de todos os tempos, que venceu todas as 49 lutas que travou como profissional (43 delas por nocaute).

O sobrenome italiano causava estranheza nos EUA e acabou substituído por um apelido de sonoridade parecida, naqueles tempos que marcianos e OVNI’s tiravam o sono dos simplórios norte-americanos.

Newman estrelou um filme antológico em 1962: Desafio à Corrupção (d. Robert Rossen). Foi a melhor atuação de sua carreira, como o craque da sinuca Eddie Felson, que enfrenta o grande campeão Minnesota Fats (Jackie Gleason) e, embora seja mais talentoso, perde por falta de personalidade. Começa, então, a descida aos infernos na qual ele forjará seu caráter, a um preço terrível.

Em qualquer outro ano, Newman certamente ganharia o Oscar. Naquele, entretanto, teve de competir com outra culminância: Gregory Peck, em O Sol É Para Todos (d. Robert Mulligan).

Também Desafio à Corrupção não levou sorte, pois bateu de frente com o superlativo Lawrence da Arábia (d. David Lean).

Para compensar, a Academia o premiou por retomar o personagem Eddie Felson numa medíocre seqüência cometida por Martin Scorcese em 1986: A Cor do Dinheiro.

Muito mais merecedoras de estatuetas foram suas performances em obras-primas como Um de nós Morrerá (d. Arthur Penn, 1958), O Indomado (d. Martin Ritt, 1963), Rebeldia Indomável (d. Stuart Rosenberg, 1967), Hombre (d. Martin Ritt, 1967), Oeste Selvagem (d. Robert Altman, 1976), Quinteto (d. Robert Altman, 1979) e O Veredicto (d. Sidney Lumet, 1982).

Aliás, mesmo seu desempenho em amenidades simpáticas como Butch Cassidy (d. George Roy Hill, 1969), Golpe de Mestre (d. George Roy Hill, 1973) e Roy Bean, o Homem da Lei (d. John Huston, 1972) foi artisticamente superior ao de A Cor do Dinheiro, um papel sem verdadeiras exigências, que ele representou correta mas burocraticamente.

O personagem também não ajudava. Scorcese pisou feio na bola. Felson termina Desafio à Corrupção como um homem que se reconstruiu ao confrontar e vencer a podridão ambiente. E começa A Cor do Dinheiro como o veterano que adestra outro jovem para seguir o caminho que ele, enojado, rejeitara. Talvez Newman tenha percebido esta incongruência e optado por manter um certo distanciamento.

De resto, é impressionante a lista de grandes diretores com quem Newman trabalhou. Aos citados acima devem-se acrescentar, ainda, Richard Brooks (Gata em Teto de Zinco Quente, 1958, e Doce Pássaro da Juventude, 1962) e Otto Preminger (Exodus, 1960).

Na Hollywood de então, não se era cineasta de primeira linha sem saber dirigir atores. Esses medalhões souberam extrair de Paul Newman atuações quase sempre marcantes, que não sairão tão cedo da lembrança de quem, como eu, curtia intensamente o cinema nas décadas de 1950, 60 e 70 – as do seu apogeu.

Que descanse em paz. Ou, melhor ainda, que continue se divertindo lá em cima...

Celso Lungaretti, 57 anos, é jornalista e escritor. Mantém os blogs O Rebate, em que disponibiliza textos destinados a público mais amplo; e Náufrago da Utopia, no qual comenta os últimos acontecimentos.
http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/

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